15 abr Por que a percepção das mulheres sobre mercado de trabalho, saúde e segurança é pior que a dos homens?
Por que a percepção das mulheres sobre mercado de trabalho, saúde e segurança é pior que a dos homens?
Preocupação do público feminino com mercado de trabalho é mais intensa que entre os homens, aponta monitoramento online.
A percepção das mulheres sobre o mercado de trabalho é bem mais negativa que a dos homens, mostra pesquisa feita com base em postagens em redes sociais. O nível de contentamento feminino em relação ao salário que ganham é de 10%, enquanto dentre os homens chega a 53%.
O levantamento foi feito pelo Centro de Pesquisas da Ponto MAP, agência de análise de comportamento dos públicos para avaliação da imagem e reputação, durante todo o mês de março. Ele mostra que em plataformas como X, Instagram, Facebook, YouTube e TikTok, as três principais demandas das mulheres brasileiras hoje são: saúde pública de melhor qualidade, mais segurança e equidade salarial e de oportunidades no mercado de trabalho, sintetizadas pela pesquisa no “tripé 3S”.
Para o levantamento foram monitorados 163 influenciadores que somam 58,2 milhões de seguidores, além de 33.485 postagens nas redes sociais de usuários e veículos da grande imprensa, totalizando 207,3 milhões de pessoas.
Na pesquisa, o grau de importância e engajamento é expresso pelo nível de participação, que mostra o quanto um tema foi citado nas postagens, e pelo apoio, que indica se a percepção é positiva ou não.
Um nível de apoio é considerado emergente quando está abaixo de 25%. Entre 25% e 50% é visto como situação de crise em termos de percepção. De 50% a 75% é tido como bom, e de 75% a 100%, como ótimo.
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Dentre os assuntos mais debatidos pelas mulheres estão saúde pública, com 40% de participação e 45% de apoio, segurança, com 30% e 17%, respectivamente, e salário, com 10% em cada um. Aparecem ainda no universo feminino temas como saúde sexual, mental, física e sociedade.
Nas postagens feitas por homens, a segurança é o tema mais debatido (38%), com percepção positiva um pouco superior que no caso das mulheres (22%). A saúde pública vem em segundo lugar (com 34% de exposição e 33% de apoio). A questão salarial vem em terceiro lugar, aparecendo em 9% das postagens e vista de forma positiva por 50%, percentual bastante superior ao do universo feminino. Outros temas mais comentados por homens foram saúde mental, física, sociedade, pesquisa e inovação.
Nas manifestações sobre renda e trabalho, os homens costumam comemorar quando pagam suas dívidas, e as mulheres, reclamar do salário insuficiente e expressar a necessidade de um emprego que remunere mais.
Enquanto o assunto mercado de trabalho aparece em 49,26% das postagens feitas por mulheres e é bem-visto em apenas 13,62%, dentre os homens, o tema aparece em 56,09% das postagens e tem imagem positiva em 49,55%.
Quando se trata de renda, o tema aparece em 39,26% das postagens de mulheres, mas tem apoio de apenas 12,02%. Dentre os homens, o assunto está em 34,46% das postagens e conta com apoio bem maior, de 43,38%.
No universo feminino, 11,48% dos posts falam sobre dívidas, mas o apoio ao tema é zero, um contraste significativo em relação aos homens. Dentre os posts deles, 9,45% falam em dívidas, e o apoio ao tema é bom, chegando a 50,49%.
“Postagens refletem o que poderia ser considerado discriminação em relação às mulheres no mercado de trabalho”
Segundo Giovanna Masullo, CEO do Centro de Pesquisas da Ponto MAP, os números refletem as condições do mercado de trabalho para as mulheres.
“Elas ganham menos que os homens, não têm oportunidades iguais e dificilmente conseguem promoção de carreira”, afirma. “Isso gera maior descontentamento em relação aos homens. A confiança e o apoio das mulheres são mais deteriorados porque não há equidade no mercado profissional.”
Masullo observa também que o fato de saúde aparecer em primeiro lugar na lista de temas mais debatidos por mulheres nas redes reflete o fato de elas se cuidarem mais, serem mais longevas e também pela atribuição a elas de serem responsáveis pelo cuidado da família, dos homens, das crianças.
Masullo afirma que os 3S aparecem desde o ano passado dentre os temas de maior preocupação, mas vêm ganhando força neste início de 2024. “A saúde ganhou tração por causa da dengue, reajustes no plano de saúde e repique da covid-19. Já o tema salário começou a crescer mais em março”, diz.
Em dezembro de 2023, o tema salário aparecia em 0,10% das 68.450 postagens analisadas feitas por mulheres e homens e apresentava apoio nulo. Em março deste ano, o tema começou a crescer e foi visto em 4,36% das postagens, com 15,25% de apoio.
Para Heron do Carmo, professor da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo (FEA-USP), as postagens refletem o que poderia ser considerado discriminação em relação às mulheres no mercado de trabalho.
“Mesmo em carreiras cujo acesso é via concurso, como vemos no setor público, essa discriminação aparece na progressão de carreira. É o mesmo debate sobre ascensão no Judiciário”, afirma Carmo, que lidera o time de economistas da Ponto MAP.
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“Buscamos aqui verificar a compatibilidade entre essas manifestações nas redes sociais com aquilo que os dados mostram. Em muitos casos há uma boa sintonia entre o que se constata nas redes e o que se é observado nesses grandes bancos de dados, como o da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad)”, diz.
Dados da Pnad Contínua de 2022 mostram que as diferenças salariais entre homens e mulheres é mais alta dentre os 10% mais pobres, com homens ganhando o dobro que as mulheres e chega a 44% na metade mais pobre. Quando se analisa a camada 90% mais pobre da população, a diferença salarial chega a 36%.
Os números da Pnad C de 2022 são os últimos disponíveis. A previsão é que os referentes a 2023 sejam divulgados em meados deste ano.
“A pesquisa é interessante porque vai além dos dados, mostrando a percepção de mulheres e homens. As mulheres se preocupam de maneira diferente com os 3S. A falta de segurança, por exemplo, pode inibir a atuação dessa mulher no mercado de trabalho, e ela terá de abrir mão de algumas oportunidades para não ter de pegar ônibus muito cedo ou muito tarde, a depender de onde mora”, afirma a economista Janaína Feijó, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre).
“Por outro lado, o fato de a mulher ser menos confiante no mercado ocorre porque ela compreende que há dificuldade para se inserir. Mesmo sendo mais educadas, em média, as oportunidades não aparecem para ela como para os homens. E, mesmo quando chegam, elas não conseguem progredir na carreira. Isso acabará afetando sua renda média.”
No grupo de pessoas com ensino superior completo no Brasil, os homens somam 11,76 milhões, enquanto as mulheres chegam a 16,24 milhões, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Mas o primeiro relatório de Transparência Salarial do Ministério do Trabalho e Emprego, do mês passado, mostrou que as mulheres em média ganham 19,4% menos que os homens, apesar de representam 58% da força de trabalho ocupada.
“Esses 3S se conectam em algum grau. Por um lado, para essa mulher se inserir e ter bom desempenho no mercado de trabalho, precisa de segurança pública”, diz Feijó. “Por outro, se não se combater a disparidade salarial, sua renda continuará baixa. E isso tornará mais difícil para as mulheres terem um plano de saúde adequado, por exemplo, do que para os homens.”
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