Mercado de trabalho se recupera com força, mas persistem desequilíbrios

Mercado de trabalho se recupera com força, mas persistem desequilíbrios

Publicado em 24 de agosto de 2022

Criação de empregos se concentra em serviços presenciais e situação não está normalizada, diz FGV Ibre.

O primeiro semestre surpreendeu positivamente com a criação de 2,5 milhões de vagas, com destaque para o número de 1,4 milhão de postos formais e a queda da taxa de desemprego, que recuou de 11,1% em dezembro de 2021 para 9,3% em junho. A recuperação do mercado de trabalho, contudo, esteve excessivamente concentrada no setor de serviços, sobretudo os presenciais, e o desemprego de longa duração segue elevado, assim como o número de subocupados e desalentados, avaliam economistas do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV Ibre). Eles notam ainda que a retomada foi marcada por geração de empregos de baixa produtividade, um fator pouco animador para as perspectivas de crescimento do país.

“Apesar do primeiro semestre excelente, a situação dá sinais de que não está normalizada. Há toda a impressão de ter sido uma recuperação final dos efeitos da covid”, comenta o pesquisador Fernando de Holanda Barbosa Filho. Ele chama a atenção para o fato de 70% dos empregos gerados no primeiro semestre estarem relacionados a serviços presenciais. Em 2021, os mesmos setores responderam por 31% das vagas geradas. “Surpreendeu todo mundo. É difícil prever como se dá a recuperação de uma pandemia, quando volta ou como volta. Voltou todo mundo. Ótimo. Mas, a partir do ano que vem, vamos ver a política monetária atuando e isso deve desaquecer o mercado de trabalho”, pondera ele, referindo-se ao impacto do ciclo de alta dos juros, iniciado em março do ano passado, quando a Selic estava em 2% ao ano.

Para Barbosa, o ciclo eleitoral e o pacote de auxílios do governo que será liberado ao longo do segundo semestre devem fazer com que a desaceleração no mercado de trabalho seja vista só em 2023, apesar da taxa de juros já estar em 13,75%. E a falta de uma recuperação mais espalhada dos empregos pela economia este ano é fator de atenção.

Ciclo eleitoral e auxílios do governo devem trazer desaceleração no mercado de trabalho só em 2023

O FGV Ibre destaca que sete ocupações de baixa produtividade representaram 52% dos empregos criados no primeiro semestre, tanto no mercado informal quanto no formal. São elas: condutores de caminhões pesados e ônibus, comerciantes e vendedores de lojas, cuidadores de crianças e ajudantes de professores, mecânicos e reparadores de máquinas, cabeleireiros, trabalhadores dos serviços de proteção e segurança, e garçons e atendentes de bar.

“O incremento de garçons foi maior do que 100 mil vagas só neste semestre. Entre cuidadores e ajudantes de professor, houve incremento de 220 mil vagas. Parece muito relacionado ao retorno das aulas”, observa Barbosa, adicionando que a tendência é que as contratações desses setores de serviços presenciais tendem a se estabilizar em um momento em que tampouco retornaram aos níveis ideais.

Como exemplo, a taxa de participação da mão de obra ainda está em 62,6% – o indicador mostra a parcela da população em idade para trabalhar que está empregada ou em busca de emprego. Caso retornasse para a média do período entre 2017 e 2019, a taxa seria de 63,4%. “Isso dá que falta 1,4 milhões de pessoas voltarem [ao mercado de trabalho]. Se incluirmos essas pessoas, a taxa de desemprego subiria para 10,4%.”

Para Fernando Veloso, pesquisador do FGV Ibre, a baixa produtividade dos postos de trabalho que dominaram a recuperação das vagas no primeiro semestre permite explicar o momento atual de mercado de trabalho, marcado pelo aquecimento em meio a perspectiva de desaceleração para a atividade econômica.

“Reforça o padrão visto em países europeus e nos EUA. No primeiro trimestre, houve a maior queda de produtividade dos EUA desde 1947 em relação ao trimestre anterior. Aconteceu lá uma recuperação muito forte do emprego, mas o PIB caiu no primeiro trimestre e caiu no segundo. O pessoal de mais baixa produtividade está voltando ao mercado de trabalho. É muito parecido com o que a gente está vendo no Brasil”, diz Veloso. “Normalmente, isso não faria nenhum sentido. A única interpretação possível é a volta represada da pandemia”, adiciona.

A análise do FGV Ibre chama a atenção para o número de cerca de 25 milhões da taxa de subutilização da força de trabalho, que inclui desempregados, os que trabalhavam menos horas do que gostariam e as pessoas que não buscaram emprego, mas estavam disponíveis para trabalhar, além daqueles que procuraram vagas, mas não estavam à disposição para trabalhar na semana de referência da pesquisa. “A situação é bem melhor do que os quase 34 milhões nessas situações que tivemos no pico da pandemia, mas ainda é um nível alto”, avalia Barbosa. Antes da crise de 2015 e 2016, o nível de subutilizados estava abaixo de 20 milhões.

Segundo Veloso, indicadores de horas trabalhados têm sido cada vez mais observados diante da absorção de novas tecnologias e de flexibilizações nas leis trabalhistas. “A pessoa está ocupada, mas trabalha menos do que gostaria. E a renda, consequentemente, também é menor do que ela gostaria. Se as horas variarem muito, a renda pode ser muito volátil. Isso vale também para o mercado formal hoje”, aponta.

Para a economista e coordenadora técnica do Boletim Macro Ibre, Silvia Matos, o desempenho dos serviços, que tem elevado a inflação no setor simultaneamente, deve se manter forte pelo menos até o terceiro trimestre, podendo ser preservado com o aumento do Auxílio Brasil e outros benefícios, como os pagamentos para caminhoneiros e taxistas. O movimento, porém, pode se reverter após os efeitos. “Consumo vai e retrai. Pode criar momentaneamente mais empregos, mas pode ser negativo no segundo momento”, diz ela, reforçando a tese de que a equipe econômica está rifando 2023 para sustentar um crescimento maior agora.

Nesse sentido, Luiz Schymura, diretor do FGV Ibre, alerta que a injeção de estímulo fiscal, embora sustente a economia em 2022, não convence os agentes econômicos a mudarem a postura em relação ao Brasil, o que mantém o risco de desaceleração do mercado de trabalho no ano que vem. “É difícil imaginar que alguém esteja com uma visão muito positiva do Brasil porque aumentou o Auxílio Brasil. Acaba sendo um veneno”, avalia ele, afirmando que, nesse quadro, a percepção geral pode se tornar mais negativa.

Fonte: Valor Econômico
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