Onda de greves na França expõe irritação com a inflação na Europa

Onda de greves na França expõe irritação com a inflação na Europa

Publicado em 19 de outubro de 2022

Os europeus já sofriam com uma inflação alta causada pelos problemas nas cadeias de suprimentos e outros fatores quando a invasão da Ucrânia pela Rússia agravou o problema.

Mais de 100 mil pessoas saíram às ruas em toda a França ontem para exigir salários maiores para enfrentar o aumento das contas de energia e a inflação maior, um sinal da turbulência política diante do presidente Emmanuel Macron e de outros líderes europeus uma vez que a guerra na Ucrânia prossegue sem um final à vista.

Professores, ferroviários e trabalhadores da saúde em greve fizeram manifestações em dezenas de cidades da França, unindo-se aos protestos liderados por trabalhadores de refinarias que estão em greve há várias semanas, prejudicando o abastecimento de combustíveis e o sistema de refino do país. Cerca de 28% dos postos de gasolina do país estão sem gasolina e diesel. As marchas são, em sua maioria pacíficas, mas em Paris alguns manifestantes quebraram janelas de lojas e entraram em choque com a polícia.

A agitação é um teste ao apoio da Europa à Ucrânia em sua luta contra a Rússia. Os europeus já sofriam com uma inflação alta causada pelos problemas nas cadeias de suprimentos e outros fatores quando a invasão da Ucrânia pela Rússia agravou o problema.

A decisão de Moscou de cortar o fornecimento de gás natural para a Europa – em retaliação ao apoio do continente à Ucrânia – fez os preços da eletricidade e do gás dispararem, levando os trabalhadores a exigir aumentos salariais para amortecer o impacto na renda. As tensões geopolíticas entre o Ocidente e a Rússia também aumentaram os preços do petróleo.

Com a guerra em seu oitavo mês, a maior parte dos europeus ainda apoia as sanções contra a Rússia e o fornecimento de armas para a Ucrânia. Mas os líderes do continente temem que o estresse econômico possa minar o apoio da população a essas políticas ou aos governos que as apoiam, especialmente com o inverno chegando e demanda por gás aumentando.

Pesquisas mostram que o apoio público caiu desde o começo da guerra. Uma pesquisa na França e na Alemanha realizada pela Ifop neste mês, constatou que 67% dos franceses apoiam as sanções contra a Rússia, número que era de 72% em março; o apoio dos alemães caiu de 80% para 66%.

Ao cortar o fornecimento de energia para a Europa, o presidente russo, Vladimir Putin, mirou o cerne da estabilidade econômica e política do continente. A falta de gás de baixo custo afeta indústrias que por décadas dependeram da Rússia, levando a aumento nos preços e ao fechamento de fundições de alumínio, siderúrgicas e outras fábricas que consomem muita energia.

Os preços maiores também punem a classe média, aumentando a frustração com o establishment político do continente.

Na Alemanha, milhares de pessoas realizaram protestos nas últimas semanas, exigindo tetos aos preços da energia, maior apoio financeiro às famílias vulneráveis e o fim das sanções contra a Rússia.

As mais recentes manifestações em Berlim, Potsdam e Leipzig, na semana passada, foram organizadas por uma aliança de sindicatos e organizações ambientais sob o slogan “Basta. Não vamos congelar em nome dos lucros”. Os manifestantes pediram aumento nos pagamentos de assistência social, moradias mais acessíveis e políticas climáticas melhores. “Algumas empresas estão ficando mais ricas com a crise e a agitação social vem crescendo”, disse Manuela Grimm, líder sindical da região de Leipzig.

Autoridades e analistas temem que grupos de extrema-direita e extrema-esquerda possam tirar proveito do descontentamento público com a desaceleração econômica em parte motivada pela guerra econômica com a Rússia.

Neste mês, milhares de pessoas saíram às ruas da ex-Alemanha Oriental para protestar contra o envio de armas por Berlim para a Ucrânia e as sanções contra a Rússia. Muitas manifestações eram ligadas a grupos políticos extremistas como o partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha.

Na Itália, como reduzir as contas de energia foi um dos temas principais da campanha eleitoral da Itália em setembro. A provável próxima premiê Giorgia Meloni será pressionada a encontrar uma maneira de reduzir o impacto dos altos custos da energia antes da chegada do inverno. Muitos políticos italianos estão frustrados com o ritmo lento das negociações na União Europeia sobre como enfrentar a crise de energia. A Itália vem pressionando por um teto aos preços do gás importado, mas a Alemanha até agora rejeita a ideia.

Fonte: Valor Econômico
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