Produtividade recua com salto em horas trabalhadas

Produtividade recua com salto em horas trabalhadas

Publicado em 23 de setembro de 2021

Indicador começa a se aproximar da trajetória pré-pandemia, diz Ibre.

A produtividade do trabalho recuou com força no segundo trimestre de 2021, puxada pelo aumento expressivo das horas efetivamente trabalhadas bem acima da variação do valor adicionado, num cenário de normalização da atividade econômica. A baixa também se deveu ao impacto da recuperação de setores menos produtivos da economia, como comércio e serviços, e a volta dos trabalhadores informais ao mercado – o chamado “efeito composição”.

Houve uma queda da produtividade de 13,9% em relação ao mesmo período de 2020, resultado da combinação de alta de 29,8% das horas efetivamente trabalhadas e de 11,7% do valor acionado, segundo os cálculos dos economistas Fernando Veloso, Silvia Matos, Fernando de Holanda Barbosa Filho e Paulo Peruchetti para o Observatório da Produtividade Regis Bonelli do Instituto Brasileiro de Economia (FGV Ibre). Para eles, a produtividade do trabalho começa a se aproximar da trajetória anterior à pandemia, marcada por um desempenho decepcionante.

A retração do indicador no segundo trimestre reverte a tendência observada desde o segundo trimestre de 2020, quando a queda de horas trabalhadas e o chamado efeito composição contribuíram para o forte aumento do indicador, que não refletiria, nesse caso, ganho de eficiência genuíno dos trabalhadores, segundo os pesquisadores.

Com a pandemia, foi afetado principalmente o desempenho de atividades menos produtivas, como serviços, comércio, alojamento e alimentação. Isso alterou, portanto, a composição dos setores em expansão. Além disso, deixaram o mercado os trabalhadores informais, que na média são menos produtivos que os formais.

Essa composição diferente do mercado também ajudou a explicar esse aumento da produtividade desde o segundo trimestre de 2020. Ele vinha em desaceleração e no segundo trimestre foi revertido. Ao mesmo tempo, o tombo de agora não refletiria uma grande perda de eficiência no trabalho, ocorrendo em grande parte devido à recuperação expressiva das horas efetivamente trabalhadas com a reabertura progressiva da economia.

A produtividade do trabalho chegou a aumentar 23,9% no segundo trimestre de 2020, quando houve queda forte das horas de trabalho no período mais agudo de isolamento social da pandemia, acompanhado pelas políticas de compensação de renda do governo, como o auxílio emergencial e o programa que suspendeu ou reduziu a jornada dos trabalhadores formais.

O ritmo de expansão foi desacelerando ao longo dos meses, passando para 15,3% no terceiro trimestre, 10,1% no quarto trimestre e 4% no primeiro trimestre de 2021. A queda do segundo trimestre deste ano interrompe, portanto, essa sequência de altas expressivas, diante do histórico recente do indicador no país.

“O que a gente vê no Brasil é muito parecido, em termos de padrão, com o que aconteceu lá fora. Ao longo do tempo, as horas efetivas trabalhadas se recuperaram. No segundo trimestre, cresceram quase 30% em relação a igual período do ano passado”, afirmou Fernando Veloso, ao explicar o impacto do aumento de 29,8% das horas trabalhadas no segundo trimestre em relação a igual período de 2020.

Esse movimento ocorre de forma simultânea com a mudança na composição dos setores em expansão e na forma de inserção do trabalhador. “Agora, no segundo trimestre, o padrão mudou. Os setores que estão tendo crescimento agora são os menos produtivos, como transportes, comércio, construção e outros serviços. E isso traz a média da produtividade para baixo, da mesma forma que no ano passado trouxe esse indicador para cima. Esta é a reversão do efeito composição do primeiro para o segundo trimestre”, disse ele.

Assim como ocorreu com o aumento da produtividade nos trimestres anteriores, Veloso destaca que essa queda agora “não é genuína”.

“[O aumento] não teve a ver com o que as pessoas geralmente associam com produtividade, que aumenta a eficiência, tecnologia etc. Foi simplesmente uma mudança na composição setorial, do mercado de trabalho e das empresas. E agora é o contrário. Essa queda não tem a ver com uma perda de eficiência”, ponderou.

Para Veloso, este movimento de reversão do efeito composição ainda vai continuar. Isso porque o nível de produtividade do trabalho, considerando a medida por hora efetiva trabalhada, ainda está 7,8% acima do nível pré-pandemia, no quarto trimestre de 2019. “Tem muita coisa ainda para ajustar, muito emprego ainda para voltar. […] Depende da pandemia e da vacinação, mas acredito que ano que vem a produtividade do trabalho já vai estar bem mais próxima ao patamar de baixo crescimento [do passado]”, disse.

Olhando mais para o médio e longo prazo, o pesquisador Fernando Veloso acredita que a pandemia terá um efeito mais negativo que positivo para a economia. Ele ponderou que o impacto para a formação educacional de crianças e jovens de escolas fechadas por tanto tempo, o aumento do desemprego de longa duração – que afeta também o capital humano – e as incertezas sobre a economia terão preponderância no país sobre os ganhos oriundos do uso de tecnologia e do avanço do trabalho remoto.

“Os efeitos sobre o capital humano, sobre o mercado de trabalho, da incerteza, que afeta os investimentos, tendem a ser mais importante sob o ponto de vista quantitativo que um efeito sobre a produtividade das empresas por causa da adoção de tecnologias”, afirmou Veloso.

Fonte: Valor Econômico
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