21 set ‘Negras têm que ter mais espaço nas grandes empresas’, diz Cida Bento
‘Negras têm que ter mais espaço nas grandes empresas’, diz Cida Bento
Segundo Cida Bento, quando uma companhia diz que sua questão de gênero está melhorando, não é a mulher negra que está entrando, é a branca.
Em grandes conglomerados a presença das mulheres negras nunca ultrapassa entre 6% a 7% do número de funcionários. Empresas que têm ações afirmativas em relação a pessoas negras nos EUA não têm a mesma postura no Brasil. Pessoas que tomam decisões e estão em cargos de liderança influenciam o país e as empresas que chefiam, mas excluem quem não faz parte deste grupo de poder.
Estas ideias são de Cida Bento, doutora em psicologia social pela USP e conselheira do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades, o CEERT, instituição que tem 32 anos e ajudou a fundar. Eleita pela “Economist” como uma das 50 personalidades mais influentes do mundo no campo da diversidade, ela é referência no tema no Brasil.
No fim de semana, Cida Bento – que escreveu entre outros livros “O Pacto da Branquitude” – era uma das palestrantes de evento promovido pelo Pacto Global – Brasil, na sede da ONU, em Nova York.
O CEERT é o ponto focal do movimento “Raça é Prioridade”, um dos sete programas prioritários na agenda ESG lançados em abril pelo Pacto Global da ONU e que incluem igualdade de gênero, salário digno, descarbonização, saúde mental, transparência e anticorrupção. Leia a seguir os principais trechos da entrevista:
Valor: Qual a meta do movimento “Raça é Prioridade”?
Cida Bento: Ele tem a equidade racial como uma das linhas. O CEERT, minha organização, é o ponto focal deste programa. A meta é ter 1.500 empresas comprometidas com 50% de pessoas negras em posição de liderança. Queremos ampliar fortemente a presença de lideranças negras, em particular de mulheres negras, em grandes empresas.
Valor: Por que o foco nas mulheres negras?
Cida: Quando uma empresa diz que sua questão de gênero está melhorando, não é a mulher negra que está entrando, são as brancas. As mulheres negras estão na base da pirâmide. É o segmento com menos possibilidades, o mais afetado pela discriminação em qualquer nível. Queremos trazer as mulheres negras para outros lugares dentro do mercado de trabalho e também diminuir a desigualdade de salários e cargos.
Valor: É possível mudar também a sociedade com programas assim?
Cida: Estar em um lugar de liderança ajuda a pensar a organização e a sociedade. É também um projeto de oxigenar modelos de operar nas empresas e na sociedade. É também um jeito de mudar a realidade que a gente vive hoje. Mas as mentorias são diferentes.
Valor: Por quê?
Cida: Empresas, se forem espertas, não incorporam uma pessoa de segmento social diferente sem reconhecer que tem algo novo entrando. Não é só a pessoa nova que tem que se adequar à empresa. Outro ponto é que, ao estar dentro da empresa e fazendo uma mentoria, preciso de mulheres brancas e negras e da participação do homem branco que é o cara que sabe tudo sobre ocupação de cargos de liderança dentro das empresas. É preciso ouvir quem sempre esteve no lugar de comando, seja para aprender algo, seja para mudar.
Valor: A senhora sente a situação mudando no Brasil?
Cida: Sim, totalmente. De repente está eclodindo. Tem muito a avançar, mas as pessoas estão atentas. Em diferentes níveis, com diferentes passos, mas estão ligadas. Sou muito otimista.
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