03 nov Pandemia promove “qualificação forçada” do mercado de trabalho
Pandemia promove “qualificação forçada” do mercado de trabalho
Trabalhadores de menor escolaridade são mais afetados pela falta de ocupação, mas expectativa é de volta à situação anterior, prevê FGV Ibre.
Ao afetar mais os trabalhadores menos qualificados, a pandemia acelerou um processo no Brasil que se estende, ao menos, pelos últimos sete anos: a melhoria educacional da população ocupada. Com a reabertura de quase todas as atividades e passado esse “efeito-composição”, a perspectiva, porém, é que o país retorne à tendência de avanços graduais, com desafios, talvez, ainda maiores, dados os impactos da crise sanitária sobre o sistema educacional. As observações foram feitas pelo Instituto Brasileiro de Economia (FGV Ibre) ao Valor, e os pesquisadores da instituição alertam: sem educação, uma gama de ocupações e oportunidades são praticamente vetadas a milhões de brasileiros.
Dados da Pnad Contínua do IBGE analisados pelo FGV Ibre mostram que, da população ocupada no segundo trimestre de 2012, 50,8% não tinham ensino médio completo, 34,8% tinham esse grau de instrução e 14,3% finalizaram o ensino superior. Em 2019, a parcela com educação inferior ao ensino médio havia caído para 39,8%, o grupo que concluiu esse nível avançou para 39,6% e os com superior completo foram a 20,6%.

Esses movimentos aprofundaram-se na pandemia. A participação dos profissionais sem ensino médio completo na população ocupada recuou para 35,8% no segundo trimestre de 2021, a parcela com ensino médio subiu para 40,3% e aqueles com superior completo chegaram a 23,9%.
“Essa diminuição de quem tem menos do que o ensino médio completo na população ocupada poderia ser porque a sociedade brasileira se desenvolveu e as pessoas estão mais educadas. Isso seria uma notícia fantástica, mas o processo não se deu dessa forma”, adianta Luiz Guilherme Schymura, diretor do FGV Ibre.
O aumento dos trabalhadores mais qualificados entre 2019 e 2021 “não significa que 2 ou 3 milhões de pessoas a mais pegaram superior completo”, diz o pesquisador Fernando de Holanda Barbosa Filho. “É que, na verdade, quatro milhões de pessoas ali da parte de baixo da educação saíram da força de trabalho. Já entre 2012 e 2019, foi um processo gradual de aumento da escolaridade no país que provocou essa mudança”, compara.
Janaína Feijó, também pesquisadora do instituto, observa que, entre o segundo trimestre de 2019 e o de 2020, a população ocupada no Brasil diminuiu em quase 10 milhões de pessoas, sendo que cerca de 7 milhões não tinham ensino médio completo.
Uma vez que a economia retorne à normalidade, sobretudo com o setor de serviços retomando o ritmo de contratações, diz Barbosa, grande parte do aparente “ganho” educacional no mercado de trabalho entre 2019 e 2021 deve ser devolvido. “É um processo lento. A pandemia bagunça um pouco as coisas, acelerando de forma que não parece sustentável ao longo do tempo. A tendência é que a maior escolaridade da força de trabalho brasileira faça essa transição de forma suave”, diz.
Para Fernando Veloso, pesquisador do FGV Ibre e um dos coordenadores do Observatório da Produtividade do instituto, o Brasil está “bem distante” de ver “a transformação completa” rumo a uma população ocupada mais qualificada, o que também impacta a produtividade do país.
Os pesquisadores do FGV Ibre avaliaram, por vários recortes, o comportamento de ocupações da Pnad Contínua agregadas em dez grandes grupos. Eles observaram que um contingente relevante de trabalhadores brasileiros ainda realiza funções consideradas mais simples, de baixa complexidade e que tendem a remunerar mal.
