Modelo híbrido ganha espaço no agronegócio

Modelo híbrido ganha espaço no agronegócio

Publicado em 19 de novembro de 2020

Nesta segunda-feira, cerca de 10% dos 550 funcionários da sede da Bunge em São Paulo voltaram às suas mesas. A volta foi decidida a partir de uma pesquisa que mostrou que cerca de 10% dos funcionários já não aguentavam mais ficar em casa, por diferentes motivos. Algumas reuniões presenciais de executivos de alto escalão serão retomadas, e mais gestores se encontrarão pessoalmente com suas equipes. Mas sob controle rígido para evitar contaminações. A múlti tem, no total, cerca de 8 mil funcionários no país, espalhados por mais de 100 unidades.

No escritório central na capital paulista da Cargill, maior empresa de agronegócios do mundo, a reabertura das portas para também 10% dos colaboradores já aconteceu, em esquema de rodízio. Há uma preocupação, segundo Simone Beier, diretora de recursos humanos da Cargill Brasil, de preservar a cultura da empresa, que levou mais de 150 anos para ser construída. Mas o retorno ao “novo normal” deve ser feito de forma híbrida. Uma pesquisa realizada pela empresa com seus quase 3,5 mil funcionários que foram para o home office, 86% disseram que ainda preferem continuar assim. De acordo com Simone, já havia na Cargill uma política de flexibilidade para o trabalho presencial em alguns casos, e, depois da experiência dos últimos meses, essa tendência poderá ganhar força em algumas áreas.

Na Yara do Brasil, subsidiária do grupo norueguês que lidera o segmento de fertilizantes no mundo, o home office no pré-pandemia era “modesto” perto do que poderá se tornar: 20% da jornada de trabalho semanal dos funcionários podia ser feita de casa. “Quando mudamos para o trabalho remoto por completo havia dúvida sobre como seria a interação entre os trabalhadores ou mesmo a produtividade, o que foi sendo derrubado”, disse Carlos Lienstadt, vice-presidente de recursos humanos e comunicações da empresa. Dos 6,2 mil funcionários da múlti no Brasil, 1,8 mil tiveram que ir para casa. Lienstadt afirma que a migração para o trabalho até mudou positivamente a relação com os clientes, por causa de uma maior disponibilidade para atendimento. E a medida reduziu custos com viagens, o que nunca é demais.

Para garantir a infraestrutura necessária para o home office, a Yara investiu R$ 1,5 milhão em uma convênio com uma varejista para que os funcionários pudessem preparar um espaço para trabalhar em casa e adotou medidas para facilitar a gestão do trabalho e da saúde das pessoas. Dessa forma, nos planos para a retomada das atividades nos escritórios- o que ainda não tem data para acontecer, mas não será antes do segundo semestre de 2021 – está uma política de trabalho remoto muito mais agressiva, que deverá incluir uma reconfiguração dos espaços. “O home office veio para ficar”.

Já na SLC Agrícola, uma das maiores empresas produtoras de grãos e fibras do país, o trabalho remoto inexistia antes da pandemia no escritório central, em Porto Alegre, e em 16 fazendas que contam com 2,6 mil funcionários fixos, além de mil “safristas”. “Em três dias preparamos um guia para os funcionários para permitir o home office e 240 pessoas passaram a trabalhar de casa”, disse Álvaro Dilli, diretor de recursos humanos e sustentabilidade da SCL.

Isso foi em março. Em outubro, 25% da equipe voltou a trabalhar no escritório. O espaço está preparado para receber metade da equipe. O êxito das atividades da empresa com o trabalho remoto, porém, deve mantê-lo na estratégia depois que as tão esperadas vacinas contra a covid-19 se tornarem uma realidade. “Nós entendemos que o trabalho será híbrido, em um processo de rodízio”, afirmou Dill. Nas fazendas, no entanto, não dá para se afastar do trabalho. O jeito foi aperfeiçoar a equipe de enfermagem, reduzir o número de pessoas no transporte das propriedades às cidades, ampliar o horário de almoço para evitar aglomerações e tornar mais rígida a entrada de pessoas nas propriedades.

Um modelo híbrido também entrou de vez na agenda da subsidiária da francesa Tereos no país, que emprega 8 mil funcionários, boa parte empregada nas oito usinas sucroalcooleiras da empresa. E pode se tornar o futuro do trabalho, em um formado que ainda está em discussão. Com a pandemia, parte das equipes que trabalhavam em escritório migrou para o home office, e desde o mês passado a companhia já começou a experimentar uma jornada híbrida. Para isso, adaptou o centro de serviços compartilhados da Tereos em São José do Rio Preto (SP). Também entregou um andar inteiro em seu escritório administrativo de São Paulo. A Tereos está trabalhando em um plano para a retomada “gradual e planejada” para 2021, “se a pandemia continuar em recuo nas cidades onde atuamos”, diz Carlos Leston, diretor de recursos humanos do grupo.

Fonte: Valor Econômico
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