22 jun Proteção ao emprego é dilema na Europa
Proteção ao emprego é dilema na Europa
Fim prematuro de programas pode criar demissões em massa, mas manutenção também preocupa.
Milhões de trabalhadores que se encontram sob os programas de proteção ao emprego na Europa poderão ficar sem trabalho quando esse suporte financeiro for encerrado, o que mostra o dilema que os governos enfrentam enquanto prorrogam ou alteram seus subsídios públicos.
Os programas de subvenção ao emprego cobrem 45 milhões de postos de trabalho, um terço da força de trabalho na Alemanha, na França, no Reino Unido, na Itália e na Espanha. Em razão deles, a Europa não sofreu a perda catastrófica de empregos registrada nos Estados Unidos desde o começo da pandemia.
A maioria dos governos europeus estendeu seus programas para o outono [quarto trimestre], temendo que uma retirada prematura da ajuda possa provocar demissões em massa.
Mas com o aumento da demanda e da produção industrial, planejadores econômicos e analistas estão considerando não só os enormes custos públicos, como também o risco de essas subvenções prenderem as pessoas em “empregos zumbis” inviáveis e dissuadi-las a mudar para setores com melhores perspectivas de longo prazo.
“Estender a proteção aos empregos só vai adiar o problema”, diz Katharina Utermöhl, economista sênior da Allianz. Estudo recente da seguradora concluiu que 9 milhões de empregos – ou um quinto dos inscritos nos programas de proteção – estão vulneráveis por se encontrarem em setores que continuarão tendo problemas como turismo, viagens, hotelaria, varejo e entretenimento. “É realmente importante ter outras iniciativas, como políticas de mercado de trabalho ativas”, afirma Katharina.
Embora a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) acredite que a taxa de desemprego na zona do euro chegará a 10% no fim de junho, esse ainda é um número bem menor que o registrado nos EUA, onde a previsão é de que o desemprego chegará a 17,5% no mesmo período.
A perda de empregos é muito maior nos EUA, com mais de 45 milhões de novos pedidos de auxílio desemprego encaminhados desde a metade de março. Embora as contratações tenham aumentado em maio, Heidi Shierholz, ex-economista-chefe do Departamento de Trabalho dos EUA, calcula que mais de um em cada cinco trabalhadores americanos continua recebendo auxílio-desemprego ou no aguardo por recebê-lo.
Mas a maioria dos postos de trabalho eliminados diz respeito a demissões temporárias e poderão ser rapidamente preenchidos novamente, de modo que o cenário do desemprego poderá ser bem parecido nos dois lados do Atlântico no fim do ano, segundo previsões da OCDE.
Os planejadores econômicos dos EUA optaram principalmente por ajudar trabalhadores com auxílios-desemprego mais generosos – com complementação federal de US$ 600 aos benefícios estaduais -, o que significa que cerca de dois terços dos trabalhadores estão numa situação melhor com os benefícios.
Eles agora enfrentam o mesmo desafio de seus colegas da União Europeia: como reduzir progressivamente essa ajuda sem grandes traumas e aumento do desemprego no longo prazo. “Não podemos desligar a ajuda federal cedo demais”, diz Heidi Shierholz.
Ela deverá ser reduzida somente quando o desemprego cair ou a taxa de emprego subir a um nível apropriado, acrescenta ela.
Enquanto isso, na Europa sindicatos trabalhistas e patrões estão exigindo que os governos ampliem os programas de proteção aos empregos. Muitos já decidiram isso pelos próximos meses, em alguns casos com os patrões arcando com uma parte maior dos custos. Mas nenhuma grande economia europeia disse até agora como pretende determinar as subvenções aos empregos em setores específicos, criar novos incentivos às contratações e estabelecer programas de recapacitação em massa. Tais medidas serão necessárias – mudando o apoio da manutenção dos trabalhadores nos empregos atuais para ajudá-los a encontrar novas posições – para evitar perdas em massa de empregos ou os empregos-zumbis, segundo afirmam economistas.
O governo espanhol está sob pressão especial porque seu programa de proteção ao emprego se encerra no fim de junho. As discussões sobre uma ampliação de três meses serão retomadas nesta semana, com empresas e organizações sindicais exigindo uma postura mais generosa do governo. Atentos ao aumento da dívida pública, ministros querem que os empregadores arquem com uma parcela maior dos custos.
Autoridades espanholas afirmam que o programa de proteção ao emprego está funcionando, com 1 milhão de pessoas tendo já retornado ao trabalho e a redução do total de trabalhadores cobertos durante o pico do programa de 3,4 milhões para 2,4 milhões. Mas, entre as grandes economias europeias, a Espanha deverá ser a mais duramente atingida pela reestruturação dos empregos, com a taxa de desemprego batendo em 22% até o fim de setembro, segundo as previsões da OCDE.
“É muito difícil saber quando parar com os programas de proteção ao emprego”, diz Toni Roldán, diretor do centro de estudos Esade EcPol, de Madri. “Provavelmente será setor por setor. A coisa mais importante é que haja flexibilidade, uma vez que as empresas conhecem melhor a situação em que se encontram.”
O Reino Unido tem ido mais longe no afunilamento de seu programa de proteção. Embora vá durar até outubro, ele encontra-se fechado a novos pretendentes e os empregadores começarão progressivamente a dividir os custos a partir de agosto. Os empregados continuarão recebendo 80% do salário regular. Setores duramente atingidos, como os de hotelaria e turismo, serão tratados do mesmo jeito que os demais.
O estudo da Allianz constatou que o Reino Unido apresenta o maior nível de “empregos-zumbis” com 7,6%, ou 2,5 milhões de empregos, sugerindo que demissões em massa virão. Mas o debate está se voltando para como o governo conseguirá ajudar os trabalhadores a encontrar novas funções – através de programas de reciclagem, garantias de emprego aos jovens ou a criação direta de empregos em projetos de infraestrutura financiados pelo Estado.
A França tem um dos mais generosos e amplos programas de apoio ao emprego, que segundo o governo custará € 31 bilhões em seis meses. Quase 9 milhões de pessoas estavam cobertas em abril, mas esse número caiu para menos de 8 milhões em maio, segundo estimativas do Ministério do Trabalho. O programa prosseguirá até setembro.
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