28 out Queda da taxa de desemprego esconde precarização do mercado de trabalho
Queda da taxa de desemprego esconde precarização do mercado de trabalho
Recuo para 13,2% vem junto com aumento do número de trabalhadores informais e queda recorde da renda.

O recuo mais intenso da taxa de desemprego no trimestre móvel encerrado em agosto, para 13,2%, divulgado ontem pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, esconde um cenário de recuperação precária do mercado de trabalho, com aumento do número de trabalhadores informais e queda recorde da renda. As perspectivas no médio prazo são negativas, dizem economistas, diante de um cenário de menor atividade econômica, já estimado pelo mercado.
O desemprego observado ficou bem abaixo dos 14,6% do trimestre encerrado em maio e dos 14,4% de igual período do ano passado. Foi, inclusive, a primeira redução da taxa na comparação anual desde o início da pandemia. O mercado esperava desemprego de 13,5%, segundo mediana de estimativas compiladas pelo Valor Data.
Em agosto, a população ocupada chegou a 90,2 milhões de pessoas, 4% a mais em relação ao trimestre móvel anterior. Quase 70% desse aumento, no entanto, foi de vagas informais, como sem carteira de trabalho assinada ou por conta própria. Este último grupo, inclusive, atingiu novo recorde, de 25,409 milhões.
“Esses dados comprovam, mais uma vez, a retomada do mercado de trabalho por serviços e empregos sem carteira assinada. O movimento é puxado por empregos de baixa qualidade e muito em razão do retorno desses trabalhadores à força de trabalho”, afirma Tiago Barreira, economista da consultoria iDados. “Esse tipo de atividade urbana, de serviços e de baixa remuneração tende a crescer de maneira mais vigorosa em relação a outras atividades.”
Outro indicador de recuperação precária foi a queda do rendimento médio real dos trabalhadores (soma de todos os trabalhos), que foi de R$ 2.489 no trimestre móvel até agosto. O valor indica quedas recordes de 4,3% ante o trimestre móvel anterior (R$ 112 a menos) e de 10,2% (R$ 282 a menos) na comparação interanual.
Contribuíram para este movimento, segundo Adriana Beringuy, coordenadora de Trabalho e Rendimento do IBGE, tanto o maior contingente de trabalhadores informais no mercado quanto a própria inflação.
“O rendimento caiu bastante. Ainda vamos ver um período de renda média bastante estagnada ou em queda”, diz Daniel Duque, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre). “Isso deve durar até voltarmos a uma normalidade econômica, à qual ainda não chegamos. Temos, antes, de absorver trabalhadores que ficaram fora do mercado na pandemia para, então, voltar ao período de normalidade. Isso vai levar no mínimo seis meses, se a economia tiver normalizada. Se cair o Produto Interno Bruto (PIB) cair no que vem, não há o que possa salvar a renda.”
Segundo Rodolfo Margato, economista da XP, “inflação persistentemente alta, ampla ociosidade no mercado de trabalho e mudanças na composição da população ocupada (com participação crescente das categorias de emprego informal que, em média, possuem rendimentos mais baixos) explicam a manutenção do rendimento médio da economia brasileira em níveis deprimidos”.
“É como se muitos informais estivessem voltando para o mercado de trabalho, mas precisando dividir o mesmo bolo de uma economia debilitada. Então, é uma deterioração grande do emprego que está voltando agora”, afirma Cosmo Donato, da LCA Consultores.
Segundo o economista, não deve haver melhoras desse cenário no médio prazo dadas as perspectivas de atividade econômica mais fraca nos próximos meses.
“As notícias de desaceleração da economia dão indícios de que esse cenário [de recuperação] vai continuar ocorrendo, mas um pouco mais devagar do que estávamos antecipando. A economia talvez não permita pessoas entrarem no mercado na velocidade que poderiam se o ritmo da economia estivesse melhor. A economia mais fraca começa a se configurar como um obstáculo”, afirma Donato.
Segundo Donato, a expectativa anterior era que a população ocupada fosse retornar ao nível pré-pandemia no fim de 2021. “Mas isso talvez fique para o primeiro semestre de 2022”, diz. Ele prevê recuperação do mercado de trabalho até o fim deste ano, quando a queda da taxa de desemprego deve começar a desacelerar.
Em relatório enviado a clientes, Alberto Ramos, economista-chefe para América Latina do banco Goldman Sachs, afirmou que o mercado de trabalho deve permanecer fraco, dada a expectativa de baixo crescimento da economia.
Segundo Ramos, a taxa de desemprego provavelmente permanecerá na casa dos dois dígitos por um longo período de tempo, já que um número ainda considerável de pessoas fora da força de trabalho começa a procurar emprego e retorna à força de trabalho em um ritmo mais rápido do que o de criação de novas vagas.
A XP projeta taxa de desemprego média de 13,7% para 2021 e de 12,4% para 2022. A estimativa da LCA é 12,8% para este ano.
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