No trabalho, a expectativa é de horário flexível e mais autonomia

No trabalho, a expectativa é de horário flexível e mais autonomia

Publicado em 19 de dezembro de 2022

Levantamento da Adecco indica que 54% dos entrevistados estão considerando reduzir ou já estão reduzindo as horas em direção a uma semana de trabalho de quatro dias.

O futuro do trabalho é híbrido. O recente estudo “Força de Trabalho do Futuro – Desvendando o Enigma do Talento” da consultoria global Adecco, com 34,2 mil trabalhadores em 25 países, incluindo o Brasil, aponta que 61% dos entrevistados estão fazendo modificações em suas casas para tornar o trabalho remoto mais fácil, indicador de que a nova realidade veio para ficar. A pesquisa revela, ainda, que seis em dez pessoas que trabalham no escritório estão considerando ou já mudaram de emprego para ter mais flexibilidade. “É importante lembrar que a flexibilidade é uma demanda anterior à pandemia, que acabou por acelerar esse processo”, diz André Vicente, country manager da Adecco do Brasil. Hoje, ele afirma, a flexibilidade é uma ferramenta de atração e retenção de talentos.

Ainda de acordo com o levantamento, 54% dos entrevistados estão considerando reduzir ou já estão reduzindo as horas em direção a uma semana de trabalho de quatro dias, mesmo que para isso recebam um salário menor – mas há obstáculos nesse sentido. “A semana de quatro dias ainda está sendo testada, mas é algo que nos parece menos provável de se expandir no mercado brasileiro”, comenta Vicente. “Em nossa pesquisa, mostramos que 42% dos entrevistados podem trabalhar por quatro dias na semana, porém, apenas 32% têm feito uso desse benefício. Desse modo, conseguimos captar que os trabalhadores pensam sobre a semana de quatro dias, mas se preocupam se o trabalho vai ficar acumulado, acarretando trabalhar por mais horas em um mesmo dia ou, até mesmo, executar as atividades inacabadas no quinto dia.”

Para o especialista, as empresas que estão fazendo essa mudança precisam atentar a todas as alterações que poderão acontecer dentro do seu ambiente, sejam elas negativas ou positivas.

O tema da produtividade está em debate com os novos formatos de trabalho. O relatório “Pulse do Índice de Tendências do Trabalho”, apresentado pela Microsoft neste semestre, revelou que há uma desconexão entre líderes e funcionários no que diz respeito à produtividade no trabalho híbrido. Enquanto 97% dos funcionários no Brasil dizem estar mais produtivos no híbrido, 88% dos gestores locais afirmam que a mudança trouxe um desafio de entender se isso está mesmo acontecendo. Na média global esses dados são 87% e 85%, respectivamente.

“Para muitos líderes é desafiador entender se as pessoas estão sendo produtivas no cenário híbrido”, diz Nayana Amorim, gerente de marketing para trabalho moderno da Microsoft.

Do lado do empregado, afirma Amorim, essa pressão de “provar” que está trabalhando pode gerar uma sensação de sobrecarga no funcionário, “trazendo o risco de a paranoia da produtividade tornar o trabalho híbrido insustentável”.

Na Livelo, onde 65% dos 475 funcionários optaram pelo modelo híbrido, a forma de medir a produtividade não mudou com os novos formatos, mas foram necessários ajustes para evitar sobrecargas e melhorar o alinhamento entre gestores e empregados.

As reuniões de “touch points”, por exemplo, tiveram a frequência alterada: semanal no pico da pandemia, quinzenal depois e mensal atualmente. “No [formato] híbrido [ser mensal] é suficiente, e o encontro também é híbrido hoje [não era antes da pandemia]”, explica Danielle Lopes, diretora de pessoas, planejamento e projetos da Livelo. A companhia implementou, ainda, períodos de foco, como as quartas à tarde sem reuniões, e a sexta-feira mais curta. “As agendas ficaram sobrecarregadas, e foi preciso entender como essa sobrecarga era um comprometimento à cultura da empresa.”

Para medir produtividade, a companhia, que trabalha com metodologias ágeis e horários flexíveis, continua olhando para as entregas. “O gestor tem papel fundamental para que o colaborador entenda suas entregas, alinhadas à estratégia da empresa.”

Vicente, da Adecco, reforça que um dos principais achados da pesquisa é que os trabalhadores exigem autonomia. “As organizações precisam agir com cuidado ao retomar o controle sobre a flexibilidade”, alerta. Afinal, 45% dos profissionais ouvidos estão olhando ativamente o mercado de trabalho, e 39% afirmam que equilíbrio entre vida pessoal e trabalho é sinônimo de sucesso.

Mas um levantamento do LinkedIn, de novembro, mostra que as empresas já estão retrocedendo em áreas importantes da vida profissional. Ao mesmo tempo que os funcionários buscam mais flexibilidade, os anúncios de vagas de trabalho remoto estão caindo — eram 2% dos empregos no LinkedIn antes da pandemia nos EUA, quase 20% em abril de 2022 e agora 15%, tendência vista em países ao redor do mundo. Para Milton Beck, diretor geral do LinkedIn para a América Latina, as empresas não devem voltar atrás em suas decisões. “Os líderes que recuarem em relação ao trabalho flexível correm o risco de desmotivar sua força de trabalho”, diz.

Fonte: Valor Econômico
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