Mulheres são só 26% em profissões tecnológicas

Mulheres são só 26% em profissões tecnológicas

Publicado em 10 de setembro de 2021

País segue padrão e tem sub-representação feminina no mercado de trabalho de áreas técnicas.

Enquanto as mulheres representam quase metade (45%) do total de trabalhadores formais no Brasil, no mercado de STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática, na sigla em inglês), elas não chegam a um terço (26%). É o que revela um levantamento financiado pelo International Development Research Centre (IDRC), com coordenação de Cecilia Machado, da Escola Brasileira de Economia e Finanças (FGV EPGE), co-coordenação de Laísa Rachter, do Instituto Brasileiro de Economia (FGV Ibre), e participação dos pesquisadores Mariana Stussi (UFRJ) e Fabio Schenider (FGV EPGE).

A sub-representação feminina no universo STEM não é exclusividade do Brasil. Nos Estados Unidos, por exemplo, as mulheres são 47% do total de trabalhadores, mas apenas 24% nos empregos STEM. Os números brasileiros impressionam, no entanto, porque os postos STEM no país já estão muito aquém do padrão mundial e avançaram pouco nas duas últimas décadas.

Em 2003, trabalhadores STEM representavam 2,1% dos empregados formais no Brasil, número que passou para 2,6% em 2015, mas, em 2019 (último dado disponível da Rais), ainda encontrava-se em 2,8%, somando cerca de 1,2 milhão de pessoas. Como comparação, nos EUA, em 2015, eles já eram 5,7% dos trabalhadores, um contingente de 8,6 milhões de empregados.

“Muito se fala, atualmente, em ciência, pesquisa e tecnologia como áreas do futuro, mas pouco se investe nisso no Brasil. É baixa a quantidade de trabalhadores, e, principalmente, de mulheres ingressando nessas áreas”, afirma Laísa.

Os pesquisadores observaram que a área de STEM no Brasil é majoritariamente formada por homens, brancos e pessoas com alto nível de escolaridade.

A taxa de participação absoluta dos homens no mercado STEM evoluiu mais rapidamente ao longo dos anos do que a das mulheres. Esse mesmo aumento da diferença na participação não é verificado no restante do mercado formal, no qual, pelo contrário, houve um aumento da participação relativa das mulheres.

No mercado formal, em 2003, o contingente de mulheres era 66% do dos homens, número que passou para quase 81% em 2019. Nas áreas STEM, porém, essa proporção sempre ficou em torno de três homens para cada uma mulher no setor, observa Laísa.

“São duas barreiras, uma que começa cedo e outras que vão surgindo ao longo da carreira. Poucas meninas ingressam no campo científico e tecnológico por causa de normais sociais que afetam o interesse e confiança delas nessas disciplinas. Para a formação e carreira profissional em STEM, é baixa a perspectiva de projeção, porque quando elas olham, não veem muitas mulheres trabalhando nessas ocupações e como modelos de referência”, diz a pesquisadora.

Esses são, segundo Laísa, “problemas de entrada”. Depois que a jovem supera essas barreiras e forma-se em áreas STEM, passa a enfrentar outras. “Tem a questão já conhecida da jornada dupla da mulher. Mas ocorre também que grande parte das culturas organizacionais de promoção é baseada em critérios de avaliação masculinos, porque os chefes são homens. Isso se soma a vários estereótipos de gênero que vão dificultando a trajetória e reconhecimento dessas profissionais”, aponta Laísa.

Entre os homens que atuam no mercado STEM, cerca de 80% trabalham nas áreas de computação/matemática e arquitetura/engenharia. Já entre as mulheres, esse percentual é de 63%. Por outro lado, enquanto apenas 12% dos homens estão ocupados nas áreas de educação/pesquisa e física/ciências da vida, esse percentual é de cerca de 30% entre as mulheres.

Além da pesquisa quantitativa, a equipe também realizou entrevistas com trabalhadoras do mercado STEM e percebeu que muitas delas acabam se desviando de suas áreas de formação ao longo da carreira. “Mulheres que atuam em ramos tipicamente masculinos, como engenharia de automóveis, entram para trabalhar com inovação, pensar em motor, performance, mas, para desenvolver sua carreira, acabam indo para áreas de publicidade, gestão, o máximo que conseguem, mantendo-se em inovação, é trabalhar com design de carros”, exemplifica Laísa.

Trabalhadores STEM ganham, em média, salários muito mais altos que os demais trabalhadores formais: R$ 45 reais por hora trabalhada, contra R$ 19/hora. Em uma primeira leitura, a média de diferença salarial entre homens e mulheres, com vantagem para eles, parece menor nas ocupações STEM (7%) do que no mercado não STEM (11%).

A simples comparação dos rendimentos médios entre gêneros, porém, pode ocultar outros fatores que afetam os salários, como diferenças de idade, nível de escolaridade, setor da atividade econômica, Estado. Descontados esses efeitos, os pesquisadores observaram que a diferença salarial ajustada para homens e mulheres em ocupações STEM sobe para 16%.

Negros também estão sub-representados em ocupações STEM, respondendo por apenas 30% dos trabalhadores. No mercado de trabalho formal, eles são 45%, o que ainda é menor do que sua representação na população brasileira – 54%, segundo o IBGE, lembram os pesquisadores.

A desigualdade de gênero e raça acaba gerando uma “distribuição de talentos ineficiente”, diz Laísa. “Poderíamos ser mais produtivos, mas o país está desperdiçando esses talentos”, afirma a pesquisadora.

Atacar esse problema envolve, segundo Laísa, primeiro, um foco em educação e orientação vocacional, para trabalhar normas sociais e culturais que estão travando o ingressos de mulheres e negros no mercado STEM. “Existem iniciativas surgindo no Brasil sobre mulheres na ciência, em programação, mas isso tem alcançado mais o ensino superior, precisa começar um pouco antes”, diz ela.

Para quem já está no ensino superior em STEM, mecanismos que ajudem na transição para o mercado de trabalho adequado são importantes. “Existem ONGs tentando fazer isso, mas ainda são iniciativas pontuais”, observa Laísa, citando como bons exemplos a Laboratoria e a Pretalab. Já dentro das organizações, acrescenta a economista, é fundamental que as empresas quebrem visões de reprodução de normas e critérios de avaliação exclusivamente masculinos.

Fonte: Valor Econômico
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