18 dez Pisa mostra ‘fosso’ na formação de mão de obra no país
Pisa mostra ‘fosso’ na formação de mão de obra no país
Baixo desempenho de estudantes do Brasil obriga empresas a investir mais em qualificação e reforça a necessidade de melhora do ensino médio.
A estagnação de quase 15 anos do Brasil no Pisa, avaliação internacional da educação básica realizada pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), evidencia o fosso que separa a maioria dos jovens brasileiros dos melhores empregos e salários. Representa, ainda, um desafio crescente para as empresas, que vão enfrentar mais dificuldades para ganhar produtividade, recrutar mão de obra e, consequentemente, terão que investir mais em qualificação profissional.
Neste cenário, o aperfeiçoamento do ensino médio, sobretudo com a expansão da oferta de formação técnica, é visto como a “ponte” mais imediata entre as últimas posições na prova global e o futuro do trabalho em um mundo mais tecnológico e competitivo.
Divulgado no último dia 5, o Pisa mostrou o Brasil na 64ª posição em matemática, com 93 pontos a menos do que a média da OCDE – grupo das economias mais desenvolvidas do planeta. Em ciências, o país ficou na 61ª posição, 82 pontos abaixo da média. O melhor desempenho foi registrado em leitura, 52º lugar e nota 66 pontos menor do que os estudantes de 15 e 16 anos dos países da OCDE.
O fato de não integrar a organização e de ser uma economia emergente não explica, sozinho, o déficit no desempenho dos alunos brasileiros. O Vietnã, por exemplo, obteve 469 pontos em matemática, nota que está na média das nações ricas. As dificuldades demonstradas pelos estudantes nesta disciplina podem representar carências profissionais importantes no futuro, mesmo para as atividades consideradas mais simples.
“Quando o exame demonstra 73% dos jovens sem as competências mínimas em matemática, na prática isso significa que eles não conseguiriam comparar duas rotas para escolher a melhor, a mais rápida. Imagine isso em uma atividade no setor de transportes. Quando vemos a dificuldade de converter preço em outras moedas, imagine isso no comércio”, projeta Daiane Zanon, gerente de Dados, Avaliação e Monitoramento do Instituto Ayrton Senna.
Para Ana Inoue, superintendente do Itaú Educação e Trabalho, a estagnação do Brasil no Pisa traz um alerta importante em relação à qualidade da formação dos alunos que saem da educação básica e chegam ao ensino médio, um período em que os jovens refletem mais sobre o mundo do trabalho e tomam decisões sobre o seu desenvolvimento profissional.
“Os indicadores de desempenho mostram que os estudantes estão chegando ao ensino médio defasados em currículos básicos, como matemática, leitura ou ciências, o que compromete a continuidade da vida escolar. O principal alerta é esse e, neste sentido, a articulação com a educação profissional e tecnológica torna-se cada vez mais importante nesta etapa de ensino para apoiar o desenvolvimento dos jovens em sua formação profissional para que sejam capazes de atuar nas mais diversas áreas profissionais”, disse Inoue.
“Se você não investe em capital humano, a produtividade está impactada”
Neste cenário, as empresas se veem cada vez mais impelidas a investir para complementar a capacitação dos jovens que chegam. Consultor em futuro do trabalho, o economista Airam Corrêa cita a “economia de stakeholders” como uma inspiração para que o setor privado aposte ainda mais na formação. O conceito sugere que as empresas busquem a criação de valor a longo prazo considerando as necessidades de todos os públicos relacionados ao negócio.
“As empresas podem ter universidades, escolas, disponíveis para municípios inteiros, por exemplo. Na Alemanha existem grandes formações para populações inteiras, abertas, como a Universidade Bosch. As empresas poderiam escutar esses convites das economias de stakeholders”, sugere Corrêa. Para ele, apesar de ser ator importante, o setor privado não é suficiente.
Ciente de que a atual estrutura do ensino médio não é capaz de preparar os jovens para o mercado, o governo federal assumiu o compromisso de retomar a expansão da rede de institutos federais. A meta é aumentar o percentual de estudantes de ensino médio com formação técnica, hoje em 11%. A média da OCDE é de 37%.
Em um primeiro momento, o governo incrementou R$ 690 milhões no Orçamento deste ano por meio da PEC da Transição. A nova versão do PAC prevê a construção de cem novos campi, que vão custar R$ 2,9 bilhões e abrirão 140 mil vagas. O Ministério da Educação autorizou ainda a contratação de 1.383 professores para os institutos federais, que vão permitir cerca de 27 mil novas matrículas. Também estão no Novo PAC investimentos de R$ 1 bilhão em melhorias das instalações existentes.
A inserção dos jovens no mercado de trabalho não depende apenas de formação. Outro desafio é a criação de demanda, lembra Rogério da Veiga, secretário-adjunto de Articulação e Monitoramento de Políticas Públicas da Casa Civil. Ele está à frente do Qualifica PAC, programa de capacitação profissional que promete conectar o estoque de trabalhadores às necessidades de mão de obra do programa.
Recentemente, o Ministério de Minas e Energia projetou uma demanda de 5 mil eletricistas para projetos de construção de novas linhas de transmissão de energia elétrica. A missão do Qualifica PAC é saber onde estão esses profissionais, checar suas habilidades e, se necessário, oferecer capacitação para demandas específicas, no caso a operação de subestações.
“Temos o desafio de gerar mais resultados com os investimentos atuais. O esforço do programa é alocar o máximo de pessoas nas áreas em que elas têm formação e também prover uma qualificação rápida para atendimento de demandas específicas”, explicou Veiga. “Precisamos saber onde está esse profissional, se está atuando em sua área de formação ou se está dirigindo Uber ”, completou.
Se, por um lado, o enorme contingente de pessoas trabalhando por meio de aplicativos de transporte ou delivery denuncia a falta de oportunidades em áreas mais bem remuneradas, por outro revela o caminho sem volta da economia digital. A rápida mudança no rol de habilidades exigidas pelo mercado de trabalho torna ainda mais complexo o desafio de preparar os jovens para o futuro.
“Se você pensar em um mercado de trabalho que está se transformando, na questão da automação, que você vai ter maior demanda de empregos com proficiência em tecnologia, vai perceber que esses jovens estão muito aquém de ter essa qualificação”, diz Zanon, do Instituto Ayrton Senna. “Se falarmos em habilidades socioemocionais e habilidades cognitivas para resolução de problemas complexos, o Brasil pode ter desafios de trabalhar nesse contexto.”
O MEC está oferecendo formação em algumas áreas que prometem ser “puxadores de demanda” de trabalhadores nos próximos anos. Já foram anunciados, por exemplo, cursos nas áreas de energias renováveis e de bioeconomia, promissores em um cenário de transição energética. De forma mais ampla, porém, a construção civil ainda deve ser o grande vetor de contratação de trabalhadores, sobretudo na esteira do PAC.
“As oportunidades socioeconômicas criam as oportunidades educacionais. Na maioria dos casos, só entra em banco e em empresas de inovação quem já teve alguma oportunidade socioeconômica”, diz Corrêa, sócio da consultoria Wisnet. “Produtividade é educação e capital humano. Se você não investe em capital humano, nosso item de produtividade está impactado. Isso cria um cenário de prosperidade sequestrada. Não consigo entender por que o Brasil inteiro não está falando disso enquanto vemos nossos jovens com caixote do iFood nas costas.”
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