14 ago O que leva executivos do C-level a recusar ofertas de emprego?
O que leva executivos do C-level a recusar ofertas de emprego?
Entenda as razões que levam os profissionais a dizerem não às propostas, mesmo após passarem por longos processos de seleção.
Profissionais do C-level estão, cada vez mais, recusando ofertas de trabalho após serem aprovados em processos de seleção. É o que apontam dados levantados pela Exec, consultoria especializada em recrutamento e desenvolvimento de executivos.
De acordo com a análise, obtida com exclusividade pelo Valor, em 2020, o índice de ofertas rejeitadas chegava a 4,40%. No ano seguinte, saltou para 25%; em 2022 subiu para 28%; e, este ano, o indicador está em 20,40%.
Entre os motivos para a alta de desistências, André Freire, sócio da Exec, aponta o receio por parte dos profissionais de encarar uma mudança em um período de incertezas. Nesses casos, segundo ele, é comum que o executivo converse com a empresa onde trabalha e acabe recebendo uma contraoferta. “As pessoas estão usando as novas propostas de trabalho para conseguir melhorar sua condição nas companhias em que estão atualmente”, explica.
No entanto, ele afirma que isso pode representar um problema para o executivo. “Se ele já estava sendo valorizado pela empresa atual, estaria crescendo independentemente de receber uma oferta de outra companhia”, pondera. “Se dobram o salário dele nessa situação, é porque tem alguma coisa errada. O risco dessa pessoa ficar com uma remuneração muito diferente dos pares, lá na frente, é que quando surgir algum problema, ele ser o primeiro a ser cortado porque se tornou um profissional muito caro.”
Karin Parodi sócia do Career Group, aconselha que, nesse caso, o executivo avalie quais motivos o levaram a procurar uma nova oportunidade, e encontre uma razão para decidir permanecer. “Fazer leilão entre as ofertas é péssimo”, alerta.
Outro motivo apontado por Freire diz respeito ao formato dos processos seletivos, que passaram a ser totalmente virtuais. Ele acredita que a distância imposta pelas entrevistas remotas fez com que os executivos passassem a se sentir menos compromissados com os processos de seleção. “A facilidade do remoto tirou o engajamento e a dedicação ao processo”, afirma. “Parece que existe um compromisso maior quando o candidato fica cara a cara com o entrevistador e aperta a mão dele.”
Além disso, continua, alguns profissionais têm aproveitado a “comodidade” das seletivas virtuais para usá-las como uma espécie de teste. “Tem executivo que resolve participar da seleção para saber quanto está valendo no mercado”, observa.
Diante desse motivo, Freire alerta que participar de um processo seletivo com o único intuito de entender o “quanto vale” e já sabendo, desde o início, que não vai aceitar a oferta, é uma prática arriscada para a carreira.
Parodi, por sua vez, lembra que o profissional não precisa passar por um processo seletivo para ter acesso a esse tipo de informação. “Existem consultorias que pesquisam com frequência esses dados, além do networking.”
As “desistências tardias” prejudicam o processo seletivo como um todo, explica Freire. “Acabo gastando um lado político com o meu cliente para chegar onde o candidato queria, ao mesmo tempo em que isso atrasa todo o processo porque, muitas vezes, temos que recomeçar do zero”, detalha. “Tem que haver uma razão muito forte para um candidato recusar uma vaga no final do processo porque, possivelmente, ele vai ficar marcado.”
Segundo Parodi, rejeitar uma oferta não impacta a carreira do executivo se for uma situação pontual. “Mas ninguém quer perder tempo com um profissional que pratica esse comportamento de forma recorrente”, diz. “É preciso cuidado para não queimar as pontes, pois a jornada é longa.”
Para tentar diminuir o índice de propostas recusadas, Freire conta que as consultorias têm tentado entender o engajamento real do candidato investigando o momento daquele profissional. “Antigamente, por exemplo, o que pesava não era o dinheiro, mas uma mudança de indústria, um desafio diferente, e isso já fazia a pessoa comprar a ideia”, detalha.“Hoje, se a vaga não tiver uma diferença de remuneração de pelo menos 30%, a gente nem traz o candidato, pois a empresa atual pode dar um pequeno aumento e, no fim, ele decidir ficar onde está.”
Na opinião do especialista, as recusas devem continuar ocorrendo enquanto os executivos não sentirem segurança para dar novos passos na carreira. Por outro lado, voltar às entrevistas presenciais ainda é uma utopia, segundo ele. “Às vezes, a gente até tenta trazer as pessoas presencialmente em fases finais dos processos seletivos, mas é raro conseguirmos”, diz.
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