23 mar Mudança de escala pode resultar em impactos distintos para as empresas
Mudança de escala pode resultar em impactos distintos para as empresas
Debatedores consideram que efeitos seriam mais negativos para setores intensivos em mão de obra e também para os negócios de menor porte.

A possibilidade do fim da escala 6×1 — seis dias de trabalho com um de descanso na semana conforme proposta em debate no Congresso — pode trazer impactos distintos para as empresas brasileiras. Os efeitos podem ser mais negativos para setores intensivos em mão de obra, como comércio e serviços em geral, e também para os negócios de menor porte, que teriam menos capacidade de ajuste perante uma redução no limite máximo da jornada, disseram especialistas que participaram de mais um debate da série Caminhos do Brasil, no Rio, na quinta-feira (19). Paira ainda uma incerteza sobre a capacidade de as empresas absorverem aumentos de custos, e quanto isso afetará o emprego, a inflação e a atividade econômica.
De acordo com o presidente do Conselho de Emprego e Relações do Trabalho da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), José Pastore, o comércio seria um dos mais afetados pela redução da jornada por dois motivos. De um lado, é intensivo em mão de obra. De outro, muitos estabelecimentos funcionam sete dias por semana, ou até 24 horas, como farmácias e supermercados. “O aumento na hora trabalhada pega o comércio em cheio. Por isso, a gente não pode olhar só para a média. A realidade brasileira é muito diversificada, e os impactos são muito diferentes”, disse Pastore.
Para o especialista, a nova carga horária, menor, exigiria adaptação por parte das empresas, que teriam quatro possibilidades de ajuste. O primeiro ajuste seria repassar esse aumento de custo com a folha salarial para os preços dos bens e serviços comercializados, o que pode ser inevitável, dado que muitas empresas operam com margens estreitas de lucro. O segundo mecanismo seria demitir funcionários que têm salários maiores para preencher as vagas com trabalhadores com remuneração menor, como forma de mitigar a alta no gasto com mão de obra — o que elevaria a rotatividade, problema que, tipicamente, causa perdas em treinamento.
O terceiro tipo de ajuste seria investir em automação, substituindo parte dos funcionários por maquinário. O resultado para a economia como um todo seria uma redução nas vagas de emprego. Por fim, diante do aumento
Para compensar custos adicionais com a folha, negócios podem repassar aumento para consumidores
de gastos com pessoal, uma quarta opção seria rever o plano de investimentos, o que pode levar à retração dos negócios, tirando ímpeto da atividade econômica e, no extremo, levando a uma recessão. “São quatro mecanismos possíveis. E pode ser que a empresa faça os quatro juntos. Todos eles são ruins para o trabalhador, especialmente para os mais vulneráveis”, disse Pastore.
Paulo Solmucci, presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), citou uma estimativa de aumento de gastos com mão de obra de 20% para as empresas do setor, por causa da introdução de dois dias de folga por semana e da redução da jornada semanal para 40 horas. Aumento esse que não seria possível compensar com maior uso de tecnologia. O resultado seria repasse da alta de custos para os preços finais para os clientes.
“O consumidor quer o restaurante aberto por seis dias, assim como quer o posto de saúde, a limpeza urbana. Isso significa aumentar em 20% a folha de salário para manter o serviço ao consumidor, o que resulta em 7% a 8% a mais no preço”, afirmou Solmucci. “Ao consumidor, cabe perguntar: cabe no bolso? Você está ciente que vai pagar mais pra ter a mesma coisa?”
Um estudo da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), divulgado em fevereiro, estima que reduzir a jornada para 40 horas semanais pode gerar um custo extra de mais de R$ 350 bilhões por ano para as empresas de comércio e serviços. Segundo os cálculos, o repasse de parte desse impacto para os consumidores levaria a uma alta média de 13% nos preços. Segundo outro estudo, publicado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a redução da jornada para 40 horas por semana elevaria, em média, o custo da mão de obra em cerca de 7,84% para as empresas. Para os pesquisadores do Ipea, um aumento desse tipo é possível absorver, já que é similar ao registrado em anos de forte reajuste do salário mínimo, como 2001, 2006, 2012 e 2024.
Na visão do deputado Reginaldo Lopes (PTMG), autor de uma das propostas de emenda à Constituição (PEC) que tramitam na Câmara sobre o tema, os impactos podem ser diferentes de acordo com os setores, mas, se houver uma transição de quatro anos para a redução do teto da jornada, o impacto pode ser absorvido: “A combinação de escala é possível para empresas médias e de grande porte. Reconheço que, para uma empresa ‘menorzinha’, de dois ou três funcionários, fazer a nova escala 5×2 talvez tenha um impacto maior.
Para o economista e professor titular da Cátedra Ruth Cardoso no Insper, Naercio Menezes Filho, é preciso considerar particularidades: “Haverá situações específicas de pequenas empresas em que será difícil arcar [com o aumento de custos], se não houver aumento de produtividade. Por isso, tudo tem que ser feito com calma.”
Bares e restaurantes estimam gasto 20% maior com mão de obra a partir de mudança
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