14 jun Mínimo é insuficiente para comprar cesta básica
Mínimo é insuficiente para comprar cesta básica
Com alta de 1,36%, valor dos alimentos básicos supera o do piso salarial em maio, aponta Procon.

O salário mínimo deixou de ser suficiente para comprar uma cesta básica, mostrando como a inflação tem corroído o poder de compra de grande parte da população. Em maio, o valor da cesta divulgada pela Fundação Procon de São Paulo subiu 1,36%, para R$ 1.226,12, superando em R$ 14,12 o piso salarial do país, de R$ 1.212, destaca Fernando Montero, ex-secretário-adjunto da Secretaria de Política Econômica (SPE) do antigo Ministério da Fazenda, hoje na corretora Tullett Prebon.
Em janeiro, o salário mínimo teve um reajuste de mais de 10%, aumento já totalmente corroído pela inflação acumulada ao longo deste ano. Em dezembro de 2021, o conjunto de itens básicos custava R$ 1.088, R$ 12 a menos que o piso salarial então vigente, de R$ 1.100.
Com o reajuste de 10,2%, o mínimo aumentou para R$ 1.212 a partir de janeiro, o que fez o valor ficar R$ 112,02 superior ao da cesta básica da Fundação Procon-SP, reunindo itens de alimentação, limpeza e higiene pessoal. O levantamento é feito em convênio com o Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese).
Quatro meses depois, o valor do mínimo já é insuficiente para comprar uma cesta básica, cujo valor subiu 12,69% no acumulado do ano. Em 12 meses, a alta é de 18,07%, informa a Fundação Procon-SP.
Montero chama a atenção para a forte perda do compra do salário mínimo desde a reconfiguração da coleta da cesta básica em São Paulo, em setembro de 2019. Naquele mês, o piso de R$ 998 comprava uma cesta de R$ 739,07 e sobravam R$ 258,93.
No mês passado, faltavam R$ 14,12 para o mínimo bancar a aquisição dos itens de consumo básico. É uma diferença de R$ 273,05. “Tratando-se de uma renda tão baixa e um consumo tão inelástico, é uma enormidade”, diz Montero.
O consumo é inelástico pelo fato de a cesta básica ser composta por produtos de primeira necessidade, cuja demanda se altera pouco em função da variação de preços.
“Esse aumento dos preços de alimentos persiste desde 2020. Houve vários problemas. No ano passado, a crise hídrica que resultou em quebra de safra de cana-de-açúcar, milho, café, e a normalização da oferta desses grãos é lenta porque são safras com ciclos mais longos. Também tivemos problemas de clima, com umidade em excesso que prejudicou a oferta de tubérculos”, afirma André Braz, economista do Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre).
“Além disso, a nossa moeda desvalorizada ajuda a exportar mais alimentos, principalmente proteínas, e isso fez com que mercado doméstico tivesse pouca oferta de carne aqui. A guerra na Ucrânia também vem trazendo aumento do trigo, que afeta panificados e biscoitos. É uma tempestade perfeita dos alimentos, que ajuda a justificar a inflação de alimentos”, continua.
A perda do poder de compra do salário mínimo é um dos fatores que explicam a baixa popularidade do presidente Jair Bolsonaro, num país em que uma fatia expressiva da população tem rendimento igual ou inferior ao piso.
Estudo da Tendências Consultoria Integrada feito a pedido de “O Globo” mostra que, no primeiro trimestre, 38,22% dos trabalhadores, formais ou informais, ganhavam até um salário mínimo, o equivalente a 36,4 milhões de pessoas.
Além disso, dos 36,5 milhões de aposentados, pensionistas e beneficiários de programas assistenciais, 24,4 milhões recebem até um mínimo.
Levantamento do Datafolha realizado no fim de maio mostra que 66% dos entrevistados avaliam que a situação econômica do país piorou nos últimos meses. Além disso, 77% dos ouvidos pelo instituto disseram que esse fator influencia na decisão de voto – 54% afirmaram que a economia tem muito peso nesse processo.
Entre quem ganha até dois salários mínimos, 56% pretendem votar em Luiz Inácio Lula da Silva, e 20%, em Bolsonaro, segundo o Datafolha. O instituto não faz o recorte entre os eleitores que recebem até o piso.
“A diminuição do poder de compra certamente afeta o governo negativamente”, afirma Felipe Camargo, economista da consultoria Oxford Economics.
“Contudo, é preciso colocar o efeito do Auxílio Brasil nessa equação. O poder de compra do salário está caindo e o governo está complementando a renda das famílias com benefício social. Mas, colocando os dois em perspectiva e olhando as pesquisas eleitorais, Bolsonaro parece não ver a melhora nas pesquisas que precisaria pra vencer em outubro”, continua.
A inflação continua elevada, como mostrou o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de maio. O indicador subiu 0,47% no mês passado, acumulando alta de 11,73% em 12 meses. Os preços da alimentação no domicílio avançam 16,35% nessa base de comparação, afetando em especial os mais pobres.
Com as medidas de redução de impostos sobre combustíveis, é possível que a inflação no ano fique 2 a 2,5 pontos percentuais mais baixa que os cerca de 9% projetados por vários analistas. No entanto, a inflação de alimentos ainda deve fechar 2022 com alta significativa. Nas contas da LCA Consultores, por exemplo, a alimentação no domicílio deve subir 15,91% neste ano.
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