25 out Qualificado apela para trabalho por conta própria
Qualificado apela para trabalho por conta própria
Fatia de trabalhadores mais escolarizados avança, e falta de vaga na quantidade necessária é uma das razões.

Num mercado de trabalho que ensaia recuperação após os efeitos mais intensos da pandemia, a maior parte das vagas geradas é aquelas por conta própria, em que não há vínculos empregatícios e o rendimento, em média, é menor, como vêm mostrando os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Mas chama a atenção um outro fenômeno neste grupo de trabalhadores: o avanço da parcela de profissionais mais qualificados – com ensino médio ou superior.
Estudo exclusivo da consultoria IDados antecipado para o Valor aponta que a fatia dos que têm ensino superior (completo ou incompleto) nesse grupo avançou de 18,8% no primeiro trimestre de 2020 para 20,9% no segundo trimestre de 2021. Essa parcela era de 16,2% no primeiro trimestre de 2018 e de 17,7% primeiro trimestre de 2019. A participação de quem tem ensino médio (completo ou incompleto), por sua vez, passou de 36,7% para 38,2%, considerando a mesma base de comparação. Neste caso os números também eram menores anteriormente: 34,4% (primeiro trimestre de 2018) e 35,6% (primeiro trimestre de 2019). O trabalho usa como base os microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do IBGE.
Falta de empregos de qualidade na quantidade necessária, estrutura produtiva que não comporta o avanço da força de trabalho mais qualificada e algum efeito composição – com saída de trabalhadores menos escolarizados do mercado – são algumas das razões que contribuem para a mudança na distribuição dos trabalhadores por conta própria no pós-pandemia, segundo o grau de instrução, de acordo com especialistas em mercado de trabalho. Pesquisadores afirmam que a crise sanitária ajudou a intensificar um movimento que já era observado antes.
“Há um aumento da proporção de trabalhadores mais escolarizados entre os que trabalham por conta própria. Apesar de estar evoluindo, o mercado de trabalho não está com desempenho tão expressivo a ponto de oferecer postos de trabalho com qualidade. Então até os trabalhadores mais qualificados acabam aceitando alternativas de empregos de pior qualidade”, afirma o economista Bruno Ottoni, responsável pelo estudo e também professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).
Dos 4,4 milhões de postos de trabalho gerados entre o segundo trimestre de 2020 e igual período de 2021, os trabalhadores por conta própria foram 3,173 milhões (72,1%). Dentro dos que trabalham por conta própria, o grupo dos que têm ensino médio, ainda que não concluído respondeu por quase metade (46,3%) das novas vagas: 1,47 milhão. Já os de ensino superior foram 815 mil, ou um quarto (25,6%).
Na avaliação de Ottoni, o aumento da proporção dos mais qualificados no grupo dos que trabalham por conta própria é uma entre as diferentes sinalizações de um quadro ainda ruim do mercado de trabalho, apesar da melhora recente. Formas de inserção de trabalho com menos qualidade – como conta própria e subocupados – vêm registrando recordes, assim avançam os empregados do setor privado sem carteira assinada.
“A situação do mercado de trabalho piorou para todos, mesmo para os que são mais qualificados. O mercado de trabalho não está bem, ainda tem muita gente para voltar. O que vemos é mais subocupação, mais conta própria… Muita gente tendo que aceitar a oportunidade que aparece, mesmo não sendo de qualidade”, diz ele.
A pesquisadora do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) Maria Andréia Parente Lameiras acredita que uma pequena parcela desse avanço dos trabalhadores com ensino médio e superior entre os conta própria pode ser explicada pelo efeito composição – já que no auge do isolamento social houve mais impacto nas atividades mais ligadas a “bicos”, exercidas em geral por trabalhadores com menor instrução.
A fatia dos trabalhadores com ensino fundamental (completo ou incompleto) caiu de 41,2% no primeiro trimestre de 2020 para 37,8% no segundo trimestre de 2021. Em números absolutos, o número de pessoas nessa condição passou de 9,947 milhões para 9,385 milhões, considerando a mesma base de comparação, o que significa uma queda de 562 mil pessoas, segundo o levantamento do IDados.
“Mas a grande parte desse movimento tem a ver com o fato de que o emprego ficou escasso. A economia não está gerando muito postos de trabalho e mesmo este grupo com mais qualificação tem dificuldades. Quando tem crise, aumenta o conta própria. E a pandemia gerou um conta própria mais qualificado”, diz Maria Andréia.
Segundo ela, uma parte desses trabalhadores pode estar preferindo empreender do que apostar numa vaga de trabalho que exige menos qualificação, já que os setores com mais reação em postos de trabalho são os serviços e o comércio, com menos exigência de qualificação e rendimentos menores.
Pesquisadora do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit) da Unicamp, Marilane Teixeira considera ainda pequena a variação da participação dos mais escolarizados no total dos que trabalham por conta própria, mas afirma que a pandemia intensificou uma tendência que já vinha sendo observada em anos anteriores, que é a maior dificuldade de inserção dos profissionais mais qualificados devido à fraqueza da atividade econômica.
Maria Andréia Parente Lameiras concorda com essa avaliação, lembrando, além do baixo crescimento da economia, da influência do surgimento de novas formas de trabalho nos últimos anos – como os motoristas de aplicativo de transportes e os entregadores de serviços de alimentação.
Se por um lado houve o que Marilane chama de “mudança muito expressiva da qualificação dos trabalhadores” – com a parcela dos ocupados com ensino superior completo passando de 14,6% em 2012 -, o baixo crescimento da economia dificultou a criação de uma estrutura produtiva capaz de absorver essas pessoas, avalia ela.
“O Brasil vem perdendo capacidade de gerar empregos em setores estratégicos, seja pelo baixo crescimento, seja pela falta de investimentos, seja por perder o timing das novas tecnologias. O problema não é a qualificação da força de trabalho, que avançou, mas a estrutura produtiva da nossa economia. A pandemia exacerbou uma situação que já víamos. A opção para se inserir no mercado muitas vezes é em vagas que exigem menos qualificação”, explica.
Um dos pontos que dificultam a inserção dos trabalhadores, segundo os especialistas, é que os setores que mais têm gerado vagas são aqueles que exigem menor qualificação, como o comércio e os serviços.
“O mercado de trabalho ainda está muito deteriorado. E as vagas que estão surgindo são em serviços e em comércio, que não demandam tanta qualificação. Mesmo quando se olha os dados do Caged [Cadastro Geral de Empregados e Desempregados], que mostra os empregos formais, as vagas criadas são aquelas de rendimento de no máximo 1,5 salário mínimo. Então muitos dos profissionais mais qualificados preferem empreender”, aponta a pesquisadora do Ipea.
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