06 mar O que Aurora e Salton agora têm em comum com empresas como Zara e Odebrecht
O que Aurora e Salton agora têm em comum com empresas como Zara e Odebrecht
Trabalho escravo contemporâneo está presente em diversas cadeias produtivas muito mais do que as pessoas imaginam.
O que as vinícolas Aurora, Garibaldi e Salton têm em comum com a Zara, a Animale, a M.Officer, a MRV, a OAS, a Odebrecht, a Cutrale, a Citrosuco, a Cosan, a Nespresso, a Starbucks, a JBS, a Marfrig e o Minerva? São exemplos de grandes empresas que foram acusadas de envolvimento direto ou indireto com trabalho escravo.
Parte dos 207 resgatados da escravidão em Bento Gonçalves (RS) trabalhava para a Fênix, uma prestadora de serviço das três vinícolas gaúchas, atuando na carga e descarga de uvas. Isso gerou comoção devido à violência com a qual eles eram tratados – o que incluía o uso de armas de choques, spray de pimenta e cassetetes. Contribuiu o fato de o vinho ser visto no Brasil como produto de elite.
Mas o trabalho escravo contemporâneo está presente nas relações laborais muito mais do que as pessoas imaginam, e em cadeias produtivas voltadas ao mercado interno e externo.
Só para citar os exemplos presentes no início deste texto, resgates de escravizados ocorreram na linha de fabricação de roupas da Zara em 2011, da Animale em 2017, da M.Officer, em 2013 e 2014.
Obras da MRV foram palco de resgates em 2021, 2014, 2013 e 2011. Em 2013, trabalhadores das obras de ampliação do Aeroporto Internacional de São Paulo, da OAS, foram resgatados. A Odebrecht respondeu na Justiça do Trabalho por escravizar brasileiros em Angola em contratações até 2014 e fechou um acordo de R$ 30 milhões com o Ministério Público do Trabalho para encerrar a ação.
A produção de laranja para a Cutrale foi alvo de resgate de escravizados em 2013 e para a Citrosuco, em 2013 e 2020. A Cosan foi palco de um resgate de trabalhadores de uma de suas usinas de cana em 2007.
Um produtor de café flagrado com trabalho escravo em 2018 era fornecedor certificado com selo de qualidade tanto da Nespresso quanto da Starbucks.
Todos os dados são do Ministério do Trabalho e Emprego. E os frigoríficos JBS, Marfrig e Minerva receberam e processaram gado que passaram por pecuaristas flagrados por esse crime nos últimos cinco anos.
Os mais de 60 mil resgatados da escravidão desde 1995, quando o governo brasileiro criou o sistema público de combate a esse crime, foram encontrados em dezenas de atividades econômicas. Ou seja, temos “escravizados do vinho”, mas também da madeira, do bife, do couro, do aço, da soja, do algodão, do café, do suco de laranja, do tomate, da pimenta-do-reino, da erva-mate, da batata, da cebola, da farinha de mandioca, do sisal, do ouro, das roupas, dos bordéis, da construção civil. E claro, os escravizados de nossas residências pelo trabalho escravo doméstico. Os dados também são do governo federal.
Após terem seu envolvimento descoberto, parte das empresas tomou ações para melhorar o controle de suas cadeias produtivas, pois a vinculação de seus nomes com a escravidão costuma gerar até queda de ações na Bolsa de Valores.
Como foi o caso da Cosan. Após a sua inclusão na “lista suja”, o Walmart e outras redes varejistas divulgaram que estavam suspendendo a compra de açúcar das marcas União e Da Barra, pertencentes à empresa. E o BNDES decidiu suspender, em caráter preventivo, “todas as operações com a empresa” até que ela saísse da lista. Com isso, as ações tiveram desvalorização de 5,32% na Bolsa de São Paulo no dia 7 de janeiro de 2010.
A justificativa-padrão é a de que não sabiam o que acontecia, como a que foi dada pelas vinícolas do Rio Grande do Sul, o que não é mais aceito sem contestação de investidores, de financiadores e dos mercados interno e externo.
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