Produtividade do trabalho segue em queda no 2º tri

Produtividade do trabalho segue em queda no 2º tri

Publicado em 15 de setembro de 2022

Indicador continua a trajetória de baixa observada a partir do 2º trimestre de 2021, diz FGV Ibre.

O cenário de queda da produtividade do trabalho observado a partir do segundo trimestre de 2021 tem se mantido ao longo de 2022, apesar do avanço do emprego formal, que tende a ser mais produtivo. Entre o primeiro e o segundo trimestre deste ano, o desempenho da produtividade calculada pela comparação do valor adicionado com as horas efetivamente trabalhadas passou de queda de 8,2% para contração de 6,9% em relação aos mesmos períodos do ano passado. As informações, antecipadas ao Valor, são do Observatório da Produtividade Regis Bonelli do Instituto Brasileiro de Economia (FGV Ibre).

Entre o primeiro e o segundo trimestre de 2022, o crescimento do valor adicionado da economia em geral voltou a acelerar, passando de 1,9% para 3,6% em relação ao mesmo período de 2021. O comportamento das horas efetivamente trabalhadas, no entanto, variou pouco, de 11% nos três primeiros meses do ano para 11,2% nos três seguintes.

A métrica por horas efetivas – que pode incluir reduções por motivo de doença e feriado, ou aumentos, se há pico de produção e reposição de horas – é a que mostra mais claramente o efeito da pandemia sobre o mercado de trabalho. Houve um forte recuo das horas trabalhadas no auge da covid-19, seguido depois por um aumento significativo, à medida que as restrições à mobilidade social foram relaxadas.

Mas a queda da produtividade é observada também em outras métricas. “É um fenômeno generalizado. Há queda de produtividade em quase todos os setores, em quase todas as medidas”, diz Fernando Veloso, um dos coordenadores do observatório. Entre o primeiro e o segundo trimestre deste ano, a queda da produtividade por horas habitualmente trabalhadas passou de 7,2% para 6,4% na comparação com os mesmos períodos de 2021. Já a produtividade que considera o número de pessoas ocupadas foi de -6,9% para -5,8%.

Nesses casos, o cenário de forte crescimento das variáveis se manteve, com o avanço da população ocupada passando de 9,4% para 9,9% entre o primeiro e o segundo trimestre de 2022 e a alta das horas habituais indo de 9,8% para 10,7%. “Neste ano, o que vemos são as três medidas convergindo mais ou menos para a mesma taxa, o que significa que a produtividade também vai convergir”, afirma Veloso.

Na comparação com os trimestres imediatamente anteriores, os resultados também não têm sido animadores. Após uma ligeira alta de 0,1% no primeiro trimestre de 2022, em relação aos três meses imediatamente anteriores, a produtividade por hora efetiva voltou a recuar, caindo 0,3% no segundo trimestre. “Tínhamos notado esse 0,1% positivo e ficamos na dúvida se era um modesto sinal de recuperação, com a formalização aumentando, mas já voltou a ficar negativo.”

As demais medidas, por sua vez, aprofundaram suas perdas em relação ao trimestre anterior, com a contração da produtividade por pessoal ocupado passando de 0,4% no primeiro trimestre para 1,1% no segundo, enquanto a métrica por hora habitual foi de queda de 0,8% para retração de 1,7%. Para os pesquisadores do FGV Ibre, esses resultados reforçam a indicação de que a elevação da produtividade em 2020 foi temporária, tendo sido revertida ao longo de 2021 em um processo que se mantém em 2022. A produtividade fraca é um dos motivos para o baixo crescimento da economia brasileira.

Esse padrão transitório fica particularmente evidente quando se considera a evolução da trajetória da produtividade do trabalho desde o quarto trimestre de 2019. Após um salto expressivo no segundo trimestre de 2020, a produtividade por horas efetivas desacelerou nos trimestres seguintes e encontra-se, no segundo trimestre de 2022, 1,2% abaixo do nível pré-pandemia. Na mesma base de comparação, a produtividade por hora habitual estava 2,6% abaixo, e a produtividade por pessoal ocupado, também 1,2% aquém.

