28 jul Por que todo CEO precisa de um coach no pós-pandemia?
Por que todo CEO precisa de um coach no pós-pandemia?
“Lockdowns”, problemas na cadeia de abastecimento, falta de capacitação e inflação alta têm levado muitos executivos a procurarem um aconselhamento profissional.
Liderar uma empresa pode ser um ato solitário, observa o presidente de uma rede varejista britânica que prefere permanecer no anonimato. “Mas isso foi ampliado ainda mais durante a pandemia.”
Para combater o isolamento, ele convocou seu coach de executivos para ajudá-lo a “trabalhar em questões complexas e confidenciais que podem ser difíceis de discutir” com pessoas ligadas à empresa. “Ser desafiado e orientado mensalmente por alguém independente garantiu que eu estivesse bem preparado para responder a questões complexas”. Isso o ajudou a resolver problemas em um “ritmo mais rápido”.
Nos últimos anos, com as empresas lidando com múltiplos choques – “lockdowns”, problemas na cadeia de abastecimento, falta de capacitação e inflação alta -, muitos executivos graduados vêm buscando o apoio de um coach. Magdalena Mook, presidente executiva da International Coaching Federation (ICF), associação global que oferece seu próprio sistema de credenciamento, observa que “a demanda por coaching continou aparecendo”.
Bhushan Sethi, líder global adjunto de pessoas da consultoria PwC nos EUA, vê uma intensificação dessa tendência no curto prazo: “Líderes não possuem cartilhas para o trabalho híbrido, inflação alta. Gestores novos e em formação não trabalharam em uma recessão”.
Sally Bonneywell, coach de CEOs e de membros de conselhos, concorda. “As pessoas estão dizendo que a estagflação chegou para ficar, que a demanda caiu e que muitos líderes nunca enfrentaram uma situação dessa antes. Eles precisam conter sua própria ansiedade e também a de seus subordinados.”
Os coaches atuam como uma caixa de ressonância e ajudam os líderes a priorizar demandas. Um diretor sênior de uma distribuidora de calçados, que enfrenta o fechamento de fábricas no Vietnã e problemas na cadeia de abastecimento, afirma: “Se eu quiser falar sobre finanças, falarei com o diretor financeiro. Se eu quiser dar o meu melhor, falarei com o diretor financeiro. Se eu quiser dar o meu melhor, falarei com o coach”.
Esse também foi o caso de Andrea Lucard, diretor de assuntos corporativos da Medicines for Malaria Venture de Genebra, uma organização sem fins lucrativos. “Foi útil ter um espelho profissional – não um amigo, um sócio, seu chefe ou um colega. Os melhores coaches não são pessoas que lhe dizem o que fazer.”
Lockdowns sucessivos na pandemia aceleraram a demanda pelo coaching on-line em plataformas como o CoachHub, que oferecem o serviço em escala para empregadores e indivíduos. Alguns descrevem o crescimento das plataformas como uma “uberização”, tornando disponível para mais pessoas um serviço que antes era para poucos. A mudança oferece benefícios, como conveniência para os clientes e trabalho para os coaches – mas também causa ansiedade entre os coaches quanto à diluição da qualidade dos serviços e redução das comissões.
O número de coaches deu um salto, segundo a ICF, que viu a quantidade de membros passar de 33.594 em 2019 para 56.076 no fim de junho. Sua última pesquisa (de 2019) estimou a receita global total com coaching em US$ 2,8 bilhões, um crescimento de 21% em relação a 2015, devido ao aumento do número de coaches, enquanto a taxa média dos honorários caiu.
A plataforma de coaching Better Up analisou centenas de milhares de suas próprias sessões, e desde março de 2020 houve um aumento das discussões sobre “gerenciamento de conversas difíceis e conflitos” e “comunicação e colaboração”.
