Piso nacional para farmacêuticos ganha tração na Câmara

Piso nacional para farmacêuticos ganha tração na Câmara

Publicado em 14 de abril de 2026

Presidente de comissão parlamentar assume compromisso para acelerar projeto e articula audiência pública.

A tentativa de instituir um piso salarial nacional para os farmacêuticos ganhou um novo capítulo no Congresso. O presidente da Comissão de Finanças e Tributação da Câmara dos Deputados, Merlong Solano Nogueira, assumiu o compromisso público de pautar o Projeto de Lei 1559/21 para debate e votação no colegiado.

Além da tramitação formal, o deputado também iniciou interlocução com lideranças da categoria. E após se reunir com o Sinfarpi, sindicato que representa os farmacêuticos do estado do Piauí, confirmou a intenção de realizar uma audiência pública para aprofundar o debate e subsidiar a análise técnica da proposta.

Pela proposta, nenhum farmacêutico poderá receber menos que R$ 6.500 mensais. O valor será atualizado pelo INPC referente ao período de tramitação e, após a entrada em vigor da lei, reajustado anualmente pelo mesmo índice. Caso a norma estivesse vigente, o piso corresponderia a cerca de R$ 7,4 mil.

O texto original não incluía os farmacêuticos do SUS. No entanto, durante a tramitação, o PL 1559/21 incorporou outros três projetos – PL 2028/21, PL 3502/21 e PL 799/22 – e recebeu ajustes de relatores das comissões pelas quais passou. A redação atual passa a contemplar profissionais de todas as áreas de atuação e vínculos empregatícios, incluindo a rede pública.

“Esse é um momento histórico. A mobilização da categoria evidencia que, quando estamos unidos, conseguimos avançar em pautas fundamentais para a valorização profissional e para a saúde da população”, declara o presidente do Conselho Federal de FarmáciaWalter Jorge João.

Mapa dos salários revela um Brasil desigual

Se o ambiente político começa a se alinhar, a realidade do mercado de trabalho farmacêutico impõe um obstáculo relevante – a forte heterogeneidade regional dos salários.

Levantamento do Panorama Farmacêuticocom base nas Convenções Coletivas de Trabalho (CCTs) mais recentes mostra que o piso salarial da categoria varia até 84% amplamente entre os estados, tanto em valores quanto em carga horária.

No topo da remuneração está Minas Gerais, com piso de R$ 6.416,23 para jornada de 44 horas semanais. Na sequência aparecem Tocantins (R$ 6.371,85), Bahia (R$ 6.213,24), Distrito Federal (R$ 6.000) e Goiás (R$ 6.047,52), sugerindo que regiões do Centro-Oeste e parte do Norte/Nordeste já operam com níveis salariais mais robustos.

Na outra ponta, a Paraíba registra o menor piso nacional, de R$ 3.465,76 para 40 horas semanais. Também figuram entre os menores valores Rio Grande do Norte (R$ 3.851,54) e Maranhão (R$ 3.922,67). A diferença entre o maior e o menor piso chega a R$ 2.950,47, praticamente o dobro da menor remuneração.

Piso salarial por estado

Estado Piso Salarial (R$) Jornada Semanal CCT
AC Sem CCT disponível
AL 4.944,03 44h CCT 2025/2026
AM 4.743,14 40h CCT 2025/2026
AP Sem CCT disponível
BA 6.213,24 44h CCT 2025/2026
CE 5.616,89 44h CCT 2025/2026
DF 6.000,00 44h Tabela definida pelo Sindifar-DF
ES 4.680,52 44h CCT 2025/2026
GO 6.047,52 44h CCT 2024/2025
MA 3.922,67 44h CCT 2024/2026
MG 5.832,94 44h CCT 2025/2026
MS 4.161,00 44h CCT 2024/2025
PA 4.518,00 220h CCT 2024/2025
PB 3.465,76 40h CCT 2023/2025
PE 5.078,07 40h CCT 2025/2026 (empresas da Abrafarma)
PE 4.670,24 40h CCT 2025/2026 fora da Abrafarma)
PI 5.568,01 44h Piso definido por Lei Estadual nº 7.347/2020
PR 4.483,05 44h CCT 2025/2026
RJ 3.700,00 não informado CCT 2022/2023
RN 3.851,54 44h CCT 2024/2025
RO 4.396,10 44h CCT 2025/2027
RR Sem CCT disponível
RS 4.950,00 não informado CCT 2025/2026
SC 4.600,00 220h CCT 2025/2027
SE 5.151,40 44h CCT 2025/2026
SP 4.722,00 não informado CCT 2025/2027
TO 6.371,85 44h CCT 2025/2026

Fonte: Panorama Farmacêutico a partir de pesquisas da CCT nos sindicatos profissionais e patronais de cada estado

Fragmentação regulatória complica padronização

A disparidade não se limita aos valores. Há também inconsistências na própria organização das convenções coletivas. Estados como Rio de Janeiro operam com acordos desatualizados (última CCT de 2022/2023), enquanto Acre, Amapá e Roraima sequer disponibilizam convenções acessíveis publicamente.

Em paralelo, há casos de segmentação interna. Em Pernambuco, por exemplo, o piso varia de R$ 4.670,24 a R$ 5.078,07, dependendo da atividade. Já o Amazonas adota jornada reduzida (40 horas semanais), mas com remuneração competitiva (R$ 4.743,14).

Entidades do varejo reforçam preocupação com impactos

Associações que representam as farmácias vêm reforçando o alerta sobre os impactos de um piso nacional para o setor. “Uma lei sem considerar o porte das empresas e a realidade econômica do varejo pode gerar efeitos contrários aos desejados, como fechamento de estabelecimentos, redução de postos de trabalho e encarecimento de medicamentos”, adverte Rafael Espinhel, presidente executivo da ABCFARMA.

A Abrafarma partilha do mesmo parecer e ampara-se em estudos da FIA-USP e da FGV-RJ. “O lucro líquido médio das farmácias gira em torno de R$ 2 para cada R$ 100 de faturamento. É uma margem líquida baixa, que pode ser ainda mais comprometida se as variações de cada região não forem respeitadas”, reforça o CEO Sergio Mena Barreto.

Fonte: Panorama Farmacêutico
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