No segundo trimestre de 2021, 44 milhões de pessoas – pouco mais da metade dos 87,7 milhões de ocupados no país – trabalhavam em postos de serviços e comércio (18,2 milhões), ocupações elementares (14,2 milhões), como trabalhadores domésticos e coletores de lixo, ou eram operários e artesãos (11,6 milhões), na construção, por exemplo.
Veloso observa que a participação de grupos de profissionais das ciências e intelectuais e de diretores e gerentes só aparece de forma expressiva para aqueles com ensino superior completo.
Entre trabalhadores que não terminaram o ensino médio, técnicos representavam 1,3% dos ocupados em 2021, diretores e gerentes somavam 1,1%, e profissionais das ciências e intelectuais nem isso, apenas 0,4%. Cerca de 70% estavam em ocupações elementares, serviços e comércio ou eram operários/artesãos. Na outra ponta, quase metade (49,6%) dos ocupados com ensino superior completo atuavam como profissionais das ciências e intelectuais.
Para aqueles com ensino médio completo, técnicos já eram 12,7% e outras opções ocupacionais começam a ganhar relevância, como profissionais de apoio administrativo (12,3%). A concentração, porém, ainda é grande em serviços e comércio (27,6%), enquanto diretores e gerentes eram apenas 3,3%, e trabalhadores das ciências e intelectuais, 2,7%. “A gente está migrando para esse meio, que é de quem tem médio completo. É por isso que vemos tanta gente no setor de serviços”, afirma Veloso.
Para os pesquisadores, os números mostram que o grau educacional dos indivíduos quase pré-determina as ocupações que eles poderão acessar e, consequentemente, seus salários. “A falta de escolaridade adequada praticamente elimina a possibilidade de ascensão profissional para milhões de trabalhadores”, diz Veloso.
Isso se reflete também em diferenças salariais expressivas entre os grupos. A remuneração média dos profissionais das ciências e intelectuais, de R$ 5.512, é mais de cinco vezes a de ocupações elementares (R$ 1.086). “Quem tem os menores níveis salariais tende a estar alocado nessas ocupações de baixa complexidade”, diz Feijó.
E o grau de educação não afeta só as ocupações que estarão acessíveis, mas, dentro de cada grupo, também cria heterogeneidades: quem tem mais anos de estudo consegue salários maiores. No grupo de serviços e vendedores do comércio, trabalhadores com ensino inferior ao médio completo ganham menos da metade (R$ 1.372) do que aqueles com ensino superior completo (R$ 3.009).
Embora os trabalhadores informais como um todo tendam a estar mais concentrados nos grupos de remuneração mais baixa, aqueles que possuem níveis educacionais maiores até conseguem encontrar ocupações melhores. Seu peso, no entanto, é pequeno: só 5,5% da população ocupada está no setor informal e tem ensino superior completo, contra participação de 18,5% para esse nível educacional com vínculo formal.
“Mas a educação continua abrindo portas de ocupações, mesmo no informal”, reforça Veloso. A remuneração dos informais, porém, permanece, em média, inferior à de seus pares no setor formal. Um diretor ou gerente com ensino superior empregado no setor informal tem salário de R$ 7.556, ante R$ 8.326 de trabalhador com igual ocupação e nível de educação, mas do setor formal. “Ou seja, a educação não é tudo”, diz Veloso.
“Não adianta fazer todos esses avanços e ter essa macroeconomia realmente desorganizada. Minha preocupação é com emprego e renda, inflação extremamente alta. Devemos ficar um período, pelo menos até o ano que vem, com baixo crescimento”, observa Silvia Matos, coordenadora técnica do Boletim Macro do FGV Ibre, indicando que o crescimento potencial do Brasil não passa muito de 1%.
Sem essas melhorias, ainda que graduais, na educação nos últimos sete anos, porém, a situação seria “muito pior” para o mercado de trabalho, indica Veloso. “Educação não é tudo, mas é bastante coisa.”
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