23 mar ‘Não precisa dar cavalo de pau na lei’
‘Não precisa dar cavalo de pau na lei’
A redução de jornada de trabalho tem que ser discutida com responsabilidade e por meio de acordos entre patrões e empregados, defende o economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), Fábio Bentes. Para ele, que conduziu um trabalho da entidade sobre os impactos do fim da escala 6×1, as propostas de emenda à Constituição (PECs) apresentadas na Câmara podem aumentar os custos para o empresário, encarecer a mão de obra e jogar mais trabalhadores na informalidade.
Bentes afirma que o momento atual do mercado de trabalho, com desemprego baixo e escassez de mão de obra, é favorável para os trabalhadores nesse tipo de negociação. “A gente não precisa dar cavalo de pau na legislação”, disse ao Valor.
A CNC calcula que cada 1% de aumento na folha de pagamentos do comércio representaria uma alta de 0,6% dos preços médios. E estima em R$ 122,4 bilhões o custo de adequação do setor à redução da jornada para 40 horas semanais e o fim da escala de seis dias de trabalho por um dia de descanso. O número corresponde a uma ampliação de 21% da folha de pagamentos e representaria 13% de ajuste nos preços a médio prazo. “Ninguém é contra a formalização e a proteção desses trabalhadores. Tornar esse anseio economicamente viável é o que nos preocupa”, disse. Veja os principais pontos da entrevista:
Valor: Na visão da CNC, há algum modelo alternativo à PEC 221/19 e à PEC 8/25 que tornaria a flexibilização da escala de trabalho economicamente viável?
Fábio Bentes: Da forma como está, o gradualismo teria que ser muito grande. Além disso, estamos em um ano eleitoral, que não é o momento mais oportuno para votar PECs. Ninguém é contra a formalização e a proteção desses trabalhadores. Tornar esse anseio economicamente viável é o que nos preocupa. Para ser viável, tem que ter negociação coletiva. O momento atual, com taxa de desemprego baixa e escassez de mão de obra, é até favorável para os trabalhadores nesse tipo de negociação. A gente não precisa dar cavalo de pau na legislação.
Valor: O estudo cita a necessidade de readequação do quadro de funcionários e adoção de tecnologia para mitigar os efeitos da escala 6×1. Pode-se esperar uma aceleração da automação no varejo?
Bentes: No momento em que o acesso à tecnologia fica cada vez mais barato e acessível, o encarecimento da mão de obra e da hora trabalhada de forma abrupta torna o investimento em tecnologia mais barato. E aí, o tiro pode sair pela culatra. Em vez de gerar vagas, pode gerar desemprego.
Valor: A CNC destaca que o mercado de trabalho é marcado por uma elevada taxa de informalidade, com cerca de 40% dos trabalhadores do país sem carteira assinada. A nova jornada agravaria esse quadro?
Bentes: Se a hora trabalhada vai ficar mais cara, espera-se que boa parte do setor produtivo acabe apelando para a informalidade na hora de contratar um trabalhador. A gente, de maneira nenhuma, defende isso. Um trabalhador informal é um trabalhador insatisfeito. Um trabalhador desprotegido é um consumidor com menos dinheiro no bolso porque a renda média de um trabalhador informal é de 30% a 40% menor. Encarecer a hora trabalhada pode produzir um estímulo à informalidade.
Valor: Vocês defendem que o comércio tenha regras diferenciadas?
Bentes: Se a gente precisar comprar um alimento num domingo, num sábado, vai encontrar o comércio aberto. O que isso significa? Que o comércio precisa mais de trabalhadores e oferece mais vagas porque opera em uma escala maior. Se a gente restringir essa capacidade, a alternativa pode ser restringir o horário de funcionamento dos estabelecimentos, o que é ruim para a população.
Valor: Há uma confusão sobre a discussão de redução da jornada versus escala?
Bentes: O ideal realmente é discutir a jornada semanal, e não a escala 6×1. Só o dono do estabelecimento, aquela pessoa que assume o risco do negócio, sabe qual a escala mais apropriada para ele operar. Essa questão de 5×2 versus 6×1 é um pouco imprecisa. A gente tem que atentar para a jornada semanal. E aí dentro dessa quantidade negociada de horas trabalhadas, ou até eventualmente aprovada por alguma PEC, é que patrão e empregado devem ajustar a escala de forma a atender o interesse das duas partes.
Valor: O impacto no comércio pode afetar a economia de forma mais sistêmica?
Bentes: Se o comércio e os serviços optarem por reduzir o quadro de funcionários por um aumento no custo da hora trabalhada, isso cria um problema para a economia como um todo. O principal fator indutor do consumo no Brasil é o mercado de trabalho. E o comércio faz isso, não porque é bonzinho, mas porque demanda a contratação de muita gente e, com isso, gera uma externalidade positiva. Gera oportunidade de emprego, de crescimento, e faz com que o principal agregado do PIB sob a ótica dos gastos, que é o consumo das famílias, empurre a economia para frente.
“Só quem assume o risco do negócio, sabe qual a escala mais apropriada” Fábio Bentes
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