Coaches observam que a pandemia aumentou a demanda por seus serviços à medida que líderes passaram mais tempo trabalhando remotamente, com uma resultante falta de contato humano. Agora eles precisam de ajuda para enfrentar as dificuldades do cenário híbrido. Burak Koyuncu, vice-presidente da consultoria de recrutamento LHH, diz: “O coaching faz as pessoas sentirem que estão conectadas a alguém”.
O coaching pode ajudar os executivos a lidar com as turbulências da pandemia. Suzi Read, diretora de desenvolvimento de talentos, diversidade, igualdade e inclusão da Kindred Group, uma companhia de jogos on-line, diz: “As pessoas fundamentalmente mudaram. Muitas organizações estão subestimando o que as pessoas passaram e que precisam da oportunidade de fazer um balanço, descobrir quais são seus valores e entender as coisas”.
A indefinição das esferas de trabalho e da vida causadas pela pandemia refletiu-se nas sessões com os clientes. Rachel Morris, que atua como coach de executivos graduados e de escalões intermediários, diz que ela vem tendo mais conversas sobre “automutilação e suicídio, que geralmente é o tipo de coisa que você leva para um terapeuta”. Esses problemas estão fora da competência e área de responsabilidade dos coaches, que sugerem buscar a ajuda de um psiquiatra. Mas um coach pode ajudar os clientes a priorizar seu próprio bem-estar. Nick Ceasar, coach-líder do NatWest, diz que os coaches que falam sobre “aptidão mental ou resistência mental” se tornam mais “atraentes para alguém que pode não recorrer a um terapeuta”.
O crescimento do coaching também tem sido facilitado pela tecnologia. A coach Carol Braddick, que pesquisa o futuro do setor, observa que este é um tema amplo, cobrindo tudo que vai de “robôs” de coaching que fazem perguntas formuladas a coaches experientes que falam com os clientes pelo Zoom.
No momento, a inteligência artificial (IA) complementa o trabalho dos coaches. Pesquisa recente mostra que, ao se basear em grandes conjuntos de dados de muitas sessões de coaching, a IA poderá se tornar “eficiente em ajudar os clientes a alcançar seus objetivos, com melhor seleção de exercícios ou perguntas a serem feitas”. O estudo observa que embora um “bot” possa automatizar algumas etapas, “é improvável que ele assuma todo o processo de coaching. A IA deverá ser empregada com sucesso após a identificação apropriada dos problemas”.
As plataformas on-line abriram o coaching para um público maior, e podem ajudar os empregadores a identificar problemas dentro da organização. No entanto, há quem tema que possam tornar o coaching transacional, resultando em taxas mais baixas e “uma corrida para o fundo”, diz Catherine Devitt, que treina coaches executivos.
Jonathan Passmore, professor de coaching e mudanças comportamentais da Henley Business School e vice-presidente sênior da plataforma CoachHub, observa que no começo dos anos 2000 os honorários eram proibitivamente altos. “Vimos uma tendência gradual de que, à medida que os coaches chegam, seus serviços são oferecidos para um número maior de executivos e para a gerência mais baixa, e os salários caem. O valor dos honorários reflete isso”. A ICF, por exemplo, estabelece honorários de US$ 91 a US$ 500 por hora – mas um coach de primeira pode cobrar muito mais do que isso.
David Sole, coach executivo e cofundador da School for CEOs, uma organização de desenvolvimento de executivos, é otimista com o impacto em seu próprio negócio. “O coaching é uma indústria não regulamentada. Apesar do European Mentoring and Coaching Council e da ICF, qualquer um pode se estabelecer como coach. Sempre haverá esse tipo de desafio. A ponta mais alta do setor e quem está por aí há algum tempo estão um pouco melhor protegidas contra o elemento disruptivo das plataformas tecnológicas.”
O presidente da rede varejista, citado no começo do texto, está certo de que o coaching continuará tendo um papel importante para ele. “Não há dúvida de que as pressões inflacionárias e as conversas sobre uma possível recessão significarão que as empresas enfrentarão muitos desafios mais.”
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