Pandemia acelera saída de idosos do mercado

Pandemia acelera saída de idosos do mercado

Publicado em 14 de abril de 2023

Pandemia acelera saída de trabalhadores de 60 anos ou mais do mercado de trabalho.

O choque da covid-19 acelerou a retirada dos brasileiros de 60 anos ou mais do mercado de trabalho. Esse movimento, contudo, ocorreu de forma assimétrica. A saída dos mais velhos se deu com mais força no mercado formal – impulsionada por alta de aposentadorias -, enquanto a de trabalhadores do mercado informal foi mais limitada. Segundo economistas, contribuíram para essa diferença condições de renda e estrutura.

Para além da preocupação com a pandemia, a saída dos idosos da força de trabalho foi influenciada também pelo próprio envelhecimento da população – já que o crescimento anual dos brasileiros acima dos 60 anos (cerca de 4%) supera o da média geral (0,7%) – e o aumento das transferências de renda, tanto em valor quanto em contingente atingido, no caso dos trabalhadores de menor renda, segundo especialistas.

O movimento não é exclusivo do Brasil. Em países como os Estados Unidos, aparece com maior ênfase, enquanto na Europa é menor. O que se constata é que a saída desse grupo foi maior onde a resposta à pandemia se mostrou menos eficaz.

O choque sanitário, afirma Bruno Imaizumi, economista da LCA Consultores, acelerou a saída dos mais velhos do mercado por questões de saúde.

Vimos movimento de aposentadorias precoces em EUA, Europa e América Latina, por medo de contaminação”

“Vimos [um movimento] de aposentadorias precoces no mercado de trabalho nos EUA, na Europa e em países da América Latina como o Brasil”, afirma o economista. “Isso está ligado ao medo de contaminação e ao fato de a doença ser mais severa em idosos. Então foi um fato de precaução em relação à covid-19”, afirma ele, que compara o aumento das aposentadorias causado pela pandemia com o repique ocorrido na época da reforma da Previdência, em 2019.

Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego, reunidos pela LCA, mostram que o número de desligamentos de trabalhadores celetistas por aposentadorias pulou de 6.623 em 2019 para 13.388 em 2020, e 21.337 em 2021. No ano de 2022, diminuíram para 12.127.

Considerando apenas o primeiro bimestre de cada ano, observa-se que as aposentadorias no mercado formal somaram 1.303 em 2019, 2.767 em 2020, 3.221 em 2022 e 3.249 em 2023.

Países que geriram melhor a pandemia e contam com infraestrutura melhor viram impacto menos negativo no mercado de trabalho, segundo Imaizumi.

“Aqueles que tinham mais condições e permitiram o trabalho remoto também tiveram melhor desempenho em relação à taxa de participação”, diz.

Ainda que o movimento venha perdendo força, segundo o economista, ainda é possível observar a saída dos mais velhos do mercado como fator que limita a taxa de participação – a razão entre a população economicamente ativa (PEA) sobre a população em idade ativa (PIA) – desse grupo no mercado formal.

Na avaliação do diretor do escritório da Organização Internacional do Trabalho (OIT) no Brasil, Vinicius Pinheiro, a pandemia afetou tanto as pessoas de mais idade que ainda estavam dispostas a trabalhar por mais tempo quanto as que estavam prestes a se aposentar e aceleraram a aposentadoria para evitar riscos de contágio e morte.

“Entre os fatores que levaram a um maior impacto da pandemia sobre trabalhadores e trabalhadoras com maior idade estão maior vulnerabilidade de saúde e maiores riscos de contrair formas graves da doença, mesmo com a utilização de equipamento de proteção individual e o aumento da cobertura vacinal, além da menor familiaridade com ferramentas tecnológicas e digitais, que dificultou a possibilidade de trabalho remoto para esse grupo”, diz Pinheiro.

Outro fator apontado por ele é que, quando o vínculo de emprego é rompido, é maior a dificuldade de reinserção laboral no caso dos idosos. Neste caso, a antecipação da aposentadoria aparece como alternativa.

Dentre as consequências, Pinheiro argumenta, estão a perda de mão-de-obra que desempenha funções que exigem maior experiência e conhecimento adquirido de trabalho.

“Para pequenas empresas e empresas que oferecem serviços mais especializados, isso pode significar perda de produtividade, pois é mais difícil substituir o conhecimento tácito de uma pessoa com mais idade, adquirido ao longo de anos de experiência profissional”, diz.

A enfermeira e pedagoga Débora Maria Alves Estrela é um desses casos. Com 63 anos, ficou desempregada em agosto de 2021, quando trabalhava como diretora de um curso técnico de enfermagem em um hospital de São Paulo, mesmo depois de já ter se aposentado.

