19 maio NR-1 vai substituir modelos de gestão autoritários nas empresas, afirmam especialistas
NR-1 vai substituir modelos de gestão autoritários nas empresas, afirmam especialistas
A NR-1, norma regulamentadora do Ministério do Trabalho e Emprego sobre saúde e segurança no trabalho que entra em vigor no próximo dia 26 de maio, e forçará uma transição cultural nas empresas, substituindo modelos de gestão autoritários por ambientes que vão priorizar o bem-estar humano e o equilíbrio social, segundo a psicóloga organizacional Angelita Garcia, ao destacar que a relação entre a governança das empresas e os colaboradores resultará em uma grande mudança no ambiente de trabalho.
Segundo Angelita, a NR-1 será uma grande virada de chave nas organizações. “É como se o mundo do trabalho fosse um até aqui e daqui para frente será outro. A NR-1 vai obrigar a mudança na relação entre a governança das empresas e os colaboradores. A maneira de convivência dentro das organizações vai mudar radicalmente”, ressalta.
De acordo com a psicóloga, as organizações serão obrigadas a realizar mapeamentos psicossociais e a criar planos de ação concretos para resolver problemas como sobrecarga de trabalho (escalas de trabalho exaustantes) e ambientes tóxicos. Além disso, segundo a especialista, a norma introduz a necessidade de canais de denúncia protegidos pela Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e sistemas de rastreabilidade para documentar o suporte dado aos funcionários. “Vamos ter uma profunda transformação nas relações entre gestores e funcionários”, comenta. A psicóloga explica que a legislação é um marco que modernizará o mercado de trabalho através da valorização do ser humano.
Sobre as relações no ambiente de trabalho, Angelita afirma que as pessoas ao deixarem uma empresa falam do ambiente tóxico e sobre a escala de trabalho cansativa. “Muitos admitem que não têm tempo para vida social. Uma boa qualidade de vida e segurança no ambiente de trabalho. Todos esses valores já estão em desequilíbrio hoje no mundo do trabalho”, explica.
O presidente do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers), Marcelo Matias, defende a criação de ambientes acolhedores e a capacitação de gestores para transformar o local de trabalho em um fator de proteção e não de adoecimento. “Estamos com uma verdadeira epidemia de alterações psíquicas dos trabalhadores e verificamos um aumento da necessidade de serviços psiquiátricos”, comenta.
De acordo com Matias, a NR-1 faz com que as empresas trabalhem no sentido de tentar fazer um ambiente um pouco mais tranquilo. “Quem atua na área da saúde deve se preocupar sempre com a saúde mental de toda a população e dos trabalhadores em particular”, comenta.
Para ele, o ambiente de trabalho também é um local de estresse. “Os fatores de estresse vão desde o tipo de trabalho executado, dos riscos envolvidos na profissão e na segurança para executar as tarefas estabelecidas pelos gestores”, explica. O presidente do Simers afirma que nesse sentido é fundamental a criação de um ambiente de trabalho saudável e acolhedor.
Na sede do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul, Matias destaca a realização de capacitações internas com o oferecimento de cursos para gestores e colaboradores no sentido de melhorar o ambiente. “Um ambiente de trabalho saudável é positivo para todos. Passamos boa parte do nosso dia fora de casa trabalhando por um objetivo ou para outras pessoas”, acrescenta.
O presidente do Simers diz ainda que os trabalhadores em algum momento também atuam como empregadores. “Por tudo isso, é necessário que todos tenham a responsabilidade de criar um ambiente positivo nas empresas. A ideia é que os colaboradores possam sentir no trabalho uma extensão da sua casa”, destaca.
Sobre a implementação da NR-1, a advogada trabalhista Carla Regina Wedy explica que a grande mudança é a transição de uma cultura de monetização do risco para um sistema de gerenciamento de riscos ocupacionais, exigindo que as empresas criem um Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) composto por avaliações técnicas e planos de ação. A advogada destaca que no ambiente do trabalho sempre existiu a cultura da monetização do risco. “Trabalha em uma atividade insalubre paga insalubridade. Trabalha em atividade perigosa paga periculosidade. Nunca houve uma preocupação com a prevenção”, ressalta.
A advogada trabalhista explica que a prevenção nunca fez parte do ambiente do trabalho no Brasil. “E a NR-1 traz exatamente isso. Ou seja, o princípio da prevenção nas relações”, aponta. Para Carla, a NR-1 é uma alteração muito significativa, porque mexe sim, com toda a postura da organização, tanto dos empregadores como dos trabalhadores, que terão suas obrigações, segundo a especialista.
Os três painelistas debateram a implementação da NR-1 em evento organizado pela Associação Comercial de Porto Alegre (ACPA), no Palácio do Comércio.
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