Mercado aquecido impulsiona demissões voluntárias e pressiona retenção nas empresas

Mercado aquecido impulsiona demissões voluntárias e pressiona retenção nas empresas

Publicado em 11 de fevereiro de 2026

O avanço das demissões voluntárias no Rio Grande do Sul ao longo de 2025 acompanha uma tendência observada em nível nacional e reflete tanto o ciclo recente de aquecimento econômico quanto transformações estruturais na relação dos trabalhadores com o emprego formal.

Os desligamentos a pedido mantêm participação elevada no total de rescisões, movimento que já vinha sendo observado em levantamentos anteriores e que ganhou força no período de maior dinamismo da atividade econômica.

Segundo o analista sociólogo e chefe da Seção de Informação e Pesquisa da Fundação Gaúcha do Trabalho e Ação Social (FGTAS), Juliano Almeida, o movimento está diretamente ligado à melhora dos indicadores do mercado de trabalho. “O aumento dos desligamentos a pedido está relacionado à redução da desocupação e à ampliação das oportunidades. Esse contexto amplia o poder de negociação do trabalhador, que passa a buscar melhores condições de trabalho, jornada e qualidade de vida”, afirma.

Ele destaca ainda que a decisão de pedir demissão costuma estar associada à existência de novas oportunidades. “Quando o trabalhador pede demissão, ele abre mão de seguro-desemprego e multa rescisória. Isso mostra que, em muitos casos, ele já vislumbra outra oportunidade ou está buscando sair de um ambiente que não atende mais às suas expectativas.”

O perfil predominante dos pedidos de demissão concentra três grupos principais: jovens entre 18 e 24 anos, mulheres e trabalhadores com maior escolaridade. Para a população jovem, o movimento está associado ao início da trajetória profissional, período marcado por maior experimentação e busca por melhores oportunidades. Já entre as mulheres, o avanço das demissões voluntárias está ligado à sobrecarga da economia do cuidado, ainda concentrada no público feminino, envolvendo responsabilidades com filhos, idosos e tarefas domésticas.

“Hoje o trabalhador não avalia só salário. Ambiente organizacional, saúde mental e jornada compatível com a vida pessoal passaram a pesar muito na decisão de permanecer ou sair de uma empresa”, avalia Almeida.

Entre trabalhadores com ensino médio completo ou nível superior, a mobilidade tende a ser maior, tanto pela qualificação quanto pelo acesso mais amplo às oportunidades. Outro fator relevante é a rejeição crescente a jornadas consideradas exaustivas, como trabalho noturno, finais de semana e escalas prolongadas, com impacto direto nos setores de comércio e serviços. Questões ligadas à cultura organizacional, conflitos com liderança e percepção do ambiente de trabalho também influenciam decisões de desligamento.

No plano nacional, a economista e pesquisadora do FGV IBRE, Janaína Feijó, avalia que o recorde recente das demissões voluntárias está associado ao forte aquecimento da atividade econômica entre 2024 e o primeiro semestre de 2025. “Com a economia aquecida e maior oferta de vagas, trabalhadores com maior escolaridade passaram a ter mais facilidade para migrar entre empregos e escolher melhores condições”, explica.

Segundo a pesquisadora, o movimento é mais intenso em regiões economicamente mais dinâmicas, como Sul e sudeste, onde há maior geração de empregos formais. “Regiões mais dinâmicas tendem a concentrar mais pedidos de demissão porque oferecem mais oportunidades de recolocação.”

A composição da economia brasileira também influencia esse comportamento. Com forte predominância do setor de serviços, que responde pela maior parte da atividade econômica do país, a circulação de trabalhadores entre empregos tende a ser mais intensa. Ao mesmo tempo, aumenta o contingente de profissionais que deixam vínculos formais em busca de maior autonomia, seja por meio do empreendedorismo, do trabalho por conta própria ou de atividades associadas à economia digital.

Dessa forma, a remuneração deixa de ser o único elemento decisivo na permanência no emprego. Aspectos como flexibilidade de jornada, possibilidade de trabalho híbrido, pacote de benefícios e até a localização do posto de trabalho passam a ter peso relevante na decisão do trabalhador.

A disseminação da inteligência artificial também influencia o mercado, principalmente pela reorganização de tarefas dentro das ocupações. Funções repetitivas tendem a ser mais impactadas, enquanto trabalhadores qualificados podem incorporar a tecnologia como ferramenta de produtividade.

Para 2026, a tendência dependerá do comportamento da atividade econômica e do ciclo de juros. A expectativa de redução gradual da taxa básica pode estimular investimentos e geração de vagas formais. Ainda assim, especialistas avaliam que a mudança no comportamento do trabalhador tende a se consolidar.

Fonte: Jornal do Comércio
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