O FGV Ibre destaca que setores menos produtivos que haviam tido fortes quedas no valor adicionado em 2020 – como outros serviços, construção e transporte – apresentaram crescimento expressivo em 2021, e o padrão se repete em 2022. “A gente acha que isso está por trás não só desse surpreendente aumento do emprego e horas neste ano, mas também da queda da produtividade”, diz Veloso.

Ele pondera que, como o processo de recuperação desses setores já começou no ano passado, há menos margem para continuidade e, provavelmente, ele chegará perto do fim neste ano. Com isso, em princípio, a queda da produtividade tenderia a desacelerar. “Além disso, a produtividade já voltou para a tendência de queda do pré-covid, mas é difícil falar em tendências nessa pandemia. Vamos ter que aguardar um pouco mais”, diz Veloso.

A recuperação das ocupações informais e a volta dos trabalhadores menos escolarizados, que são, em média, menos produtivos, também têm contribuído para que ocorra um retorno ao padrão de queda da produtividade observado no período anterior à pandemia.

Ocupações formais, que tendem a ter uma produtividade relativa maior, até estão em posição melhor do que as informais – em julho, encontravam-se 7% acima do período pré-pandemia, contra 3,3% das ocupações sem registro, na série mensalizada com ajuste sazonal. “A volta, inicialmente, foi muito do informal, mas desde o ano passado e particularmente neste ano, a formalização está mais forte. Isso seria boa notícia para a produtividade. É um pouco surpreendente o fato de a formalização estar aumentando, e a produtividade, caindo”, diz Veloso.

Quem mais tem puxado esse emprego formal, no entanto, é o trabalhador por conta própria com CNPJ – o que inclui, por exemplo, o microempreendedor individual (MEI) -, cujo nível de ocupação está quase 29% acima do pré-covid, enquanto o trabalhador do setor privado com carteira está 2,4% acima. O que ocorre, segundo Veloso, parece ser uma “formalização menos produtiva”, diz. “Quando falamos que o setor formal é mais produtivo, estamos pensando mais em empresas que empregam muita gente, usam muito capital físico, capital humano, alta tecnologia. Esse tipo de formal [por conta própria] é uma empresa, tem CNPJ, mas às vezes é uma empresa de uma pessoa só, não é aquele formal mais produtivo.”

Analisando mudanças na disposição das ocupações, Fernando de Holanda Barbosa Filho, também pesquisador do FGV Ibre, observou que não há uma transição clara de trabalhadores com carteira assinada para esse grupo de conta-própria com CNPJ – o que seria a chamada “pejotização”. “Ela está vindo, possivelmente, de pessoas de fora do mercado de trabalho que estão desempregadas”, afirma.

Além disso, em 2022, mesmo entre os trabalhadores formais, quem mais têm observado crescimento do emprego são os menos escolarizados. A taxa de crescimento da ocupação formal para trabalhadores sem instrução ou com ensino fundamental incompleto, que caía antes da pandemia e aprofundou as perdas com a crise sanitária, ainda foi negativa em 2,7% em 2021, enquanto a taxa já tinha virado positiva para quem tinha fundamental completo/médio incompleto e médio completo/superior incompleto. Neste ano, por outro lado, a maior taxa de crescimento do emprego está entre os trabalhadores sem instrução/com fundamental incompleto, que avança 16,3% no primeiro trimestre, na comparação com igual período do ano passado. “Aparentemente, o que está acontecendo é que o formal que está voltando é de baixa escolaridade, que tende a ser menos produtivo. Talvez essa seja a novidade agora”, afirma Veloso.

A rápida recuperação intensiva em trabalho em setores de baixa produtividade “vira inflação rapidinho”, alerta Silvia Matos, também coordenadora do observatório e do Boletim Macro do FGV Ibre. O custo unitário do trabalho (CUT) dos serviços e o da construção civil já mostram pressões elevadas, segundo ela. “É o ‘lado B’ dessa recuperação”, afirma.

Fonte: Valor Econômico
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