11 ago “Mulheres são menos vistas por suas habilidades técnicas”, diz diretora de RH da Meta
“Mulheres são menos vistas por suas habilidades técnicas”, diz diretora de RH da Meta
Em live da série RH 4.0, Mafoane Odara fala sobre a síndrome da impostora e o que ainda impede a ascensão de mulheres à liderança.
“Por que perguntar a uma mulher, na entrevista de emprego, o que ela vai fazer quando engravidar ou com quem vai deixar as crianças?” A provocação é de Mafoane Odara, executiva de recursos humanos da Meta para a América Latina, durante live da série RH 4.0 do “Carreira em Destaque”, mediada pela editora de Carreira do Valor, Stela Campos. “É preciso eliminar vieses inconscientes sobre a capacidade de trabalho das profissionais, desde a entrada nas empresas”, disse Odara, mãe de dois filhos, de cinco e oito anos.
De acordo com a executiva – psicóloga, colunista da revista “Marie Claire”, consultora, pesquisadora e ativista reconhecida no mundo corporativo por suas ideias sobre diversidade, equidade e inclusão -, as barreiras criadas para a participação de mulheres em cadeiras de liderança devem ser observadas e eliminadas a partir do recrutamento e durante toda a jornada de ascensão profissional. “As pessoas precisam ser reconhecidas pelo que têm de competências, não pela falta delas.”
A Meta, dona do Facebook e de aplicativos como Instagram e WhatsApp, tem cerca de 83 mil funcionários em todo o mundo. A ocupação de cargos de chefia entre mulheres chega a 37% do total e o objetivo, até 2025, é ter 50% de executivas em todos os níveis de comando. Para isso, investe na criação de um ambiente de trabalho receptivo e em políticas que inibam a desigualdade nos times. “Não adianta contratar mais mulheres se as organizações não criam um ambiente em que todos possamos errar e acertar”, afirmou. “Se não houver um clima adequado, não adianta, elas vão embora.”
Odara destacou que, geralmente, as executivas – assim como outros grupos, como LGBTQIA+, negros e pessoas com deficiência – são muito mais avaliadas pelo seu estilo [de trabalho] do que pelas habilidades técnicas. “As pessoas dizem: ‘as mulheres falam demais’, ‘falam de menos’, ‘se posicionam demais’, ‘se posicionam de menos’.”
Para a especialista, na Meta há um ano e oito meses, é da liderança o papel de atuar no avanço dos currículos femininos nos organogramas. “Quanto maior a representatividade no quadro, mais importante a mulher vai se sentir [nas tomadas de decisão]”. A fim de criar relações mais saudáveis entre as equipes e orientar os gestores, é necessário organizar treinamentos, práticas e rodas de conversas, sugeriu.
“Deve-se, ainda, identificar as microagressões que acontecem no dia a dia e vão sendo naturalizadas”, disse. “Como o ‘silenciamento’ das mulheres nas reuniões, saber quem são as pessoas que lideram os projetos mais importantes na empresa e qual o tempo de crescimento profissional dado a homens e mulheres.”
Odara disse que um dos temas debatidos nas rodas de conversas da Meta é a chamada “síndrome da impostora”, padrão psicológico em que as profissionais duvidam de habilidades e realizações, criando o receio de serem expostas, a qualquer momento, como “impostoras”.
De acordo com pesquisa global da consultoria KPMG, 75% das executivas em cargos de liderança já sofreram com o “fenômeno”, como Odara prefere chamar o problema. No estudo “A falsa farsa”, realizado no ano passado pelo canal “Discovery Channel” com 1250 mil mulheres no Brasil, 58% disseram lembrar mais dos fracassos do que das vitórias na carreira.
A Meta tem investido em treinamentos específicos para a média liderança, com a intenção de acelerar transformações nas rotinas de trabalho. “Liderança é diferente de chefia”, afirmou. “Gerir funcionários é uma habilidade do futuro e estamos vendo, cada vez mais, as empresas no caminho do ‘people centric’ [gestão centrada nas pessoas, do inglês]”. A trilha de formação na companhia cobre pelo menos dez comportamentos esperados dos líderes, como a busca de feedbacks e a construção de uma cultura que valoriza as diferenças culturais nos times. “O feedback tem que ser considerado como um presente. É uma possibilidade do profissional se desenvolver”. Por isso, treinamos as pessoas a construírem boas análises, para mostrar como os pares deverão agir no futuro, sempre com um olhar para a frente, explicou.
O cuidado com a saúde mental também não pode mais sair da agenda das corporações, alertou Odara. A gestão do capital humano está mudando sua centralidade para esse tema, disse. “Muitos acham que episódios de burnout são relacionados apenas ao excesso de atividades, mas estão ligados à falta de autonomia no trabalho”, explicou. “Uma das armadilhas da modernidade é a tentativa de controle. Ao lado de salários, benefícios e oportunidades de crescimento, a cultura organizacional que oferece flexibilidade diminui o estresse entre as pessoas.”
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