Produtividade do trabalho cresce por 2 trimestres após 7 quedas

Produtividade do trabalho cresce por 2 trimestres após 7 quedas

Publicado em 25 de setembro de 2023

Cálculo do FGV Ibre mostra expansão de 2,6% de abril a junho, após alta de 1,3% nos três primeiros meses deste ano.

 A produtividade do trabalho no Brasil cresceu pela segunda vez seguida no segundo trimestre de 2023, desta vez influenciada não só pela agricultura, mas também por indústria e serviços. Se for excluído o ano de 2020, quando a evolução do indicador foi influenciada pela pandemia, esta foi a primeira vez com dois trimestres consecutivos de expansão desde 2017.

No segundo trimestre, o indicador de produtividade calculada pela comparação do valor adicionado com as horas efetivamente trabalhadas teve alta de 2,6% em relação ao mesmo período de 2022, segundo as informações antecipadas ao Valor pelo Observatório da Produtividade Regis Bonelli, do Instituto Brasileiro de Economia (FGV Ibre). No primeiro trimestre, houve expansão de 1,3% nessa base de comparação. Variável próxima do PIB, o valor adicionado exclui impostos e subsídios.

Antes disso, foram sete trimestres seguidos de recuos nessa medida de produtividade do trabalho. Ao longo desse período, no entanto, o ritmo de queda foi reduzindo trimestre a trimestre. No ano de 2020, a produtividade avançou, mas por uma particularidade da pandemia. Naquele momento, o mercado de trabalho perdeu de forma mais intensa os trabalhadores menos produtivos, como os informais, e reteve aqueles mais produtivos, alterando a tendência de redução da produtividade observada antes da crise sanitária. Além disso, houve queda nas horas efetivamente trabalhadas no começo da pandemia, devido às medidas de restrição à mobilidade social, para combater a covid-19.

Com o desempenho do segundo trimestre, o nível da produtividade está 2,3% acima do quarto trimestre de 2019, apontado como o marco do pré-pandemia. “Já são dois trimestres seguidos de crescimento. Não chega a ser motivo para muita euforia, mas é positivo. Não deixa de ser uma novidade”, afirma Fernando Veloso, coordenador do Observatório junto com Silvia Matos, que também assina o estudo, além dos pesquisadores Fernando de Holanda Barbosa Filho, Paulo Peruchetti, Janaína Feijó e Ana Paula Ruhe.

Vejo claramente o impacto defasado da reforma trabalhista” Fernando de Holanda

Na passagem entre o primeiro e o segundo trimestres, houve uma mudança na composição entre os setores que contribuem para a expansão da produtividade, destacam os pesquisadores. Se for excluída a agropecuária, a produtividade do trabalho no segundo trimestre teve alta de 0,8% em relação ao mesmo período de 2022. É um número inferior aos 2,6% do resultado agregado, mas ainda no terreno positivo. No primeiro trimestre, ao excluir a agropecuária, o indicador teve recuo de 0,8%.

“Olhando o desempenho por setores, a agropecuária teve dois trimestres de crescimento muito forte da produtividade, acima de 20%, mas no segundo trimestre os outros setores também cresceram um pouco, como indústria e serviços. Sem dúvida o agro foi bastante importante, mas os outros tiveram uma pequena colaboração”, diz o economista.

A produtividade efetiva da agropecuária avançou 23,5% no primeiro trimestre e 21,5% no segundo trimestre, considerando a comparação com igual trimestre de 2022. Na indústria, as taxas de crescimento são bem menos intensas, de 0,6% e 3%, respectivamente. Já os serviços saíram do terreno negativo, com variação de 0,3% no segundo trimestre, após queda de 1,1% no primeiro trimestre.

Dentro da indústria, há segmentos com expansão ainda maior da produtividade, como é o caso de serviços industriais de utilidade pública (SIUP) – que englobam atividades como geração e distribuição de energia e fornecimento de gás, por exemplo -, com alta de 9,7% no segundo trimestre, ante igual período de 2022. A construção (4,8%) e a indústria extrativa mineral (3,8%) também crescem acima da média da indústria, que é pressionada para baixo pela indústria de transformação (-2,1%).

Nesse contexto, Silvia Matos cita o desempenho de segmentos ligados a commodities, como a indústria extrativa e a produção de energia, em SIUP. “Temos visto um efeito positivo de alguns setores no segundo trimestre, e é um dado importante. São setores que podem estar se beneficiando dessas mudanças tecnológicas, mas também de uso de novas formas de produção, como é o caso da construção. É um setor que geralmente é intensivo em trabalho e tem baixa produtividade, então é um excelente resultado”, diz a economista.

Por trás dessa mudança de trajetória da produtividade, os pesquisadores acreditam que há influência do crescimento mais expressivo do mercado de trabalho formal que do informal na esteira da recuperação da pandemia e também da reforma trabalhista, além do aumento da escolaridade.

