23 mar Produtividade do trabalho tem queda forte em 2021
Produtividade do trabalho tem queda forte em 2021
Após saltar 12,1% em 2020, a produtividade por horas efetivamente trabalhadas caiu 8,3% em 2021.
A produtividade do trabalho no Brasil seguiu em queda no último trimestre de 2021, confirmando que a forte elevação observada em 2020 foi temporária e se reverteu ao longo do ano passado. Para este ano, o quadro tende a piorar um pouco mais. Após saltar 12,1% em 2020, a produtividade por horas efetivamente trabalhadas caiu 8,3% em 2021. Os cálculos e as análises são dos pesquisadores Fernando Veloso, Silvia Matos, Fernando de Holanda Barbosa Filho e Paulo Peruchetti, para o Observatório de Produtividade Regis Bonelli do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre). A expectativa dos economistas é que o indicador volte ao fraco desempenho registrado antes da pandemia. Entre 2014 e 2019, por exemplo, o indicador teve uma queda anual de 0,3%.
Em 2021, as horas efetivamente trabalhadas – que podem incluir reduções por motivos de doença, feriado, faltas e atrasos, bem como aumentos por causa de picos de produção ou compensação de horas – cresceram 13,8%, mas o valor adicionado avançou menos, 4,3%. Como resultado, houve um recuo de 8,3% da produtividade. O conceito de horas efetivamente trabalhadas é o que melhor captura o efeito das restrições à mobilidade social adotadas por causa da pandemia da covid-19. Em 2020, isso levou a uma queda forte da jornada de trabalho.
Em 2021, o processo de normalização da atividade econômica, com o relaxamento das medidas de restrição à mobilidade social, permitiu uma recuperação das horas trabalhadas ao longo do ano e do valor adicionado, mas com desaceleração das taxas de crescimento ao longo dos últimos trimestres.
O movimento de queda de produtividade foi observado também nas outras métricas, embora com intensidade menor, mostra o estudo dos economistas do FGV Ibre. Por horas habitualmente trabalhadas, que cresceram 5,1% em 2021, a produtividade recuou 0,7% no ano passado, após crescer 4,1% em 2020. Já por pessoal ocupado, cujo crescimento foi de 5% em 2021, a produtividade caiu 0,6%, vindo de alta de 4,3% no ano anterior. O processo de recuperação da população ocupada e das horas habitualmente trabalhadas tem sido mais lento. As horas habituais buscam refletir como é a jornada média do trabalhador, excluindo situações atípicas como férias e feriados.

Desde o terceiro trimestre do ano passado, todas as métricas têm apontado para um forte recuo da produtividade em relação ao mesmo período do ano anterior. No quarto trimestre de 2021, a produtividade por hora efetiva caiu 10,1% na comparação com igual período do ano anterior, enquanto a por hora habitual recuou 8% e a por população ocupada cedeu 7,5%.
O padrão transitório de ganho de produtividade em 2020 fica evidente quando se observa a evolução da trajetória da produtividade do trabalho desde o quarto trimestre de 2019, ainda anterior à covid. No último trimestre de 2021, a produtividade por horas efetivas já se encontrava 1,4% abaixo do nível pré-pandemia. Na mesma base de comparação, a produtividade por hora habitualmente trabalhada estava 0,3% abaixo, e a produtividade por pessoal ocupado ainda estava ligeiramente acima (cerca de 0,1%). “As três métricas estão convergindo para uma situação de ou voltar para o mesmo nível ou até um pouco abaixo [de 2019]. É o que a gente falava desde 2020 que provavelmente iria acontecer: conforme os setores menos produtivos começassem a retornar [ao trabalho], aquele padrão de aumento da produtividade não ia durar”, diz Veloso.
Medida de eficiência com que se combinam trabalho e capital para se transformar em produção, a produtividade total dos fatores (PTF) também registrou queda forte em 2021, após a alta expressiva no ano anterior. No ano passado, a PTF calculada levando em conta as horas efetivamente trabalhadas recuou 7,1%, tombo que se seguiu ao aumento de 6,1% em 2020.
