13 jun Mudança de emprego está no radar da maioria dos profissionais
Mudança de emprego está no radar da maioria dos profissionais
81% dos brasileiros estão dispostos a trocar área de atuação; no alto escalão, propósito e flexibilidade tem motivado transição de carreira.
Enquanto a pandemia transformou hábitos e relações, alguns profissionais decidiram aproveitar o momento para refletir e fazer mudanças, também, no rumo de suas carreiras. “As pessoas passaram por uma jornada de autoanálise e questionamento dos próprios valores nos últimos dois anos”, afirma Mariane Guerra, vice-presidente de RH para a América Latina da ADP, que faz uma constatação: “o salário deixou de ser o único fator importante na hora de escolher um trabalho”.
Segundo um estudo feito pela ADP com 33 mil trabalhadores de 17 países, 81% dos 4, 2 mil brasileiros pesquisados estão dispostos a mudar de área de atuação, e quatro em cada cinco entrevistados consideraram realizar uma migração profissional nos últimos doze meses. Os motivos para mudar de carreira são muitos, mas um deles se destaca: a busca por um novo propósito de trabalho.
A executiva Marina Peixoto, por exemplo, deixou no fim de 2021 o cargo de diretora de diversidade e inclusão na Coca-Cola, companhia onde trabalhou por 18 anos, para empreender. Quando a pandemia começou, Peixoto estava morando temporariamente em Atlanta, nos Estados Unidos, e precisou ficar por lá em razão do “lockdown”. A restrição para voltar ao Brasil acabou levando-a a acompanhar de perto os movimentos sociais e a repercussão do assassinato de George Floyd. “Isso me ajudou a internalizar os meus propósitos e chegar à conclusão de que eu precisava fazer mais”, diz.
Quando voltou ao Brasil, Peixoto foi convidada a assumir a recém-criada área de inclusão e diversidade da Coca-Cola e, ainda na empresa, construiu, ao lado de voluntários de outras companhias, o Movimento pela Equidade Racial (Mover). “Depois de alguns meses, eu decidi me dedicar exclusivamente à associação, porque comecei a sentir que precisava abrir espaços e alçar outros voos”, revela. “Esse caminho une dois pontos: a chance de me desenvolver como empreendedora e o meu propósito de vida, que é de impacto social e de construção de uma sociedade mais justa”, completa.
A pesquisa da ADP mostra que 76% das pessoas consideram procurar um novo trabalho se entenderem que a empresa onde estão tem políticas injustas com relação à diversidade e inclusão. “Foi um processo de humanização que os indivíduos viveram na pandemia, além de terem passado a valorizar pontos como acessibilidade, a opção de trabalhar remotamente e qualidade de vida”, aponta Guerra.
Gabriel Navarro, sócio na empresa de busca de executivos Havik, compartilha da mesma visão: “existem profissionais que, hoje, não aceitariam uma proposta de trabalho em uma organização que não se preocupe com sustentabilidade ou que não tenha práticas reais de diversidade”, pontua.
Irene Azevedo, líder de prática ICEO (International Center for Executive Options) na consultoria global LHH, conta que existe um movimento específico de executivos repensando suas carreiras após a pandemia. “Essas pessoas foram obrigadas a ficar em casa e começaram a olhar a vida de outra forma”, analisa. “Elas passaram por um período longe da pressão e das exigências do meio corporativo e, então, acabaram optando por seguir outra carreira, pois já chegaram a um estágio que lhes permite fazer esse tipo de reflexão”, completa. Navarro, por sua vez, confirma que há, atualmente, uma busca maior por autonomia e flexibilidade entre profissionais que ocupam cargos altos, uma vez que muitos chegaram a mudar de cidade nesse período.
Em relação às opções de trabalho buscadas por executivos que estão em transição, Azevedo afirma que muitos procuram ter uma “carreira de portfólio”. “O profissional pode prestar consultoria para uma empresa, sentar no ‘board’ de outra, ser investidor. São trabalhos não correlatos, mas que geram receita e mantêm a pessoa no mercado fazendo algo que talvez traga muito mais prazer”, diz.
Esse foi o caminho escolhido por Paulo Menoita, que após quase 20 anos como executivo de uma multinacional decidiu deixar a Europa, onde havia morado nos últimos quatro anos, e repensar seu momento de vida. “Aquele ciclo profissional estava se esgotando, e a pandemia veio para acelerar as decisões de voltar ao Brasil e mudar de carreira”, conta. Formado em administração de empresas pela Fundação Getulio Vargas e com 32 anos de carreira, ele decidiu deixar de ser executivo para se arriscar em diferentes atividades. Hoje, atua como consultor de pequenas e médias empresas, e de companhias estrangeiras que desejam se adaptar ao mercado brasileiro. Além disso, Menoita entrou como sócio de um empreendimento imobiliário no interior de São Paulo.
Se por um lado alguns executivos decidiram repensar seus valores, tanto Guerra quanto Azevedo atentam, ainda, para o fato de o conceito de estabilidade ter sido afetado durante a pandemia, o que também motivou trabalhadores a questionarem suas vidas profissionais. “De repente o salário foi reduzido, a carga horária mudou, empregos foram perdidos. Então, muitas pessoas pensaram: ‘já que eu não tenho segurança mesmo, eu posso empreender, mudar de carreira, fazer o que eu gosto”, diz Guerra.
“O futuro nunca foi tão incerto quanto agora”, diz Azevedo, que destaca a maior dificuldade que brasileiros e europeus enfrentam em relação aos americanos na hora de estruturar uma transição de carreira. “O que influencia é como as relações profissionais são estabelecidas em cada cultura. Aqui e em países como França e Itália, o sistema é patriarcal. Isso faz o trabalhador ter medo de se desvencilhar da empresa porque ele ainda se sente falsamente protegido por benefícios que podem ser facilmente extintos por uma demissão em massa. Nos Estados Unidos, como a relação com o trabalho é diferente, as pessoas estão fazendo isso com maior rapidez”, observa.
Depois de 30 anos trabalhando no Grupo Votorantim, sendo os últimos 17 em cargos de alta liderança, Luiz Marcelo Fins aproveitou o período de pandemia para se perguntar o que gostava de fazer e qual era o seu propósito. A reflexão levou-o a deixar o cargo de diretor jurídico da companhia para seguir do “outro lado da mesa” ao se tornar sócio de um escritório de advocacia. “A carreira de executivo sempre exigiu muito de mim, então eu procurei enxergar a pandemia como uma oportunidade para reforçar meus valores pessoais e, do ponto de vista profissional, ver a crise como um momento de oportunidade. O famoso ‘fazer do limão, a limonada’”, conta.
O advogado, que almejava alcançar mais equilíbrio entre carreira, família e amigos, diz que foi necessário fazer uma adaptação ao ter de adotar a postura de prestador de serviço, e não mais de cliente. “E são muitos clientes, muitas organizações em que eu preciso rapidamente conhecer a cultura. Sem contar que são segmentos diferentes dos quais eu atuei”, completa. Apesar de ter que aprender a estar do outro lado, ele diz que ganhou tempo para se dedicar a projetos sociais e a vida pessoal, e não se arrepende da mudança.
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