Em julho de 2023, as ocupações formais estavam 8,7% acima do período pré-pandemia, enquanto as ocupações informais estavam 1,7% acima. Entre os trabalhadores formais, o maior ritmo de crescimento é o dos trabalhadores por conta própria com CNPJ, que muitas vezes é um microempreendedor individual (MEI). O nível de emprego dessa categoria está 15% acima do pré-pandemia, enquanto entre os trabalhadores com carteira de trabalho assinada no setor privado está 9,9% acima daquele momento.

Os pesquisadores ponderam que o contingente de trabalhadores com carteira é maior – 37 milhões de pessoas no trimestre até julho – e tem maior peso que o grupo dos conta própria com CNPJ – de 6,2 milhões. Esse crescimento mais forte, no entanto, contribui para o resultado geral da formalização, diz Veloso.

“Depois da recessão de 2015/2016 e antes da pandemia, o mercado de trabalho estava muito informal, o que era ruim para a produtividade. E agora há alguns sinais de que isso pode estar mudando. Isso sem dúvida é bom, dá um pouco mais de confiança”, afirma o economista.

Para o pesquisador Fernando de Holanda Barbosa Filho, essa dinâmica mais formal do trabalho reflete a reforma trabalhista. “Vejo claramente o impacto defasado da reforma trabalhista. Essa dinâmica mais formal demorou a aparecer, é verdade, mas de 2014 até agora o setor formal só aparecia demitindo. Desde a saída da pandemia está contratando sistematicamente”, avalia.

Veloso mostra cautela sobre a possível continuidade desse crescimento da produtividade do trabalho. “Não se sabe se essa novidade vai continuar, se essa dinâmica resiste à desaceleração da economia que é esperada, então é preciso certo cuidado. Mas é uma mudança de destaque frente ao que vinha acontecendo”, diz o economista.

Ainda assim, aponta que o ritmo de queda da produtividade já vinha desacelerando antes de voltar para o terreno positivo, “o que dá certa confiança de que a dinâmica da produtividade do trabalho esteja melhor do que antes”.

Tecnologia precisa se espalhar e criar produtos e serviços

Para Fernando Veloso, disseminação e geração de novidades é fundamental para avanços não se limitarem a promover a simples troca do ser humano pela máquina.

 Para aumentar a produtividade do trabalho, as novas tecnologias precisam levar à criação de novos produtos e serviços e estar espalhadas por diferentes empresas e setores da economia e não apenas promover a troca do ser humano pela máquina e ficar restrita a poucas companhias, avalia Fernando Veloso, coordenador do Observatório da Produtividade Regis Bonelli, do Instituto Brasileiro de Economia (FGV Ibre).

Por enquanto, não é isso que tem sido observado com novas tecnologias de automação e inteligência artificial, segundo ele. Veloso cita estudos recentes mostrando que, até o momento, o uso de tecnologias mais avançadas está concentrado em poucas e grandes empresas.

Um dos trabalhos mencionados é o do economista Daron Acemoglu, do Massachusetts Institute of Technology (MIT) com outros autores, que avaliou o uso de cinco tipos de tecnologias (inteligência artificial, robótica, computação na nuvem, equipamentos dedicados e software especializado) a partir de dados de mais de 320 mil empresas dos Estados Unidos. No caso da inteligência artificial, por exemplo, apenas 3,2% a utilizavam. Metade de todas as empresas revelaram não usar nenhuma delas.

“O que aconteceu até agora não é muito promissor. Se nos EUA, que é a fronteira tecnológica, metade das empresas não usa qualquer uma das cinco tecnologias, é mais ou menos intuitivo que isso não terá grande efeito na produtividade do trabalho. O uso e a falta de disseminação [de tecnologias] têm sido um problema e até agora não há nada que indique que está mudando: as tecnologias são muito concentradas”, diz o economista.

Vencedor do Nobel em 1987, Robert Solow enunciou coincidentemente naquele ano o chamado “paradoxo da produtividade”: os computadores estavam presentes em todos os lugares, exceto nas estatísticas de produtividade. Um fenômeno semelhante poderia estar em curso no momento. “Os smartphones e a inteligência artificial já têm mais de dez anos”, diz.

Segundo Veloso, os indicadores de produtividade do trabalho no mundo, como nos Estados Unidos ou nos países europeus, não mostram ainda, em seus resultados gerais, efeitos positivos de novas tecnologias e do trabalho remoto, por exemplo, ainda que o desempenho seja heterogêneo entre os setores.

Duas razões são apontadas por especialistas para essa demora. A primeira é que tradicionalmente há uma defasagem no impacto, por causa de um período de transição para a adaptação das empresas e da própria legislação. Isso ocorreu, por exemplo, com a eletricidade no século XIX, lembra o economista. A outra é que a automatização não tenha sido eficiente.

No primeiro caso, o economista acredita que o argumento da demora “está se tornando cada vez mais difícil de acreditar”. Já o segundo fator se volta para a qualidade desse processo de automação. “O exemplo clássico é call center. Não parece que a experiência seja melhor que no passado ou tenha aumentado a produtividade. Não é isso que vai gerar ganho para a economia como um todo”, afirma.

Fonte: Valor Econômico
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