Na disputa por emprego com carteira, grupo conquista espaço de haitianos

Na disputa por emprego com carteira, grupo conquista espaço de haitianos

Publicado em 31 de março de 2022

Venezuelanos tiveram saldo positivo de 19,6 mil vagas formais no ano passado, enquanto haitianos perderam 18,3 mil postos.

O mercado de trabalho dos imigrantes no Brasil vive uma troca de guarda, com venezuelanos ganhando espaço de haitianos, muitas vezes de forma até direta. Em 2021, os haitianos foram a nacionalidade estrangeira com saldo mais negativo de postos com carteira assinada, com 18,3 mil vagas fechadas. Já os venezuelanos registraram 19,6 mil postos criados.

Os dados são compilados pelo Observatório de Migrações Internacionais (OBMigra), a partir da Relação Anual de Informações Sociais (Rais), da Carteira de Trabalho e Previdência Social (CTPS) e do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), considerando as declarações enviadas dentro do prazo de competência.

Os dois grupos já eram os principais no mercado de trabalho formal no país em 2020, mas a liderança dos haitianos era bem clara: 71 mil empregados com carteira, ante 33 mil venezuelanos, segundo a Rais.

A realidade de 2021, além de encurtar essa distância, mostra que as novas vagas para venezuelanos e os postos fechados para haitianos concentram-se nas mesmas três ocupações: alimentador de linha de produção, magarefe (açougueiro) e faxineiro. Na cidade de São Paulo, por exemplo, foram fechadas 229 vagas de faxina ocupadas por haitianos, mas 87 venezuelanos foram contratados.

“Alguns pontos acabam facilitando a presença de venezuelanos nas empresas, como o idioma. Os haitianos falam crioulo – alguns falam francês -, então, a adaptação deles, no curto prazo, é mais complexa”, observa Marcelo Haydu, diretor-executivo do Instituto Adus, ONG que atua na integração de refugiados.

Nas ocupações de alimentador de linha de produção e magarefe, o saldo negativo de vagas para haitianos e positivo para venezuelanos é mais representativo em cidades do Sul do Brasil, onde a indústria frigorífica tem forte presença, como no oeste de Santa Catarina.

Em Seara, que tem uma unidade da JBS, por exemplo, foram fechados 334 postos de haitianos na alimentação de linha de produção em 2021. Por outro lado, 104 venezuelanos foram contratados. Chapecó, que reúne uma dezena de unidades variadas da operação da Aurora, fechou 836 vagas de haitianos como magarefes, mas abriu 567 para venezuelanos.

“A nível geral, temos de 14% a 15% de [funcionários] estrangeiros, sendo ainda uns 70% haitianos. Temos mais 10% a 15% de venezuelanos e, depois, uma parcela menor de senegaleses, paraguaios, ganeses, cubanos”, conta Nelson Paulo Rossi, gerente corporativo de gestão de pessoas da Aurora.

Citando informações da Polícia Federal, Idiane Mânica Radaelli, professora da Universidade do Oeste de Santa Catarina (Unoesc), diz que a região de Chapecó tem, atualmente, cerca de 10 mil haitianos e 3 mil venezuelanos. É um número ainda “bastante expressivo” de haitianos, afirma ela, que pesquisa a migração do grupo no doutorado pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos).

A recessão de 2015-2016 e, depois, a gerada pela pandemia, porém, aumentaram a concorrência para os haitianos no mercado de trabalho com os próprios brasileiros, enquanto novas crises geopolíticas globais iam se desenrolando e gerando outros fluxos migratórios.

“Hoje, há uma concorrência muito maior para essas vagas de serviços gerais, por exemplo. E vimos também toda a aflição na Síria, no Afeganistão e, mais recentemente, na Venezuela e Ucrânia. É natural que as empresas passem a nos procurar querendo dar suporte a esses grupos, e a questão dos haitianos vai saindo um pouco de foco”, diz Haydu, do Adus.

Além disso, com a chegada de Joe Biden à Presidência dos Estados Unidos, em 2021, houve uma saída de haitianos do Brasil, aponta Radaelli. “A característica do haitiano é migratória. Na história do país, que enfrenta inúmeras dificuldades, tem diáspora, alguém da família que migra para ter uma relação econômica melhor.”

É difícil saber ao certo quantos haitianos deixaram a região de Chapecó, por exemplo, no ano passado, mas seria algo em torno de mil pessoas, segundo a pesquisadora. “Esse movimento aconteceu aqui quando o Biden assumiu e deu uma parada por volta de outubro, quando ele fechou as portas e deportou milhares de haitianos”, lembra Rossi, da Aurora.

Segundo ele, a região opera próxima ao pleno emprego, com taxa de desocupação ao redor de 6% – no Brasil como um todo, ela ainda está em dois dígitos. A saída dos haitianos, diz Rossi, foi voluntária e a contratação dos venezuelanos “foi por necessidade”, tanto da empresa quanto dos trabalhadores.

Ele acrescenta que “tem ainda muito venezuelano descendo” da região Norte do país, por onde eles costumam entrar no Brasil, para vir trabalhar no Sul. Com previsão de aumento da produção nos próximos anos, a perspectiva é que a Aurora continue demandando essa mão de obra.

“Vamos viver ainda processos migratórios fortes. Essa questão da mão de obra imigrante não é passageira, ela vem para ficar. E isso coloca a necessidade de o setor público pensar no todo, a demanda por escola, saúde, os desafios do mercado de trabalho junto com o desenvolvimento da região”, diz Radaelli. Ela cita como exemplo a criação, em 2021, de um centro específico para o atendimento aos imigrantes em Chapecó.

Considerando todas as nacionalidades, o mercado de trabalho formal dos imigrantes no Brasil fechou 2021 com um resultado líquido positivo de 6.644 vagas – 2,4% do saldo nacional. Os números são um reflexo parcial da realidade desses grupos, já que muitos só acabam encontrando emprego no setor informal, mas especialistas notam também que haitianos e venezuelanos costumam estar em situação legal no Brasil.

Uma pesquisa da ONG Estou Refugiado e do Instituto Qualibest com imigrantes, realizada entre janeiro e setembro de 2021, mostra que metade dos entrevistados considera difícil ou muito difícil encontrar trabalho no Brasil, principalmente por não haver emprego disponível (37%), mas também por não conhecer ninguém no país (35%) e por problemas com o idioma (33%).

Fonte: Valor Econômico
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