Menor ímpeto de contratar reflete compasso de espera em empresariado, diz FGV

Menor ímpeto de contratar reflete compasso de espera em empresariado, diz FGV

Publicado em 6 de setembro de 2023

“O mercado de trabalho reage sempre um ‘pouquinho’ depois da economia”, aponta a entidade.

O empresário encontra-se em compasso de espera no que se refere a novas contratações e aguarda melhora mais forte na economia para abrir mais vagas. A observação partiu do economista Rodolpho Tobler da Fundação Getulio Vargas (FGV) ao comentar a queda de 1,1 ponto no Indicador Antecedente de Emprego (IAEmp) de agosto, para 76,9 pontos, anunciada nesta terça-feira. Foi a retração mais forte desde novembro de 2022 (-6,7 pontos).

 No entendimento do especialista, apesar das boas notícias na economia no segundo semestre, com resultados favoráveis de indicadores macroeconômicos, a visão do empresário é de que a economia ainda opera em ritmo fraco. Isso influencia a decisão de contratar ou não nos próximos meses, o que afeta o resultado do IAEmp, notou.

Entre os que se mostram em compasso de espera para abrir novas vagas, notou o técnico, estão setores mais intensivos em emprego, como serviços e indústria da transformação. No caso de serviços, essa área é a maior empregadora formal da economia.

O economista comentou que, mesmo com notícias favoráveis sobre a economia, a impressão de que a atividade opera em alta não é homogênea para todos os segmentos. “Tivemos, sim, uma melhora na economia no segundo trimestre”, admitiu Tobler. Ele lembrou alta de 0,9%, acima das expectativas de mercado, do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro no segundo trimestre, em relação aos três meses antecedentes, anunciada na semana passada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). “Mas a expectativa [para esse ano] não é de ‘supercrescimento’ econômico. Serviços deve terminar positivo, mas fraco. E indústria da transformação também”, afirmou.

Outro aspecto a influenciar o recuo de agosto do IAEmp foi a intensa volatilidade do indicador esse ano. De janeiro a agosto, o indicador subiu quatro vezes; mas também caiu quatro vezes, notou.

Além disso, o especialista lembrou de outro detalhe do mercado de trabalho brasileiro a influenciar o desempenho do IAEmp. No Brasil, lembrou, o emprego é sempre o “último a reagir”. Ou seja, os empresários só começam a contratar mais quando percebem processo de crescimento contínuo e sustentável na economia, com demanda em alta que justifique abertura de novas vagas, para atender ao consumo interno em expansão.

“O mercado de trabalho reage sempre um ‘pouquinho’ depois da economia”, resumiu.

Ele admitiu que a perspectiva de continuidade de redução de taxa de juros básica (selic) no segundo semestre, conforme projeções de mercado, pode ajudar a melhorar mais a economia. Quando a Selic cai, os juros de mercado caem também, assim como os de crédito usado para consumo interno – o que eleva demanda e impulsiona a economia. Mas o técnico lembrou que o efeito na economia real de Selic mais baixa não é imediato e demanda meses. Ao mesmo tempo, as famílias ainda operam com patamares elevados de endividamento e de inadimplência que, mesmo em cenário de inflação menos pressionada, inibe compras.

Assim, quando questionado qual seria trajetória futura do indicador, o técnico foi cauteloso. O mais provável é que continue a oscilar até o fim do ano, afirmou. “Não acho que teremos tanto otimismo até o fim do ano” disse. “Mas também não creio que essa queda represente uma nova trajetória negativa para o indicador”, afirmou.

Fonte: Valor Econômico
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