21 out Mercado contrata mais mulheres, mas disparidade persiste
Mercado contrata mais mulheres, mas disparidade persiste
Estudo do FGV Ibre mostra que saldo de vagas formais este ano aumentou 45,2% para o público feminino e apenas 10,1% entre os homens.
Em um cenário em que as mulheres permanecem sub-representadas no mercado de trabalho, o ritmo de geração de vagas formais para elas em 2024 até agora foi muito superior àquele dos homens. O movimento ajudou a reduzir a desigualdade na composição desses novos postos de trabalho no país. A conclusão é do estudo “Quais os grupos mais beneficiados com o bom desempenho do mercado de trabalho em 2024”, das pesquisadoras do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) Janaína Feijó e Helena Zahar.
Especialistas dizem que o movimento observado em 2024 é bem-vindo e puxado principalmente pelo aquecimento do emprego, mas isso não muda a desigualdade estrutural por gênero existente no mercado de trabalho e ainda é preciso aguardar para confirmar se a tendência se mantém daqui para frente.
A partir de dados do Novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), o estudo mostra que o saldo de vagas formais de trabalho ocupadas por mulheres cresceu 45,2% de janeiro a agosto de 2024, frente a igual período de 2023. Entre homens, o aumento foi de 10,1%. Do saldo de empregos formais criados em 2024, até agosto, 46,4% foram ocupados por mulheres e 53,6% por homens. Em igual período de 2023, essas parcelas foram de 39,6% e 60,4%, respectivamente.

O movimento permite deixar para trás 2023 – quando houve perda da parcela feminina no saldo de novas vagas formais – e retoma para nível próximo aos anos de 2021 e 2022, mas que são considerados atípicos por causa da recuperação no pós-pandemia, afirma Feijó.
“Embora o mercado de trabalho ainda seja desequilibrado, já foi muito mais. O bom desempenho em 2024 contribuiu para que fosse possível absorver essa mão de obra feminina em geral. Este ano, o mercado reagiu e ajudou a combater essa desigualdade”, afirma Feijó, economista especializada em questões de gênero no mercado de trabalho, entre outros temas.
Por trás da maior velocidade de expansão das vagas formais entre as mulheres no país em 2024, as pesquisadoras do FGV Ibre acreditam há influência do perfil dos setores que puxaram a expansão – principalmente serviços, comércio e atendimento ao público -, nos quais o público feminino está mais presente.
“As ocupações que mais têm gerado [vagas] são também aquelas que tendem a absorver mais mulheres, como é historicamente o caso do setor de serviços. Só que a remuneração não é elevada. Então é uma faca de dois gumes: consegue absorver, mas não a questão de equiparação de salário”, diz a economista do FGV Ibre.
Para a pesquisadora do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e vice-presidente da Sociedade de Economia da Família e do Gênero (GeFam), Ana Luiza Barbosa, a notícia da melhor composição do saldo de vagas formais de trabalho é uma notícia positiva. O fenômeno resulta de uma dinâmica melhor do mercado de trabalho, mas ao mesmo tempo “mascara” a desigualdade de gênero que persiste.
“É uma diferença bastante significativa no ritmo de crescimento do saldo de postos formais. O mercado de trabalho está muito aquecido e de forma contínua. É claro que é uma coisa boa, mas de certa forma mascara um pouco a desigualdade estrutural de gênero”, diz Barbosa.
Na sua avaliação, é difícil dizer se o movimento é permanente. Como está muito ligado ao dinamismo do mercado de trabalho brasileiro como um todo, o comportamento pode ser provisório. “É diferente uma redução de desigualdade no saldo de novas vagas que no mercado como um todo. O que o estudo retrata é a dinâmica do mercado, como ele está funcionando. Ainda assim é uma notícia positiva, mas não dá para dizer que vai continuar”, afirma a pesquisadora do Ipea, que classifica como “muito lenta” a redução das disparidades de gênero no emprego no país.
” É uma coisa boa, mas de certa forma mascara um pouco a desigualdade estrutural de gênero”
A cautela é compartilhada inclusive por Janaína Feijó, uma das autoras do estudo: “O que a gente vê em 2024 é que o mercado de trabalho formal está absorvendo mais mulheres, não se fala aqui sobre a qualidade desses postos. Mas é preciso observar mais tempo para saber se isso vai permanecer. Para isso ocorrer, é preciso que o mercado continue gerando postos de trabalho formais e a absorver mais mulheres”, afirma.
Mesmo com o ritmo mais acelerado de aumento, o saldo absoluto de vagas formais em 2024 ainda é menor entre mulheres (800,2 mil) que o registrado entre os homens (926,2 mil). A disparidade de gênero aparece de forma clara na comparação entre a participação feminina na população como um todo e no mercado de trabalho, quando se considera o estoque total de postos de trabalho.
Na população de 15 anos ou mais, as mulheres são 51,8% do total, e os homens, 49,1%, de acordo com as projeções populacionais 2024 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua – que reúne os mercados de trabalho formal e informal – mostram que as mulheres são 43,7% da força de trabalho, que é o contingente de trabalhadores que está ocupado ou em busca de uma vaga. Os homens respondem pelos 56,3% restantes, parcela superior à de sua fatia na população brasileira.
O nível de ocupação entre as mulheres chegou a 48,1% no segundo trimestre de 2024, recorde da série histórica, iniciada em 2012, mas ainda abaixo dos 50%. Entre homens, a taxa é de 68,3%. O indicador aponta a parcela de pessoas de 14 anos ou mais que estão ocupadas.
O trabalho mostrou a maior absorção de mão de obra feminina em vagas formais de trabalho em 2024, mas esta é apenas parte da desigualdade observada no mercado, diz Janaína Feijó. “Estamos falando só de absorção de mão de obra feminina, o que por si só é uma coisa boa, embora não seja tudo.” Os dados do Novo Caged, do Ministério do Trabalho, apontam que houve pouca alteração no rendimento médio das mulheres no mercado formal.
Na média dos trabalhadores formais, o salário médio real de admissão era de R$ 2.156,86 em agosto de 2024, relativa estabilidade nos 13 meses anteriores. Para os homens, o salário é ligeiramente superior, de R$ 2.245. O ganho mensal das mulheres é de R$ 2.031, mas, por outro lado, apresenta estabilidade.
“Ao longo dos últimos 13 meses, há pequenas variações mensais, mas a diferença entre os salários médios de homens e mulheres permanece evidente, com as mulheres consistentemente recebendo um salário médio de admissão em torno de 10% a 11% menor”, diz Feijó.
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