Questões de saúde mental custam quase 1 milhão de horas de trabalho em seis meses

Questões de saúde mental custam quase 1 milhão de horas de trabalho em seis meses

Publicado em 16 de setembro de 2026

Ansiedade responde por 67% dos afastamentos e depressão gera ausências mais longas, segundo levantamento que analisou mais de 8 mil atestados do primeiro semestre.

Nos primeiros seis meses de 2026, 957.576 horas deixaram de ser trabalhadas por questões ligadas à saúde mental. O número aparece em um levantamento feito pela VR, empresa de soluções para trabalhadores e empregadores, e antecipado ao Valor.

A VR analisou 8.198 atestados por saúde mental das mais de 75 mil empresas clientes que usam os serviços de RH digital da companhia, no período de janeiro a julho. Os casos com 30 dias ou mais de afastamento representaram 15,8% dos registros, mas responderam por 67% de todos os dias de ausência e 182.176 horas não produtivas. Já os afastamentos de 60 dias ou mais (incluídos na porcentagem citada anteriormente) representaram 8,3% dos atestados médicos totais, mas concentram 48% dos dias de ausência e 459.296 horas não produtivas, o maior impacto em produtividade do levantamento, segundo a análise da VR. Os atestados com menos de 30 dias representam 84,2% do total.

Willian Gil, diretor-executivo de jurídico, relações institucionais e governança corporativa da VR, comenta que o total de horas não produtivas chama atenção, mas, para ele, talvez o ponto mais importante seja perceber em que momento esse problema costuma aparecer para as empresas.

“Muitas vezes, a organização só consegue dimensionar a situação quando o trabalhador já precisou se afastar e, em alguns casos, por períodos bastante longos”, afirma. “Quando a atuação acontece apenas nesse estágio, ela acaba sendo muito mais reativa, enquanto o ideal é que existam condições para perceber antes os sinais de que algo não vai bem e evitar que determinadas situações se agravem.”

Ele recomenda que as empresas comecem a se preparar antes que o afastamento aconteça, criando condições para que o trabalhador consiga exercer sua atividade de forma saudável e para que eventuais sinais de sobrecarga sejam percebidos com antecedência. “Esse cuidado faz parte da responsabilidade do empregador com as pessoas, mas também da própria capacidade da organização de se sustentar ao longo do tempo”, afirma.

A ansiedade é o principal motivo de afastamentos, segundo o relatório, com 67% dos atestados e 43% dos dias de ausência, um total de 412.808 horas não trabalhadas. A depressão responde por 15% dos registros e acumula 27% dos dias, totalizando 258.248 horas não produtivas. Isso significa que a ansiedade afasta mais pessoas, já a depressão afasta por mais tempo, analisa a VR.

São Paulo lidera em volume de afastamentos, com 34,7% dos atestados e 34,4% dos dias de ausência. Minas Gerais e Rio de Janeiro chamam atenção pela duração: os mineiros concentram 12,9% dos dias contra 11,4% dos registros, e os fluminenses, 5,3% dos dias contra 4,5% dos atestados — sinal de casos mais longos que a média, analisa a VR.

“A saúde mental é influenciada por diferentes fatores, dentro e fora do ambiente profissional, mas isso não diminui a responsabilidade das empresas sobre aquilo que acontece no trabalho”, afirma Gil. “A NR-1 reforça justamente essa necessidade ao colocar os riscos psicossociais dentro da agenda de saúde e segurança ocupacional, o que exige que as organizações conheçam melhor a realidade dos seus trabalhadores e tenham elementos concretos para avaliar onde pode haver algum tipo de risco.”

Esse acompanhamento, ele detalha, passa por informações que muitas empresas já possuem, mas nem sempre analisam de forma conjunta, como jornada de trabalho, horas extras, afastamentos, recorrência de atestados, tempo de ausência e concentração desses casos em determinadas áreas ou equipes. “Quando esses indicadores são acompanhados ao longo do tempo, o empregador consegue ter uma visão mais clara do que está acontecendo na operação e avaliar onde é necessário rever processos, carga de trabalho, organização das equipes ou a própria atuação das lideranças.”

Fonte: Valor Econômico
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