No pós-pandemia, salário só sobe para menos escolarizado

No pós-pandemia, salário só sobe para menos escolarizado

Publicado em 24 de abril de 2023

Grupo que não completou ensino médio vê poder de barganha crescer, mas vantagem pode ser temporária.

Contrariando o que poderia ser a intuição econômica, o ganho salarial real após o choque da pandemia só aconteceu para trabalhadores menos escolarizados.

Para quem tem até o ensino médio incompleto, o salário real estava, no último trimestre de 2022, 4% acima do observado em igual período de 2019. Já para quem tem até o ensino médio completo e até o superior completo, os salários estavam, respectivamente, 2% e 9% menores. Os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), do IBGE, foram compilados pelo pesquisador Naercio Menezes Filho, do Insper e da Faculdade de Economia da Universidade de São Paulo (FEA-USP).

“Poderíamos pensar que, após a pandemia, aumentaria a demanda por trabalhadores mais qualificados, com ensino superior, refletindo-se em um diferencial salarial maior para eles. Mas, na verdade, o diferencial dos salários parece ter diminuído, já que o que está aumentando mais nos últimos anos são os salários dos menos qualificados”, diz Naercio.

Entre o quarto trimestre de 2020 e o de 2021, o salário real caiu para quem tem até o ensino médio incompleto, de R$ 1.562 para R$ 1.484, mas em 2022 saltou para R$ 1.600, ante R$ 1.543 em 2019. “Depois do choque da pandemia, o que voltou com força foram aqueles serviços que pararam, atividades, em geral, ocupadas por trabalhadores menos qualificados. O aumento de demanda por esse funcionário parece ter sido forte e gerou alta salarial real para ele”, aponta Naercio.

Para quem tem ensino superior completo, o salário recuou entre o último trimestre de 2019 e igual período de 2020 e, de novo, no quarto trimestre de 2021, de R$ 5.985 para R$ 5.727 e R$ 5.137, pela ordem. No fim de 2022, ainda estava em R$ 5.465.

“O trabalhador com ensino superior teve um ‘ganho’ na pandemia, porque, no geral, pode fazer ‘home office’ e continuar trabalhando. Mas houve queda salarial”, diz Naercio, ponderando que o desemprego continuava maior entre os menos qualificados.

Com dados um pouco mais desagregados, Fernando Veloso, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (FGV Ibre), observa a mesma tendência de “achatamento” na distribuição de salários durante a pandemia.

Ele destaca que a razão entre a renda de quem tem ensino superior e os demais grupos manteve-se relativamente constante até o fim de 2019: era 4,3 vezes o de quem não tinha instrução nem o fundamental completo; 3,7 vezes o de quem tinha fundamental completo/médio incompleto e 2,8 o de quem tinha médio completo/superior incompleto. Essa diferença salarial dos mais graduados diminuiu para todos os níveis de educação até dezembro de 2022, mas caiu mais ante os menos escolarizados: para 3,7 vezes em relação aos sem instrução/com fundamental incompleto, 3,3 entre quem tinha até o médio incompleto e 2,6 para superior incompleto.

“É um padrão parecido com o observado nos EUA”, diz Veloso. Ele cita estudo recente de David Autor, professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), e coautores que mostra que, após o choque da pandemia, com a alta demanda por trabalhadores menos qualificados, houve, entre 2020 e 2022, reversão de cerca de 25% da desigualdade salarial acumulada nos EUA em quatro décadas.

Veloso lembra que parte das empresas manteve, mesmo após o ápice da pandemia, um esquema híbrido de trabalho entre o presencial e o remoto, ao mesmo tempo em que a automação foi estimulada e acelerada pela crise sanitária. Ambos os fatores poderiam reduzir a demanda por trabalhadores menos qualificados, diz.

“Quando alguns empregados deixam de ir ao escritório, há perda de demanda por trabalhadores de segurança, limpeza, restaurantes – vagas, em geral, de menor escolaridade. E eles também seriam os mais afetados pela automação”, afirma. “Mas aconteceu o contrário, nos EUA e no Brasil.”

