Otimismo para massa de renda maior em 2024 ganha força

Otimismo para massa de renda maior em 2024 ganha força

Publicado em 8 de fevereiro de 2024

Mercado de trabalho, regra do mínimo e precatórios impulsionam perspectiva.

A continuidade das notícias favoráveis no mercado de trabalho, a nova regra do salário mínimo e, no caso específico de 2024, o impulso com o pagamento dos precatórios têm levado a uma visão mais otimista, entre economistas, para a massa de renda expandida do Brasil nos próximos anos.

O Santander elevou sua projeção para o crescimento da massa real ampliada neste ano de 2,4% para 4,2%. A previsão para 2025 foi de 0,8% para 1,9%. A massa expandida inclui salários, benefícios previdenciários e transferências, como o Bolsa Família.

 O tema tem sido destacado pelo Banco Central, dado seu potencial reflexo, por exemplo, sobre a inflação de serviços. Na ata da reunião de janeiro, o Comitê de Política Monetária (Copom) notou “o aumento da renda das famílias, como reflexo da elevação do salário-mínimo, de benefícios sociais e do mercado de trabalho mais resiliente”. Disse que é importante monitorar “com bastante atenção as diferentes variáveis do mercado de trabalho, em particular com um acompanhamento minucioso da dinâmica dos rendimentos reais, que apresentaram maior crescimento nos últimos meses”.

A massa de renda ampliada já cresceu 6% em termos reais em 2023, ante 2022, dois pontos percentuais acima do que o Santander estimava em meados do ano passado. A resiliência do mercado de trabalho foi, segundo o banco, uma das surpresas mais significativas de 2023 e parece haver desdobramentos para 2024.

A baixa taxa de desemprego ao longo de 2023 era argumentada pelo Santander como um reflexo também da taxa de participação reduzida no mercado de trabalho, já que transferências governamentais mais elevadas poderiam estar estimulando pessoas a permanecerem fora da força de trabalho.

Os dados do IBGE de dezembro, no entanto, mostraram que a taxa de participação aumentou impulsionada não pelo crescimento dos desempregados em busca de uma vaga, o que seria esperado caso esses beneficiários estivessem retornando à força de trabalho, nota o Santander. Em vez disso, o aumento da participação foi explicado pela expansão da ocupação.

“Foi o contrário do que a gente esperava, reforçando o quanto o mercado de trabalho está aquecido. A foto final de chegada, o ano de 2023 terminou muito forte”, diz Felipe Kotinda, economista do Santander e um dos responsáveis pelo estudo sobre massa de renda.

Diante disso, o Santander revisou sua projeção para a taxa de desemprego no fim de 2024 de 9,3% para 8,7%.

Com o aumento dos salários nominais, o processo de desinflação e o avanço da população ocupada, os salários reais (descontada a inflação) cresceram 6,3% em 2023, segundo o Santander – em fevereiro do ano passado, a projeção era bem menor, de 2,8%.

Pela nova regra, o salário mínimo será anualmente reajustado pela inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) dos 12 meses anteriores mais a taxa de crescimento real do PIB dos dois anos anteriores ao corrente. O Santander espera que o salário mínimo suba 6,8% em 2025, perto dos 6,9% de 2024.

No estudo, o Santander nota que há uma relação entre reajustes do salário mínimo e o crescimento dos ganhos nominais. O banco estima alta de 6,7% dos salários nominais em 2024 e de 6,6% em 2025. Isso, somado aos pressupostos para inflação e população empregada, levou a um aumento das estimativas para o avanço da massa salarial real de 1,7% para 3,9 em 2024 e de 1,4% para 2,8% em 2025.

O Santander incluiu ainda no seu cenário um impacto positivo de 0,9 ponto percentual dos precatórios na massa de renda real ampliada, o que deve se traduzir em um impulso de 0,2 a 0,3 ponto percentual para o PIB deste ano.

Em relação aos benefícios sociais, o cenário do Santander não inclui ajustes no total orçado, por exemplo, para o Bolsa Família, mas os economistas do Santander reconhecem que o pagamento médio pode aumentar caso haja uma focalização do número de beneficiários, principalmente em relação às chamadas “famílias unipessoais”. Em janeiro deste ano, o Bolsa Família cobria 21,1 milhões de famílias, com um benefício médio de R$ 685, segundo o Santander.

 Dados do Bradesco indicam um mercado de trabalho formal ainda bastante forte em janeiro, o que levou o banco a revisar para cima suas premissas para salários. Isso, somado às demais transferências, deve fazer a renda disponível para consumo crescer 5% em termos reais, estima a equipe liderada por Fernando Honorato Barbosa.

“Recuperação do crédito à pessoa física pode ganhar fôlego”

Além dos precatórios, o Bradesco aponta que o avanço das operações de crédito do sistema financeiro, com redução da taxa de inadimplência, também tende a contribuir positivamente.

“Uma novidade, que acho que está ganhando um pouco mais de fôlego, é a recuperação do crédito da pessoa física. A foto não é tão legal, mas estamos deixando os piores momentos para trás”, diz Marco Caruso, economista-chefe do PicPay. Ele acaba de elevar sua projeção para o PIB em 2024 de 1,3% para 1,8%, destacando, entre outras coisas, a força do consumo.

A nova regra para o salário mínimo, que não tem prazo de validade, como chegou a ocorrer em governos petistas passados, também levou o Santander a aumentar sua projeção para a evolução da massa de renda estrutural – isto é, a partir de 2026 – de 1,4% para 2%.

Se, por um lado, a regra traz um viés altista para as projeções de PIB do Santander, por outro também reforça o cenário do banco de uma inflação mais perto de 4% no longo prazo, dada a relação entre esses preços e os salários, aponta Ítalo Franca, economista do Santander e coautor do estudo. Deve surgir também, segundo ele, alguma pressão sobre o Custo Unitário do Trabalho (CUT), que relaciona salários reais médios e a produtividade da economia.

 “Vai ter mais massa, provavelmente, vai ter mais impulso ao consumo. Nossas projeções de PIB têm viés de alta. Por outro lado, podemos ter um pouco mais de inflação e mais despesas”, diz Franca, citando como exemplo pressões sobre os benefícios da Previdência.

Fernando Montero, economista-chefe da Tullet Prebon, tem chamado atenção há um tempo não só para o crescimento da massa de rendimentos do trabalho, captada pelo IBGE, mas também dos agregados mais amplos de renda das famílias do Banco Central.

A despeito dos fortes crescimento interanuais, a fatia da renda do trabalho no PIB não voltou inteiramente ao pré-pandemia, observa. Os rendimentos escalaram, mas o PIB também, aponta Montero. Uma maior normalização da participação dos rendimentos, após relevantes perdas com a crise sanitária, passa, segundo ele, por inflação de rendimentos e preços intensivos em trabalho, durante um tempo, acima dos índices gerais e da produtividade.

Por quanto tempo o mercado de trabalho conseguirá permanecer forte sem alimentar a inflação é um enigma, reconhece o Santander. Estímulos do lado da demanda poderão ajudar a criar uma tendência positiva para o PIB no curto prazo, mas, a médio prazo, é o avanço em uma agenda de produtividade que poderá gerar um crescimento mais sustentável sem pressões inflacionárias, apontam os economistas do banco.

 “Dados recentes até mostraram um aumento da produtividade, mas extrapolar isso para o longo prazo ainda parece um pouco difícil”, afirma Franca.

Fonte: Valor Econômico
No Comments

Sorry, the comment form is closed at this time.