27 maio Nova NR1, adiada para 2026, exigirá que empresas foquem na saúde mental
Nova NR1, adiada para 2026, exigirá que empresas foquem na saúde mental
Publicado em 27 de maio de 2025
A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR1), que trata da gestão de riscos ocupacionais, marca um ponto de inflexão nas relações de trabalho ao reconhecer oficialmente a importância da saúde mental no ambiente corporativo. Embora sua entrada em vigor, que ocorreria em 26 de maio deste ano, tenha sido adiada para 2026, o novo texto da norma sinaliza que doenças psicossociais, como depressão, ansiedade e estresse, passam a ser encaradas não apenas como questões individuais, mas como responsabilidades organizacionais.
Em entrevista ao Jornal da Lei, o presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos no Rio Grande do Sul (ABRH-RS), Pedro Fagherazzi, destaca que essa mudança exige um novo olhar por parte das empresas, que agora precisam estruturar ações concretas para cuidar do bem-estar emocional de seus colaboradores. Para ele, é preciso ir além da contratação pontual de psicólogos ou de ações isoladas: o cenário ideal envolve monitoramento contínuo, líderes preparados e ambientes baseados em confiança e respeito.
Jornal da Lei – A nova NR1 foi adiada por mais um ano. O que essa atualização representa e qual sua avaliação sobre as mudanças propostas?
Pedro Fagherazzi – A NR1 traz uma mudança significativa ao colocar no centro das atenções as doenças psicossociais, como estresse, depressão e outros transtornos mentais que afetam diretamente a produtividade e causam afastamentos. Isso gera um custo muito grande ao SUS e à própria empresa. A norma vem dizer às empresas: “vocês precisam cuidar disso”. Na prática, os casos de doenças mentais aumentaram de forma assustadora nos últimos anos. Os números de afastamentos são impressionantes. A NR1 impõe um novo olhar para a gestão de pessoas: não se trata apenas de segurança física, mas de saúde emocional.
JL – Esse adiamento foi motivado pela falta de preparo das empresas?
Fagherazzi – Exatamente. As empresas não estavam preparadas. Muitas ainda não sabem como agir… se contratam psicólogos, se montam uma estrutura interna, se terceirizam o serviço. Nós mesmos, na ABRH-RS, criamos um curso específico sobre a NR1 e já estamos na sexta turma. Há uma corrida agora para se adequar, mas foi comum o comportamento de deixar para a última hora e depois pressionar pelo adiamento.
JL – Que tipo de acompanhamento ideal as empresas deveriam oferecer em saúde mental?
Fagherazzi – No melhor cenário, é necessário monitoramento constante da saúde emocional dos colaboradores, com dados reais, além de avaliações sobre o clima organizacional. A liderança tem papel central nisso. Uma chefia autoritária e controladora gera estresse, afastamentos e baixa produtividade. E o problema se agrava também porque as novas gerações simplesmente não aceitam mais esse tipo de gestão.
JL – De forma mais ampla, que recomendações vocês dão para que o ambiente de trabalho seja positivo, não apenas em termos de saúde mental, mas de saúde física e relações saudáveis?
Fagherazzi – Tudo começa pela liderança. Sempre defendi que o time é reflexo do líder. Um bom líder reduz estresse, evita acidentes, melhora a saúde física e emocional das pessoas. Enquanto a saúde física vem sendo tratada há mais tempo nas empresas, com normativas rígidas, a saúde mental ficou para trás. Mas agora é a prioridade. Um ambiente positivo depende de confiança, respeito, equilíbrio nas cobranças e no reconhecimento.
JL – Como o senhor define um bom líder?
Fagherazzi – Para mim, liderança se baseia em três pilares: confiança, delegação e responsabilização. Eu só trabalho com quem confio. Se há confiança, posso delegar. E responsabilizar é reconhecer o bom trabalho e apontar o que pode ser melhorado. Não é só cobrar: é construir junto. O oposto disso é o comando e controle, aquele modelo antigo do “eu mando, você obedece”, que não funciona mais. Os jovens não aceitam isso, e mesmo quem aceita por necessidade, adoece.
JL – A ABRH-RS pode ser vista como uma entidade voltada às empresas. Como demonstrar que também apoia os trabalhadores?
Fagherazzi – Na verdade, apoiamos tanto as empresas quanto as pessoas. Entendemos que, ao ajudar os profissionais a se desenvolverem, também estamos contribuindo para o sucesso das organizações. Nosso papel é promover esse equilíbrio entre capital e trabalho, porque um não existe sem o outro. Um ambiente produtivo, saudável e rentável para a empresa só é possível com pessoas bem cuidadas.
JL – Qual é o papel de vocês nas relações de trabalho e qual a missão da entidade?
Fagherazzi – Temos como missão desenvolver pessoas. Trabalhamos desde jovens, com a ABRH Estágios, fazendo a ponte entre escolas e empresas, até executivos, com cursos técnicos, fóruns e congressos voltados à liderança e gestão de pessoas. Nosso foco principal são os profissionais da área de recursos humanos e as lideranças de todos os setores.
Fonte: Jornal do Comércio
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