Pandemia intensifica desemprego de longa duração no país

Pandemia intensifica desemprego de longa duração no país

Publicado em 8 de setembro de 2021

Parcela de desempregados de longo prazo no país passa de 30,6% para 41,2% na pandemia.

Seis milhões de desempregados no país estão sem trabalho há mais de um ano. Desses, são 3,8 milhões buscando vaga por mais de dois anos. Na pandemia, avançou a parcela dos que estão sem trabalho há muito tempo no Brasil, o chamado desemprego de longa duração. A proporção dos que procuram ocupação há mais de dois anos subiu de 23,9% no primeiro trimestre de 2020 para 26,1% no segundo trimestre de 2021. O aumento foi ainda maior no grupo que está desempregado por um período entre um e dois anos: passou de 6,7% para 15,1%, considerando a mesma base de comparação.

Juntos, os dois grupos reúnem 41,2% dos 14,4 milhões de desempregados brasileiros do segundo trimestre de 2021. No início de 2020, eram 30,6% do total dos trabalhadores sem ocupação no país. Os números são de estudo feito com exclusividade para o Valor pela consultoria IDados, a partir da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

“O que se vê é um aumento da parcela dos que estão desempregados há muito tempo. E quanto mais tempo no desemprego, é mais tempo sem renda e mais prejuízos para a família. Além disso, fica cada vez mais difícil voltar ao mercado”, afirma o professor da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e pesquisador do IDados, Bruno Ottoni.

Quanto mais tempo fora do mercado de trabalho, maior é o risco de perda de habilidades e desatualização dos profissionais, o que acaba gerando uma desigualdade entre os que buscam trabalho, de acordo com os prazos do desemprego, segundo Ottoni. “Em um momento de reação da economia, os empregadores tendem a dar preferência a quem está há menos tempo fora do mercado. Os desempregados de longa duração são os últimos da fila a serem empregados quando a economia reage”, diz ele.

Ao mesmo tempo em que reflete a piora do mercado de trabalho, o desemprego de longo prazo também prejudica o crescimento de longo prazo, aponta o economista da Tendências Consultoria Lucas Assis.

“A perda de capital humano causada por trabalhadores que ficam desempregados por tempo muito longo pode reduzir o potencial de crescimento da economia no médio e longo prazo. Esses trabalhadores desaprendem tarefas, desatualizam-se em relação a novas práticas e têm dificuldade em ser tão produtivos quanto antes”, afirma ele, citando os efeitos desse desemprego de longo prazo entre os jovens, que tradicionalmente já têm mais dificuldades de se inserir no mercado por causa da falta de experiência.

Pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit) e professor do Instituto de Economia da Unicamp, Denis Maracci Gimenez cita também a ampliação das chamadas descontinuidades ocupacionais – quando o trabalhador muda de atividade – e também um efeito de desorganização da força de trabalho.

“É o fenômeno da ‘viração’, o sujeito se vira porque precisa de renda. Faz trabalho de pintor de manhã e de segurança à noite, por exemplo. Historicamente, há no país uma estratégia de sobrevivência, que se exacerba com o avanço dessa parcela de desempregados há mais tempo”, aponta.

Mais do que um fenômeno provocado pela pandemia, o desemprego de longa duração foi intensificado por ela, afirmam economistas. A crise atual atingiu o mercado de trabalho antes que tivesse se recuperado da anterior, de 2015/2016. Mesmo com a volta do crescimento econômico, o ritmo foi insuficiente para melhora consistente e o mercado se manteve com taxa de desemprego elevada e parcela grande de informais entre os ocupados.

“O desemprego de longo prazo sempre tem a ver com o prolongamento de crises econômicas, e não com questões conjunturais de curto prazo. A partir de 2017, o mercado voltou a gerar vagas, mas insuficientes para reduzir de maneira significativa a taxa de desemprego e com um padrão de emprego de baixa performance, muito precário”, explica Gimenez.

Entre os desempregados de longo prazo no país, está Luiz Carlos da Silva Caldas, de 52 anos, que trabalhou por 12 anos na Rolls-Royce, sendo os últimos cinco como diretor financeiro. Foi demitido em janeiro de 2020, após a transferência de operações da Rolls-Royce para outras empresas, e desde então não conseguiu se recolocar. Com formação em contabilidade e MBA em gestão de negócios, ele tem feito busca ativa de vagas, fala periodicamente com seus contatos, fez algumas consultorias e já participou de alguns processos seletivos, mas ainda sem sucesso.

“Sempre fui organizado financeiramente e também recebi um pacote de recursos na saída da empresa. Mas a maior dificuldade é a ansiedade. É preciso administrar a ansiedade para fazer contato com as pessoas da minha rede e com os headhunters e não ser chato”, afirma ele, que diz ter percebido alguma movimentação de vagas mais recentemente, embora ainda restrita ao nível técnico.

A falta de oportunidades, mas também as remunerações muito baixas são apontadas por Rose Fontes, gerente de recursos humanos de 58 anos e em busca de trabalho desde julho de 2020, como obstáculos para sua reinserção no mercado.

“As empresas estão aproveitando para oferecer remunerações muito mais baixas. Vejo vagas que exigem experiência de gerente sênior, mas que oferecem salário de analista. Os salários são muito abaixo da qualificação exigida. Posso negociar em cima do que ganhava, mas é preciso um salário digno”, conta ela, citando, ainda, algum preconceito do mercado com profissionais mais velhos: “Só esquecem qualidades importantes como resiliência, experiência e inteligência emocional.”

No caso do biólogo Paulo Viana, de 37 anos, é cada vez maior a angústia desde que foi demitido de seu último emprego formal, em julho de 2019. Ele trabalhava numa consultoria ambiental, mas não recebeu muito na rescisão porque tinha usado os recursos do FGTS para financiar sua casa. “Trabalhei de 2005 a 2019 sem nunca ter ficado desempregado”, conta.

Como os recursos não duraram muito, poucos meses depois começou a trabalhar como motorista de aplicativo de transportes, já que não conseguia trabalho na sua área de formação. Além disso, tem feito outros bicos como entregador de e-commerce, cobrador de empresa de seguros e até pizzaiolo e conseguiu diárias eventuais na área de licenciamento ambiental. Mesmo com muitas horas de trabalho, no momento o que ganha não é o suficiente para manter o pagamento da prestação do crédito imobiliário e ao mesmo tempo os gastos básicos com a mulher e o filho, de 11 anos.

“É muito angustiante precisar da ajuda da família e dos amigos”, conta ele, que está fazendo um curso de tecnólogo por acreditar mais no potencial de vagas na área de tecnologia da informação.

Fonte: Valor Econômico
No Comments

Sorry, the comment form is closed at this time.