24 ago Mercado de trabalho se recupera com força, mas persistem desequilíbrios
Mercado de trabalho se recupera com força, mas persistem desequilíbrios
Criação de empregos se concentra em serviços presenciais e situação não está normalizada, diz FGV Ibre.

O primeiro semestre surpreendeu positivamente com a criação de 2,5 milhões de vagas, com destaque para o número de 1,4 milhão de postos formais e a queda da taxa de desemprego, que recuou de 11,1% em dezembro de 2021 para 9,3% em junho. A recuperação do mercado de trabalho, contudo, esteve excessivamente concentrada no setor de serviços, sobretudo os presenciais, e o desemprego de longa duração segue elevado, assim como o número de subocupados e desalentados, avaliam economistas do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV Ibre). Eles notam ainda que a retomada foi marcada por geração de empregos de baixa produtividade, um fator pouco animador para as perspectivas de crescimento do país.
“Apesar do primeiro semestre excelente, a situação dá sinais de que não está normalizada. Há toda a impressão de ter sido uma recuperação final dos efeitos da covid”, comenta o pesquisador Fernando de Holanda Barbosa Filho. Ele chama a atenção para o fato de 70% dos empregos gerados no primeiro semestre estarem relacionados a serviços presenciais. Em 2021, os mesmos setores responderam por 31% das vagas geradas. “Surpreendeu todo mundo. É difícil prever como se dá a recuperação de uma pandemia, quando volta ou como volta. Voltou todo mundo. Ótimo. Mas, a partir do ano que vem, vamos ver a política monetária atuando e isso deve desaquecer o mercado de trabalho”, pondera ele, referindo-se ao impacto do ciclo de alta dos juros, iniciado em março do ano passado, quando a Selic estava em 2% ao ano.
Para Barbosa, o ciclo eleitoral e o pacote de auxílios do governo que será liberado ao longo do segundo semestre devem fazer com que a desaceleração no mercado de trabalho seja vista só em 2023, apesar da taxa de juros já estar em 13,75%. E a falta de uma recuperação mais espalhada dos empregos pela economia este ano é fator de atenção.
Ciclo eleitoral e auxílios do governo devem trazer desaceleração no mercado de trabalho só em 2023
O FGV Ibre destaca que sete ocupações de baixa produtividade representaram 52% dos empregos criados no primeiro semestre, tanto no mercado informal quanto no formal. São elas: condutores de caminhões pesados e ônibus, comerciantes e vendedores de lojas, cuidadores de crianças e ajudantes de professores, mecânicos e reparadores de máquinas, cabeleireiros, trabalhadores dos serviços de proteção e segurança, e garçons e atendentes de bar.
“O incremento de garçons foi maior do que 100 mil vagas só neste semestre. Entre cuidadores e ajudantes de professor, houve incremento de 220 mil vagas. Parece muito relacionado ao retorno das aulas”, observa Barbosa, adicionando que a tendência é que as contratações desses setores de serviços presenciais tendem a se estabilizar em um momento em que tampouco retornaram aos níveis ideais.
Como exemplo, a taxa de participação da mão de obra ainda está em 62,6% – o indicador mostra a parcela da população em idade para trabalhar que está empregada ou em busca de emprego. Caso retornasse para a média do período entre 2017 e 2019, a taxa seria de 63,4%. “Isso dá que falta 1,4 milhões de pessoas voltarem [ao mercado de trabalho]. Se incluirmos essas pessoas, a taxa de desemprego subiria para 10,4%.”
Para Fernando Veloso, pesquisador do FGV Ibre, a baixa produtividade dos postos de trabalho que dominaram a recuperação das vagas no primeiro semestre permite explicar o momento atual de mercado de trabalho, marcado pelo aquecimento em meio a perspectiva de desaceleração para a atividade econômica.
“Reforça o padrão visto em países europeus e nos EUA. No primeiro trimestre, houve a maior queda de produtividade dos EUA desde 1947 em relação ao trimestre anterior. Aconteceu lá uma recuperação muito forte do emprego, mas o PIB caiu no primeiro trimestre e caiu no segundo. O pessoal de mais baixa produtividade está voltando ao mercado de trabalho. É muito parecido com o que a gente está vendo no Brasil”, diz Veloso. “Normalmente, isso não faria nenhum sentido. A única interpretação possível é a volta represada da pandemia”, adiciona.
A análise do FGV Ibre chama a atenção para o número de cerca de 25 milhões da taxa de subutilização da força de trabalho, que inclui desempregados, os que trabalhavam menos horas do que gostariam e as pessoas que não buscaram emprego, mas estavam disponíveis para trabalhar, além daqueles que procuraram vagas, mas não estavam à disposição para trabalhar na semana de referência da pesquisa. “A situação é bem melhor do que os quase 34 milhões nessas situações que tivemos no pico da pandemia, mas ainda é um nível alto”, avalia Barbosa. Antes da crise de 2015 e 2016, o nível de subutilizados estava abaixo de 20 milhões.
Segundo Veloso, indicadores de horas trabalhados têm sido cada vez mais observados diante da absorção de novas tecnologias e de flexibilizações nas leis trabalhistas. “A pessoa está ocupada, mas trabalha menos do que gostaria. E a renda, consequentemente, também é menor do que ela gostaria. Se as horas variarem muito, a renda pode ser muito volátil. Isso vale também para o mercado formal hoje”, aponta.
Para a economista e coordenadora técnica do Boletim Macro Ibre, Silvia Matos, o desempenho dos serviços, que tem elevado a inflação no setor simultaneamente, deve se manter forte pelo menos até o terceiro trimestre, podendo ser preservado com o aumento do Auxílio Brasil e outros benefícios, como os pagamentos para caminhoneiros e taxistas. O movimento, porém, pode se reverter após os efeitos. “Consumo vai e retrai. Pode criar momentaneamente mais empregos, mas pode ser negativo no segundo momento”, diz ela, reforçando a tese de que a equipe econômica está rifando 2023 para sustentar um crescimento maior agora.
Nesse sentido, Luiz Schymura, diretor do FGV Ibre, alerta que a injeção de estímulo fiscal, embora sustente a economia em 2022, não convence os agentes econômicos a mudarem a postura em relação ao Brasil, o que mantém o risco de desaceleração do mercado de trabalho no ano que vem. “É difícil imaginar que alguém esteja com uma visão muito positiva do Brasil porque aumentou o Auxílio Brasil. Acaba sendo um veneno”, avalia ele, afirmando que, nesse quadro, a percepção geral pode se tornar mais negativa.
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