09 mar Na pandemia, emprego feminino foi mais afetado
Na pandemia, emprego feminino foi mais afetado
Não só taxa piorou, como renda retrocedeu quatro anos.
As mulheres sentiram mais os efeitos da piora no mercado de trabalho, durante a crise na economia causada pela pandemia, alertou a Fundação Getulio Vargas (FGV), que divulgou ontem estudo sobre o tema.
No levantamento, os dados mostram que a população feminina lidou com desemprego recorde no ano passado, maior do que entre homens, e o pior em nove anos entre as mulheres. As trabalhadoras também continuaram a ganhar salários mais baixos do que os homens, com a pior renda originada do trabalho em quatro anos – e ainda sem recuperar salários de antes do advento da covid-19, afirmou Janaína Feijó, autora do levantamento e pesquisadora da área de economia aplicada da fundação.
No caso da falta de vagas entre as mulheres, ela detalhou que a taxa de desemprego entre mulheres ficou em 16,45% no ano passado, ante 16,25% em 2020. Foi a mais forte taxa de desemprego feminino desde 2012, início da série histórica atualizada do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) oficial para esse dado, informou a pesquisadora. Além disso, ficou acima da média nacional do ano passado para ambos os sexos (13,20%) e bem superior à taxa de desemprego masculina para o mesmo ano (10,71%), acrescentou ela.
Ao comentar o mercado de trabalho feminino durante a pandemia, a especialista faz um alerta: a falta de emprego entre o sexo feminino pode se agravar neste ano, caso não ocorram políticas públicas voltada para qualificação profissional de mulheres, em busca de vagas.
No levantamento, denominado “Panorama das mulheres no mercado de trabalho – Período 2012-2021” e elaborado com base em microdados da Pnad, pesquisa oficial sobre mercado de trabalho elaborada pelo IBGE, a especialista apurou ainda que, em 2021, o desemprego entre as mulheres durante a pandemia aumento mais do que entre os homens, independentemente da maior escolaridade. A taxa de desemprego entre mulheres com ensino superior completo subiu de 7,50% para 7,77% entre 2020 e 2021. Já entre os homens subiu menos: de 5,60% para 5,66% entre 2020 e 2021.
Também no estudo, a especialista da FGV notou ainda que a renda real habitual da mulher no mercado de trabalho em 2021, que representa os ganhos originados de todos os trabalhos, ficou em R$ 2.255, abaixo de 2020 (R$ 2.416), inferior à de antes da pandemia em 2019 (R$ 2.303), sendo a pior desde 2017 (R$ 2.231). A disparidade na comparação com o salário dos homens fica evidente nos cálculos da pesquisadora, deflacionados a valores do quarto trimestre de 2021. Em 2021, o rendimento médio habitual dos homens ficou em R$ 2.815 – sendo R$ 3.036 em 2020, e R$ 2.929 em 2019. Na prática, as mulheres ganhavam, em média no ano passado, 19,9% menos que os homens.
Um fator que contribuiu para esse cenário é o fato de que os menores salários do mercado de trabalho formal em 2021 foram ocupados, em maioria, por mulheres. No contingente de trabalhadores acima de 24 anos com ensino superior, usado pela pesquisadora para cálculos nesse tópico, as três profissões com menores salários, a preços deflacionados equivalentes a quarto trimestre de 2021, foram secretários; técnicos e assistentes veterinários; e trabalhadores de serviços de informação ao cliente (como telemarketing). Nessas categorias, as mulheres tinham participações respectivas de 86,9%; de 92,6%; e de 77%, em 2021.
As disparidades de vagas e salários entre homens e mulheres no mercado de trabalho não é um fenômeno novo no país, reconheceu ela. No entanto, no entendimento da pesquisadora, o advento da pandemia em 2020 agravou essas diferenças – em detrimento às mulheres.
“O cenário pós-pandemia é diferente. Há demandas que requerem ‘skills’ [habilidades] específicos. Grande parte das mulheres que saíram do mercado de trabalho não possui nível educacional alto, acaba ficando à margem desse processo de recuperação da economia”, explicou.
Para exemplificar o atual cenário, a especialista deu como exemplo a alta demanda, atualmente, por profissionais de tecnologia da informação, profissão notadamente com presença maior masculina. “Assim podemos tomar como exemplo uma secretária e um rapaz formado em engenharia de computação: o mercado está demandando mais esse último” exemplificou.
Ao ser questionada sobre o que fazer para melhorar emprego entre mulheres, a técnica recomendou direcionar esforços para formação educacional das mulheres, em prol das chamadas profissões do futuro, principalmente na área de tecnologia de informação. “Se não for feito nada, permanecerá esse cenário atual no qual a ‘empregabilidade’ dos homens é maior do que das mulheres.”
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