01 dez Para OIT, salário real caiu mais no Brasil
Para OIT, salário real caiu mais no Brasil
Entidade vê ‘queda drástica’ de salários devido a inflação e deterioração da economia no mundo e situação pior no país.
A Organização Internacional do Trabalho (OIT) alertou nesta quarta-feira que a alta inflação combinada com a desaceleração econômica estão provocando uma “queda drástica” dos salários reais no mundo e apontou o Brasil como exemplo dessa situação, que derruba o padrão de vida e eleva o endividamento das famílias.
Em relatório com evidências mais recentes sobre como as múltiplas crises continuam a afetar cerca de 1,7 bilhão de assalariados no mundo, a OIT constata que os salários reais (descontada a inflação) caíram 0,9% globalmente no primeiro semestre. É a primeira vez desde o início do século que os salários globais tiveram variação negativa em vez de positiva.
No Brasil, a erosão salarial foi bem superior, de -6,9% entre janeiro e junho, segundo dados coletados pela OIT. Isso após o país já ter registrado contração salarial de 7,0% em 2021 e de 4,9% em 2020.
Significa que no Brasil a massa salarial total diminuiu em 18,8% durante 2020-22 (até os dois primeiros trimestres) em comparação com 2019. Desde 2006, os salários tinham sofrido declínio real no Brasil em apenas dois anos (-1,3% em 2015 e -2,0% em 2016). Com a pandemia de covid, a situação voltou a se deteriorar.
“Em 2022, a inflação é o fator negativo dominante na maioria países”, diz a OIT. “Em nenhum outro lugar isso é mais visível do que no Brasil, onde a contribuição da inflação para a redução do total da conta salarial real no primeiro trimestre de 2022 relativo ao primeiro trimestre de 2019 foi de 18,2%.”
Ao Valor a economista Rosalia Vazquez-Alvarez, uma das autoras do relatório, estimou que os salários podem 2023 “continuar a diminuir em termos reais em países como o Brasil, bem como no resto da América Latina”. Isso depende muito do contexto econômico e de como a inflação evolui.
“O que dizemos é que deve haver algum espaço para que os salários aumentem e pedimos que o diálogo social e a negociação coletiva sejam os instrumentos através dos quais talvez sejam ajustados”, disse ela.
A queda salarial real no Brasil ainda é bem inferior à de vizinhos como Peru (-38,8% em 2020-21) e Colômbia (-32,4%), mas acima da Argentina (-14%, também sem levar em conta os dados de 2022). O México registrou alta real de 4,2%, assim como países como Suíça, Tailândia, Portugal e Reino Unido.
A estimativa é que no Brasil os grupos de renda mais baixa perderam quase 23% do salário em relação a 2019, comparado à queda de 3% a 8% nos grupos mais bem pagos.
No Brasil e em Portugal, os grupos mais mal pagos recebem ganhos nominais de 14,1% e 2,7%, respectivamente, em 2022, abaixo da média estimada em 2019, enquanto o grupo mais bem pago recebe ganhos nominais de 4,4% e 2,7% respectivamente maior do que as médias de 2019. Na maioria dos outros países, os mais mal pagos recuperaram o valor nominal dos ganhos, mas a uma taxa mais baixa que os de melhores salários.
Entre os países com queda salarial, exceto em dois – Brasil e Indonésia – a perda salarial foi maior entre os homens, enquanto em países com um ganho, o aumento foi maior entre as mulheres. No Brasil, a perda salarial entre 2020-2022 comparado a 2019 foi de 15,4% para os homens e de 16,8% no caso das mulheres.
“As múltiplas crises mundiais às quais somos confrontados derrubam os salários reais e colocam milhões de trabalhadores numa situação desastrosa, face a incertezas crescentes”, disse em comunicado o diretor-geral da OIT, Gilbert Houngbo.
“A desigualdade de renda e a pobreza aumentarão se o poder se compra dos salários mais baixo não for mantido. A retomada pós-pandemia, tão necessária, poderia estar em risco. Isso pode alimentar novas turbulências sociais através do mundo e comprometer o objetivo de se atingir prosperidade e paz para todos.”
O relatório mostra que no primeiro semestre deste ano a inflação avançou proporcionalmente mais rapidamente nos países de renda elevada dos que nas nações de renda fraca ou intermediária. A OIT propõe medidas para as famílias poderem manter o nível de vida, como ajuste de salário mínimo, ou redução de imposto indireto sobre certos produtos.
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