14 jun Mudança do perfil da população ocupada afeta produtividade
Mudança do perfil da população ocupada afeta produtividade
Novo indicador sobre produtividade do Ipea inclui, além do número de horas trabalhadas, o número de anos de estudo.
Um estudo realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) levantou algumas respostas para um aspecto que tem intrigado pesquisadores da área do trabalho. Por que a produtividade da economia brasileira aumentou durante a pandemia?
A análise — obtida pelo Valor –aponta que esse aumento reflete uma mudança na composição da população ocupada em períodos de crise: a saída dos trabalhadores menos qualificados e a permanência de um contingente maior daqueles com mais instrução e experiência, que são mais produtivos.
Um novo indicador desenvolvido por técnicos do Ipea — e que passará a ser divulgado trimestralmente — permite descontar o efeito da composição da população ocupada da medida de produtividade e considera as diferenças de grau de escolaridade e nível de experiência.
O cálculo da produtividade da economia (Produtividade Total dos Fatores, PTF) considera fatores do capital e do trabalho. Tradicionalmente, é utilizado apenas o número de horas trabalhadas para incluir o fator trabalho nessa conta. Já no novo indicador do Ipea, é levado em consideração o Índice de Qualidade do Trabalho (IQT), que inclui, além do número de horas trabalhadas, o número de anos de estudo e a experiência do trabalhador, a partir de microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua. Isso significa que se tem em vista tanto a quantidade de horas trabalhadas quanto a qualidade delas.
A lógica por trás disso é que trabalhadores com mais escolaridade e mais experiência são mais produtivos e contribuem mais para a atividade econômica, ou seja, os trabalhadores têm níveis de produtividade distintas.
Um profissional com ensino superior, por exemplo, tende a produzir mais que um que tenha só o ensino fundamental, considerando o mesmo número de horas dedicadas. Ao mesmo tempo, também se espera maior produtividade dos trabalhadores mais experientes, ou seja, com mais tempo de vida útil de trabalho.
O estudo aponta para crescimento médio de 2,31% ao ano na qualidade da população ocupada no mercado de trabalho brasileiro entre o segundo trimestre de 2012 e o primeiro trimestre de 2021, pelas contas do IQT. Neste movimento de melhoria da população ocupada, explicam os pesquisadores, há uma questão estrutural – que é o avanço da educação nas gerações mais novas de trabalhadores. Mas também se nota o ritmo mais intenso desse aumento em períodos de recessão, em que os menos qualificados saem do mercado.
Entre o primeiro trimestre de 2014 e o quarto trimestre de 2016, a alta média foi de 2,7%. No período entre o quarto trimestre de 2019 e o segundo trimestre de 2020, que inclui o início da pandemia, essa taxa de crescimento foi de 11,9% ao ano. Nas fases de expansão econômica, a variação média ficou entre 0,90% e 1,5% ao ano. Os autores do estudo apontam que isso reflete a mudança do perfil da população ocupada em épocas de recessão, quando trabalhadores menos qualificados são mais atingidos e deixam o mercado. Com isso, aumenta a parcela dos trabalhadores mais qualificados. Este é um padrão comum em crises, que já tinha sido observado em estudos internacionais e agora foi confirmado com o IQT.
“Quando se fala em produtividade, é muito comum as pessoas olharem só para o número de horas trabalhadas. […] Só que nosso indicador mostra que a qualidade das horas trabalhadas tem uma dinâmica muito diferente do que somente as horas trabalhadas em si. Essas duas coisas combinadas [qualidade e quantidade de horas] têm um efeito muito diferente do que olhar somente para a quantidade de horas trabalhadas”, explica o economista José Ronaldo Souza Júnior, diretor de Macroeconomia do Ipea e um dos autores.
Para se ter uma ideia do impacto dessa análise por grupos demográficos, o número de horas trabalhadas pelas pessoas com ensino superior completo aumentou 11,7% no primeiro trimestre de 2021, em relação ao primeiro trimestre de 2020.
Em outros graus de escolaridade, no entanto, houve recuo, como entre os que tem ensino fundamental incompleto (-12,9%), fundamental completo (-6%) e médio completo (-4,1%), considerando a mesma base de comparação. Esses comportamentos diferentes entre os grupos demográficos provocam mudanças, portanto, na produtividade final da economia.
“O Índice de Qualidade do Trabalho é uma medida que nos permite capturar a heterogeneidade na força de trabalho. Qual é o grande ponto nesta questão? A literatura internacional já vem demonstrando isso lá fora e conseguimos demonstrar aqui no Brasil também. Existe um padrão ao longo dos ciclos econômicos de que, em períodos de recessão econômica, as horas trabalhadas reduzem, só que essa redução é proporcionalmente mais forte nos grupos demográficos menos qualificados porque eles são mais sensíveis às variações dos ciclos econômicos. Quando a economia está em baixa, a perda de emprego é proporcionalmente maior nesse grupo”, afirma Cristiano Da Costa Silva, pesquisador visitante do Ipea que também assina o estudo.
“Isso acaba fazendo com que a contribuição do trabalho ou a qualidade da população ocupada aumente nesse período, porque está se perdendo relativamente nesse período mais trabalhadores que são menos qualificados, com menor nível de educação”.
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