Prêmio vê relevância de estudo de gênero

Prêmio vê relevância de estudo de gênero

Publicado em 10 de outubro de 2023

Nobel é o reconhecimento da competência do trabalho de quatro décadas de pesquisa feminista.

 A escolha de Claudia Goldin como ganhadora do Nobel de Economia demonstra, segundo pesquisadores brasileiros, a importância dos estudos sobre desigualdade de gênero em todo o mundo. A economista de Harvard foi reconhecida por suas pesquisas sobre a evolução da participação da mulher no mercado de trabalho e as disparidades que ainda persistem entre homens e mulheres.

Especialistas ouvidos pelo Valor destacam uma série de temas de seu trabalho, como os papéis sociais de gênero – como o casamento e a maternidade -, as diferenças de representação das mulheres em diferentes setores e ocupações no mercado de trabalho, o efeito da pílula anticoncepcional e as desigualdades entre as diferentes gerações de mulheres.

“O Nobel de Economia é o reconhecimento da competência do trabalho de Claudia Goldin e também o coroamento de quatro décadas de pesquisa feminista. É o reconhecimento do valor, da importância, da competência e da consistência dos trabalhos que têm as desigualdades de gênero como tônica principal”, diz a professora titular do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Lena Lavinas, uma das pioneiras em estudos de gênero no Brasil.

Em sua análise, Lavinas destaca que os estudos de gênero sucederam os movimentos feministas dos anos 60 e 70, na esteira da expansão do uso da pílula anticoncepcional, e por muito tempo sofreram discriminação e considerados de menor importância.

“As pesquisas feministas se consolidaram com muita dificuldade. Eram estudos considerados marginais. Houve muita luta para se incluir os estudos de gênero nas universidades, para se organizar grupos institucionais d

Na avaliação da professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e pesquisadora do Grupo de Estudos em Economia da Família e do Gênero (GeFam), Diana Gonzaga, a contribuição de Goldin para a economia vai desde a compreensão dos fatores históricos que explicam a evolução da participação das mulheres no mercado até o entendimento sobre políticas públicas ainda necessárias para ampliar a igualdade de gênero no mercado de trabalho.

Em artigo de 2014, Goldin mostrou, segundo Gonzaga, que as diferenças de gênero em educação e experiência se reduziram substancialmente e já não explicam grande parte da diferença salarial nos países desenvolvidos.

A conclusão é de que parte dessa desigualdade salarial poderia ser reduzida ou eliminada se não houvesse descompensação proporcional das empresas aos empregos de longa jornada.

“Ocupações que exigem dedicação integral e remuneração maior por hora extra, que podem ser chamados de trabalhos gananciosos, tendem a ter uma desigualdade salarial maior.

Ao mesmo tempo, essa diferença tende a ser menor em ocupações com mais flexibilidade”, afirma a pesquisadora do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e professora do Ibmec Rio Ana Luiza Neves de Holanda Barbosa, também integrante do GeFam.

As pesquisas feministas se consolidaram com muita dificuldade”

Empregos mais flexíveis, acrescenta Gonzaga, são mais buscados pelas mulheres em função da persistente dupla jornada entre atividades remuneradas (trabalho fora de casa) e as não remuneradas (fazeres domésticos e cuidados com crianças e idosos).

O trabalho de Goldin mostra não só as desigualdades entre homens e mulheres, mas também entre as gerações de mulheres, afirma Barbosa. Isso porque se debruça sobre a história da participação da mulher a partir de indicadores dos Estados Unidos nos séculos 19 e 20.

Presidente do GeFam e professora da FGV RI, Lorena Hakak destaca o impacto da pílula anticoncepcional e a introdução de eletrodomésticos nos comportamentos das mulheres com respeito à carreira e família entre os tópicos estudados por Goldin, cujos resultados podem se aplicar a outros países, como o Brasil.

“O aumento da participação das mulheres no mercado, inclusive das casadas, vem subindo enquanto elas, em média, têm mais escolaridade que os homens”, diz Hakak, que defende o incentivo a novas pesquisas na área no Brasil.

Ao reforçar a importância da maior participação feminina no mercado de trabalho, defendida por Goldin, o pesquisador emérito do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa) e professor da FGV Aloisio Araújo ressalta que sua importância para a maior geração de renda de um país.

“Não é uma questão só de equidade, mas também de eficiência na economia, de onde a mulher vai trabalhar de maneira a contribuir mais para a sociedade. Com maior participação da mulher, o Produto Interno Bruto (PIB) de um país será maior”, diz o professor.

Para além da capacidade intelectual de Goldin, economistas brasileiros que tiveram contato com ela em Harvard e no NBER (sigla para National Bureau Economic Research) destacam o perfil de trabalho duro e a simplicidade da vencedora do Nobel, mesmo já sendo reconhecida na época.

Foi no NBER que o brasileiro Paulo Costa conheceu Goldin, descrita por ele como uma mentora durante o doutorado em Harvard. “Sua alegria com a pesquisa (dela e de outros) era contagiante”, afirma ele, que também destaca sua generosidade com os alunos.

Joana Naritomi, hoje professora da London School of Economics and Political Science (LSE), conta que Goldin era sempre solícita ao participar dos workshops com alunos do doutorado. “Dava ótimos feedbacks e não era nem um pouco arrogante”, diz ela.

Uma das curiosidades sobre a vencedora do Nobel de Economia 2023 é a paixão por Pika, um cachorro da raça Golden retriever que a acompanhava em Harvard e em compromissos de trabalho.

Fonte: Valor Econômico
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