O preço real do trabalho-sombra

O preço real do trabalho-sombra

Publicado em 31 de janeiro de 2023

Tarefas realizadas por outras pessoas foram transferidas para o consumidor digital.

Um dos grandes mistérios econômicos do momento é por que a produtividade dos trabalhadores, especialmente nos EUA, está caindo.

Alguns economistas dizem que isso é simplesmente uma correção em relação ao trabalho insustentavelmente árduo que muitos de nós realizamos durante a pandemia de covid-19. Mas também houve uma queda da produtividade após a Grande Recessão [iniciada em 2008]. E, embora haja certamente grandes fatores de longo prazo em jogo no atual cenário, como o fato de a educação não ter acompanhado o ritmo da tecnologia (o que, por sua vez reduz a produtividade), acho que há outros problemas, subexplorados. Entre estes está a ascensão do trabalho-sombra.

O trabalho-sombra é um termo cunhado pelo filósofo e crítico social austríaco Ivan Illich em 1981. Para ele, incluía todo o trabalho não pago feito nas economias, como cuidar dos filhos e da casa. Mas, mais recentemente o termo foi expandido de modo a incluir o trabalho que as empresas conseguiram transferir para seus próprios clientes, via tecnologia. No livro de 2015 “Shadow Work: The Unpaid, Unseen Jobs That Fill Your Day”, Craig Lambert, ex-editor da “Harvard Magazine”, se concentrou na multiplicidade de tarefas que eram realizadas por outras pessoas, que agora a maioria de nós executa por conta própria, geralmente com a ajuda de dispositivos digitais.

Economistas como Joseph Stiglitz citaram o trabalho-sombra como consequência indireta negativa de um sistema de mercado no qual as empresas são incentivadas a se livrar dos custos com mão de obra. Lambert aponta a perda do trabalho pouco qualificado em serviços

Isso inclui tudo, desde serviços bancários até reservas de viagem, encomendar comida em restaurantes até empacotar compras de supermercado, para não falar em baixar e navegar os aplicativos de que precisamos para pagar bilhetes de estacionamento, monitorar as lições de casa dos nossos filhos ou mesmo solucionar nossos próprios problemas com tecnologia.

Embora nem Lambert nem grupos como a Agência de Estatística do Fundo Monetário Internacional (FMI) tenham uma boa estimativa do volume total de trabalho extra representado por tarefas desse tipo, ele é, evidentemente, significativo e está crescendo, em especial se se levar em conta pesquisas que mostram que 25% de todos os empregos nos EUA estarão severamente descontinuados pela automação até 2030 (de fato, a maioria dos empregos experimentarão algum grau de descontinuidade). “Estou simplesmente embasbacado com o quanto estamos sendo ludibriados em gastar nosso próprio tempo providenciando coisas de que outras pessoas cuidavam por nós antes”, diz Lambert.

Em semana recente e não excepcionalmente rara, baixei e usei vários aplicativos novos em meu celular, a fim de fazer coisas como pagar monitores de aulas preparatórias da faculdade, marcar aulas e costurar umas férias no exterior. Houve, ainda, o inferno exclusivamente americano do trabalho-sombra de assistência médica. Incluiu prestar informações médicas a provedoras, preencher pedidos de seguro para vários membros da família, e o esforço de tentar ser reembolsada ou corrigir os erros frequentes que surgem em um sistema altamente fragmentado e complexo no qual várias entidades tentam, todas, empurrar os custos umas para as outras.

Perdi algumas horas tentando solucionar (sem sucesso) um problema de encomenda com uma loja de departamentos, migrando a partir de vários e-mails de ajuda até atendentes virtuais, passando por conversas com call-centers do exterior, que prometeram consertar as coisas e não o fizeram. Acabei transferindo o problema para a minha empresa de cartões de crédito, a Visa, que, por sua vez, pediu que eu fornecesse informações digitais adicionais.

Uma viagem a negócios requereu o uso de uma plataforma de viagens desconhecida, que me exigiu tempo e esforço para aprender a usar. Apontei os itens de meu próprio almoço no computador de um quiosque no aeroporto, que me perguntou se eu queria deixar uma gorjeta (para mim mesma?). Quando o voo foi adiado, sentei em uma cafeteria em que os pedidos tinham de ser feitos por meio de um iPad. Após 30 minutos de espera por um “expresso com leite”, olhei à volta em busca de ajuda, mas não consegui encontrar um único ser humano para o qual reclamar (o cara do meu lado revelou estar esperando havia 40 minutos). Acabei embarcando sem o café e sem reembolso.

Pode-se argumentar que todo esse trabalho-sombra empurra para baixo os preços ao consumidor, ao reduzir a mão de obra humana. Talvez. Mas isso é produtivo para a economia? É preciso se perguntar. Será que isso faz sentido para mim, como uma trabalhadora intelectual especializada bem-remunerada, gastar várias horas semanais enfrentando dificuldades com tarefas que eram muito mais bem-executadas no passado por funcionários pouco qualificados que precisavam do emprego?

Esta não é uma pergunta movida pela arrogância, é uma pergunta cabível, movida pela lógica. Economistas como Joseph Stiglitz citaram o trabalho-sombra como a consequência indireta negativa de um sistema de mercado no qual as empresas são incentivadas a se livrar dos custos com mão de obra. Lambert aponta uma das consequências negativas do trabalho-sombra como sendo a perda do trabalho pouco qualificado no setor de serviços.

Um estudo da Brookings Institution de 2019 observou que os mais baixos empregos remunerados por hora (de baixa qualificação) são os que mais correm o risco de ser extintos pela automação, o que, por sua vez, significa que pessoas mais jovens e minorias em especial estão sendo ameaçadas pelo tipo de descontinuidade do mercado de trabalho que dá origem ao trabalho-sombra. A menos que os governos melhorem a educação de maneira a que acompanhe a tecnologia, muitos desses trabalhadores não conseguirão arrumar novos empregos, e a produtividade e o crescimento cairão.

Por outro lado, em uma economia cada vez mais automatizada, o contato humano, de modo geral, se tornou um luxo. Pessoas verdadeiramente ricas contam com outras pessoas que fazem o trabalho-sombra para elas.

Naturalmente, a automação e a economia dos aplicativos trazem consigo muitas vantagens. Os custos emocionais de estar muito ocupado, realizando várias atividades, e de se dispersar, que nos coloca, a todos, em nossos silos individuais de informação, são difíceis de contabilizar. Mas rastrear o custo econômico total gerado pelo trabalho-sombra seria um projeto valioso.

Fonte: Valor Econômico
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