Questões de saúde mental afetam líderes e liderados

Questões de saúde mental afetam líderes e liderados

Publicado em 9 de setembro de 2024

Cerca de três em cada dez profissionais brasileiros – entre líderes e liderados – foram diagnosticados com algum transtorno de saúde mental nos últimos doze meses. É o que mostra a quinta edição do estudo Inteligência Emocional e Saúde Mental no Ambiente de Trabalho, realizado pela The School of Life em parceria com a Robert Half. Obtido com exclusividade pelo Valor, o mapeamento captou a percepção de 387 gestores e 387 funcionários com nível superior completo, idade igual ou superior a 25 anos e de diferentes regiões do Brasil.

Entre os gestores, 28,78% receberam algum diagnóstico – estresse (10,49%), burnout (5,12%) ou ansiedade (13,17%). Entre os funcionários, foram 34,82% pessoas diagnosticadas, sendo 10,71% com estresse, 4,17% com burnout e 19,94% com ansiedade. Na parcela de líderes, 16,34% afirmaram não ter recebido diagnóstico médico, mas disseram que se sentem emocionalmente abalados. Entre os liderados essa porcentagem foi de 21,43%.

A pesquisa também quis mapear quantas pessoas fazem uso de alguma medicação psicofarmacológica para tratar questões de saúde emocional. Entre os gestores, 11,17% usam para aliviar sintomas de ansiedade – são 17,56% entre os liderados. Para dormir melhor, 6,80% dos chefes e 8,63% dos funcionários fazem uso de medicação. Já em relação ao uso de remédios para aumentar a produtividade, as porcentagens ficaram em 1,94% (líderes) e 2,08% (liderados).

O psicólogo Saulo Velasco, head de aprendizagem na The School of Life Brasil, comenta que essa incidência “relativamente alta de diagnósticos de estresse, burnout e ansiedade entre líderes e liderados sugere que as condições de trabalho contemporâneas têm prejudicado a saúde física e mental de muitos trabalhadores”. “Esse cenário pode ser ainda mais grave, considerando que muitos não buscam ajuda e permanecem sem diagnóstico adequado”, afirma.

Na visão dele, o uso de medicação psicofarmacológica para aliviar sintomas ou aumentar a produtividade reflete uma tentativa legítima, mas potencialmente insustentável, de lidar com essas pressões. “A menos que as causas subjacentes sejam abordadas, a medicação funcionará apenas como paliativo”, pontua. “Para enfrentar esse desafio, é essencial promover um equilíbrio entre trabalho, lazer e descanso, além de cultivar o bem-estar físico, emocional e mental.”

É sabido que nem todo transtorno de saúde emocional tem origem apenas no trabalho. Mas a pesquisa mostra que praticamente metade dos liderados (50,30%) consideram que a própria saúde mental é negativamente impactada pela maneira como a cobrança por produtividade acontece na empresa. “Evidentemente, os diagnósticos devem ser acompanhados de perto por um profissional da área de saúde”, afirma Maria Sartori, diretora associada da Robert Half, pontuando que não se pode esquecer do papel das lideranças nesse cenário. Na visão dela, as chefias devem reservar momentos para a gestão do time em todos os aspectos, inclusive comportamentais e emocionais. “É fundamental ter abertura para conversar, apoiar e encontrar, em parceria com o profissional, estratégias para lidar com as adversidades do dia a dia de trabalho de forma mais saudável.”

“O cenário pode ser ainda mais grave, considerando que muitos não buscam ajuda e seguem sem diagnóstico”

Na pesquisa, quase todos os gestores (94,17%) relataram adotar práticas que promovem a conexão com a equipe. Entre elas, conversas informais sobre assuntos pessoais e profissionais (resposta de 72,33% dos gestores na questão de múltipla escolha), feedbacks frequentes e construtivos (60,19%) e a adoção de um ambiente aberto para que os funcionários expressem suas preocupações sem medo de retaliação (59,47%).

Uma parte dos liderados (35,71%), porém, não sente que tem proximidade com seus líderes diretos e alguns (18,45%) revelam sentir que isso afeta negativamente o desempenho, a motivação e o engajamento no trabalho.

Entre os gestores, quase a metade (47,82%) não sente que possui as ferramentas necessárias para apoiar a saúde mental de suas equipes. Entre os liderados, 63,10% afirmaram que seu líder não possui as ferramentas necessárias para apoiar a saúde mental do time.

Sobre equilíbrio entre vida pessoal e trabalho – pilar fundamental para a manutenção da saúde física e mental -, 40,78% dos líderes disseram que a empresa oferece horários de trabalho flexíveis, o que contribui para manter essa balança mais equilibrada. Também foram mencionados aspectos como incentivo (da empresa) à desconexão digital fora do horário de expediente (21,60%), estabelecimento de limites claros para comunicação fora do horário de trabalho (16,02%), criação de um ambiente que respeita as necessidades familiares e pessoais dos funcionários (29,85%) e implementação de políticas de home office, trabalho remoto ou jornada híbrida (37,86%). As respostas foram coletadas entre julho e agosto.

Fonte: Valor Econômico
No Comments

Sorry, the comment form is closed at this time.