02 jun O desafio da gestão de riscos na segurança
O desafio da gestão de riscos na segurança
O estigma associado aos transtornos mentais laborais, tanto na sociedade como na segurança pública, é uma barreira letal, especialmente quando crises institucionais deflagram ondas de suicídio entre policiais, bombeiros e agentes penitenciários. Rotular esses profissionais como “frágeis” ou “doentes” não apenas silencia a dor, mas também naturaliza o sofrimento como fraqueza individual, desviando o foco das causas
sistêmicas: jornadas exaustivas, falta de apoio psicológico, assédio institucional e exposição crônica à violência.
Em cenários de múltiplos suicídios relacionados ao trabalho, o estigma se retroalimenta. O medo de represálias ou de comprometer a carreira impede que os trabalhadores busquem auxílio. As corporações, por sua vez, tendem a ocultar os casos para não macular sua imagem, tratando as mortes como eventos isolados ou como falhas pessoais. Esse silêncio coletivo aprofunda o luto e a desesperança, gerando contágio emocional e novos óbitos.
É nesse contexto que a Norma Regulamentadora 01 (NR01) surge como ferramenta estratégica, porém subutilizada. Ao dispor sobre o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), a NR01 obriga empregadores a identificar, avaliar e controlar os riscos psicossociais, incluindo aqueles que afetam a saúde mental. No âmbito da promoção e vigilância, sua aplicação sistemática quebraria o estigma: o sofrimento psíquico passaria a ser tratado como risco de mesma gravidade que o físico, exigindo medidas preventivas, monitoramento contínuo e ambiente de apoio.
Contudo, a mera existência normativa é insuficiente. Enquanto as instituições de segurança pública não incorporarem a NR01 com auditoria independente e garantia de sigilo absoluto aos que relatarem adoecimento, o estigma prevalecerá. É preciso substituir a cultura punitiva por protocolos de acolhimento, com afastamentos protegidos, perícias humanizadas e campanhas internas que desnaturalizem o suicídio
como “fatalidade”.
Em suma, romper o estigma exige ação normativa efetiva e coragem institucional. A NR01 oferece o arcabouço técnico; falta a vontade política de aplicá-la sem desviar o olhar. Cada suicídio de um trabalhador da segurança pública não é um ato isolado de fraqueza, mas a evidência de um sintoma de um sistema adoecido. Controlar os riscos psicossociais não é benevolência – é obrigação legal e dever ético.
Psicólogo Organizacional e do Trabalho e mestre em Psicologia Social e Institucional (Ufrgs)
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