Isso pode significar produtividade menor, pois é mais difícil substituir o conhecimento tácito”

Ela tem mestrado em ciências e educação e especialização em administração de serviços de saúde e administração hospitalar e em metodologias ativas de ensino e mais de 20 anos de experiência em escolas de enfermagem.

“Tenho um enorme conhecimento técnico e a sensação é que eu poderia contribuir mais para a sociedade. Procurei muito trabalho, mas desisti porque não consigo oportunidades”, afirma.

O desempenho do mercado formal difere de dados mais amplos que englobam os setores formal e informal. Indicadores da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) Contínua trimestral, compilados pela XP, mostram que a taxa de participação dos que possuem 60 anos ou mais era de 24% no 4º trimestre de 2019, chegou a atingir 19,5% no 3º trimestre de 2020, mas ainda se mantém abaixo do pré-pandemia, com 23,4% no 4º trimestre de 2020.

A diferença de 0,6 ponto percentual é igual à do grupo de 40 a 59 anos, mas menor do que a das populações de 14 a 24 anos (-1,2 ponto percentual), de 18 a 24 anos (-1,1) e de 25 a 39 anos (-1,3). Na força de trabalho, que engloba empregados e desempregados, houve aumento de 614 mil pessoas com 60 anos de idade ou mais. Quando se olham apenas os números referentes a população ocupada, constata-se aumento de 651 mil pessoas.

As cifras indicam dois mundos impactados de maneiras distintas pela covid-19, segundo Rodolfo Margato, economista da XP. Enquanto os microdados da Pnad, que englobam o setor formal e o informal, mostram leve variação, os números do Caged apresentam aumento considerável das aposentadorias de trabalhadores com carteira assinada.

“Há uma diferença importante entre o setor formal e informal. Creio que a redução de renda das famílias com a crise fez muitos idosos voltarem ao mercado no setor informal”, diz Margato. “Há dois universos. Um em que a covid-19 cataliza a aposentadoria do lado formal. E outro que, dada a condição de renda e necessidade de idosos tendo de contribuir perante a crise, quem não estava procurando emprego, voltou a fazê-lo”.

Uma outra forma de olhar o fenômeno é para o contingente que está fora da força de trabalho, ou seja, não está nem empregado nem em busca de trabalho.

Eram 25,157 milhões de pessoas com 60 anos ou mais neste grupo no 4º trimestre de 2022, ainda acima do nível do 4º trimestre de 2019, quando era 22,352 milhões. A diferença é de 2,805 milhões de pessoas.

O economista da Tendências Consultoria Lucas Assis acredita numa sobreposição de efeitos para explicar esse movimento. O fato de os idosos terem sido o grupo etário mais afetado pela covid-19 pode ter contribuído para sua saída do mercado, concorda ele, mas há outros dois fatores: o envelhecimento da população e o aumento das transferências de renda.

“Com o envelhecimento da população, há mais gente em idade de aposentadoria. E os números do INSS indicam aumento forte nos últimos. Depois de um período de represamento, o governo se empenhou em reduzir a fila de concessão de benefícios durante a corrida eleitoral”, diz Assis.

Além disso, a mudança no volume de recursos e no contingente de pessoas beneficiadas pelas transferências de renda iniciada na pandemia e depois reforçada em 2022 – com aumento de valor para R$ 600 e inclusão de mais famílias.

“Dentro de uma família, no momento em que a renda aumenta com a ajuda de um benefício, a primeira pessoa a deixar a busca por trabalho costuma ser a pessoa mais velha”, argumenta o economista da Tendências.

Levantamento “Panorama sobre a proteção social na América Latina e no Caribe”, publicado pela OIT no fim do ano passado mostra que, dentre as pessoas maiores de 65 anos de idade na América Latina, 34,5% não possuem qualquer tipo de renda do trabalho ou pensões.

Essa situação de vulnerabilidade e insegurança foi agravada pela impacto da pandemia. Esse percentual passou de 31,9% em 2019 para 34,6% em 2020 e 34,5% em 2021. Trata-se da maior proporção desde 2012.

O levantamento mostra ainda que 46,8% das pessoas maiores de 65 anos recebem apenas uma pensão, 5,1% recebem renda do trabalho e uma pensão, e 13,6% declaram apenas renda do trabalho. No total, 51,9 % recebem uma pensão.

Diferentemente do Brasil, nos EUA, trabalhadores mais velhos foram afetados de forma desproporcional pela pandemia, segundo Pinheiro.

Na Europa, houve menor impacto da pandemia sobre o emprego de idosos. As taxas de participação continuaram altas, em parte por esquemas de retenção do emprego.

“Ao contrário dos EUA, as empresas na Europa não demitiram, mas davam férias coletivas, reduziram a carga horária ou simplesmente mantiveram os empregados na folha, mesmo quem não tinha condições de trabalhar remotamente, graças aos subsídios governamentais”, diz Pinheiro.

Fonte: Valor Econômico
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