No quarto trimestre de 2021, o indicador de PTF por horas efetivas estava em um patamar 4,3% abaixo do nível pré-pandemia. “Aponta na mesma direção, de um efeito enorme de aumento, mas que já foi integralmente revertido”, afirma Veloso.
A métrica de produtividade por horas efetivas se descolou das demais no primeiro ano da pandemia – sobretudo no segundo trimestre de 2020 -, já que, com as medidas de distanciamento social e de redução de jornada (em troca da manutenção do emprego), as horas efetivamente trabalhadas recuaram de forma muito mais pronunciada que as demais medidas do fator trabalho.
A contribuição do “efeito composição” – a pandemia afetou mais trabalhadores de baixa produtividade, especialmente os informais e os de menor escolaridade, e setores menos produtivos, como os serviços – também mudou de direção ao longo do ano passado. No emprego informal, houve redução de 12,6% em 2020 e crescimento de 8,9% em 2021; no emprego formal, houve queda de 4,1% e elevação de 2,3%, respectivamente.
Enquanto o emprego cresceu 5% para pessoas com ensino superior completo em 2020, ele caiu 18,2% para trabalhadores sem instrução/com ensino fundamental incompleto e recuou 13,9% para aqueles com ensino fundamental completo/ensino médio incompleto. Em 2021, por outro lado, houve crescimento de 3,3% e 9,1% no emprego de pessoas sem instrução/com ensino fundamental incompleto e daqueles com ensino fundamental completo/ensino médio incompleto, pela ordem, e alta de 4% entre pessoas com ensino superior completo.
“Neste ano, o ‘efeito composição’ vai ser negativo, porque quem falta voltar ainda é a pessoa de menor emprego”, diz Barbosa Filho, em referência aos trabalhadores de baixa produtividade em setores menos produtivos. “Sabemos que esse processo ainda não terminou, porque o setor de ‘outros serviços’ ainda não voltou totalmente. Tem margem para retornar mais, o que seria ruim para a produtividade”, completa Veloso.
Silvia Matos observa que, em termos de atividade, “outros serviços prestados às famílias”, que abarca salões de beleza e academias, entre outros, ainda estão 12% a 13% abaixo do patamar pré-pandemia. “Em geral, a gente acredita que ainda tenha um crescimento de horas e deve ser maior do que o PIB, que já está meio dado que será muito baixo. No agregado, como vai ter muito limão para pouca limonada, é difícil imaginar aumento de produtividade neste ano”, diz ela.
Em todas as medidas, a produtividade brasileira apresentou forte recuo ao longo da recessão ocorrida entre 2014 e 2016, seguida de uma recuperação no primeiro semestre de 2017, por causa do desempenho da agropecuária. Entre o segundo trimestre de 2017 e o quarto trimestre de 2018, houve desaceleração do crescimento da produtividade, seguida de sucessivas quedas em 2019.
“Tudo indica que estamos voltando para o padrão pré-pandemia, que ainda é pior do que a média histórica. Falamos muito que desde 1980 a produtividade não cresce, mas, quando a gente olha a última década, é pior ainda, porque houve algum crescimento nos anos 2000”, diz Veloso. Determinadas empresas e setores de maiores tecnologias até podem ter vivenciado ganhos, “mas parece que não foi suficiente para ter um efeito agregado expressivo”, afirma o economista.
O fenômeno identificado no Brasil não é um caso isolado. Os pesquisadores do FGV Ibre observam que o Conference Board, dos EUA, projeta uma queda de 1,3% na produtividade por hora trabalhada no mundo em 2021, após crescimento de 4,1% em 2020. Para os países emergentes, a perda seria de 1,8% no ano passado, vindo de alta de 5,4% em 2020. Só a América Latina teria uma contração de 6,7% da produtividade em 2021, após crescimento de 9,9% no ano anterior.
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