Os mercados de trabalho ficaram extremamente aquecidos com a recuperação econômica pós-pandemia, só que as taxas de participação (pessoas empregadas ou procurando vaga em relação à população em idade ativa) caíram com a crise sanitária e ainda não retornaram, observa Veloso.

“Gerou escassez de oferta de trabalho. Do outro lado, governos injetaram estímulos fiscais e monetários nas economias, desencadeando uma recuperação rápida da atividade. A consequência de excesso de demanda em relação à oferta é inflação, que estamos vendo em produtos e no trabalho”, afirma. Além disso, aponta, quem saiu mais do mercado de trabalho ou retornou menos – mantendo a taxa de participação baixa – foram os trabalhadores menos qualificados, o que contribuiu para a escassez de oferta da sua mão de obra, diz Veloso.

Segundo o pesquisador, já é um fenômeno bem documentado nos EUA que, quando o mercado de trabalho está aquecido, aqueles com salários mais baixos acabam se beneficiando mais. “A interpretação é que aumenta a competição por esse trabalhador que costuma ter menos poder de barganha em situações normais”, afirma. “Para o Brasil, não temos evidência para afirmar que é isso, mas é intuitivo pensar que é possível”, diz.

Miguel Foguel, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea), pondera que, mesmo antes da pandemia, havia indícios de queda da “desigualdade salarial”. A variação entre 2007 e 2019 dos salários no setor formal se comprimiu ao longo da distribuição: no primeiro décimo (os menores salários), a variação foi de 30%. No nono décimo, foi 12%. “Esses ganhos maiores na parte de baixo da distribuição, em comparação com o salário médio e alto, indicam queda da desigualdade salarial”, afirma.

Para ele, dois fatores ajudaram a determinar essa queda da desigualdade. Um são as mudanças educacionais. “Vimos, nesse período, a força de trabalho ficar cada vez mais instruída. A proporção de pessoas com ensino fundamental, médio e superior completo cresce. Isso muda a composição relativa da oferta de mão de obra e, com isso, o prêmio salarial, que é a renda obtida a cada ano a mais de estudo”, explica.

O outro fator, diz, é que o salário mínimo cresceu, em termos reais, por 25 anos consecutivos no Brasil. “Nem todo o setor formal paga o mínimo, existe um efeito ‘spillover’, em que ajustes na base acabam sendo repassados às faixas salariais seguintes. Mas é de se esperar que seja maior para as faixas próximas ao mínimo e menor para setores do topo da distribuição. Isso também comprime a dispersão dos salários”, afirma.

Naercio, do Insper, chama a atenção para a perda salarial dos mais qualificados no Brasil em uma série mais longa, dos últimos dez anos. “Aumentou muito o número de formados no ensino superior e, se tem um aumento muito grande da oferta [de trabalhadores], o salário cai.”

Soma-se a isso um fenômeno que ainda precisa ser melhor compreendido e que ganhou impulso na pandemia: o ensino superior a distância. “Pode ser que a qualidade não seja igual à do presencial. Outra hipótese é que os mais jovens que se formaram na pandemia passaram por uma queda de qualidade no ensino”, diz.

Como Veloso afirma ver mais fatores conjunturais para o crescimento relativo dos baixos salários, a tendência, na sua visão, é que esse movimento seja temporário. “O fato de ter acontecido algo parecido nos EUA reforça que não seria uma mudança estrutural do Brasil”, diz, ponderando que a reforma trabalhista de 2017 pode ser um diferencial positivo brasileiro.

Uma volta da taxa de participação ao pré-pandemia, o que ainda é incerto, e a perspectiva de desaceleração da atividade, que parece contratada, poderiam aumentar o desemprego e a desigualdade salarial, aponta Veloso. “Há as questões do trabalho remoto e da automação, que poderiam ter um efeito mais permanentemente negativo sobre esses trabalhadores menos qualificados. Por outro lado, vemos surgir possibilidades de automação também do mais qualificado”, diz, citando como exemplo o ChatGPT. “Não sabemos como ficará o salário relativo.”

De qualquer forma, para Veloso, uma melhoria mais permanente dos salários menores depende ainda de qualificação da mão de obra e de reformas que garantam crescimento econômico sustentado.

Fonte: Valor Econômico
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