Rápida retomada do mercado de trabalho não é sustentável

Rápida retomada do mercado de trabalho não é sustentável

Publicado em 2 de agosto de 2022

Rápida retomada do mercado de trabalho não é sustentável.

O mercado de trabalho vem mostrando rápidas melhorias nos últimos meses. O número de desocupados diminui, enquanto crescem as contratações. Baseados nesse desempenho mais positivo, alguns bancos até aumentaram a previsão para o Produto Interno Bruto (PIB) neste ano. Nos detalhes, porém, os resultados deixam a desejar. O número de informais é recorde, a renda real vem encolhendo e os trabalhadores com menor escolaridade estão ficando para trás. Além disso, a perspectiva é que a melhora terá vida breve e pode ser revertida no próximo ano, quando se esgotarão os estímulos de curto prazo que o governo implementou para atrair apoiadores nas próximas eleições.

De acordo com a Pnad Contínua, apurada pelo IBGE, a taxa de desemprego caiu para 9,3% no segundo trimestre, bem abaixo dos 11,1% do primeiro trimestre e dos 9,8% do trimestre móvel encerrado em maio. Há um ano, a taxa estava em 14,2%, e agora chega ao menor patamar para o período desde o segundo trimestre desde 2015, quando tinha ficado em 8,4% e o país entrava em recessão.

O segundo trimestre fechou com 10,1 milhões de desempregados, 15,6% ou 1,9 milhão de pessoas a menos do que no primeiro trimestre; e 32% a menos, ou 4,8 milhões de pessoas, do que no mesmo período de 2021. A população ocupada, incluindo empregados, empregadores e funcionários públicos, era de 98,3 milhões de pessoas, recorde para a série histórica da pesquisa, iniciada em 2012. Isso representa alta de 3,1% em relação ao primeiro trimestre, ou 3 milhões de pessoas ocupadas a mais, e 9,9%, ou 8,9 milhões de pessoas a mais do que no primeiro trimestre do ano passado.

As estatísticas do Ministério da Previdência e Emprego também são positivas. O Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) registrou, em junho, a criação de 278 mil empregos com carteira assinada. Foi o terceiro mês consecutivo de crescimento, acumulando 1,3 milhão no semestre. A expansão é alavancada pelo setor de serviços, que está recuperando o espaço perdido durante o auge da pandemia, e foi responsável por praticamente metade das vagas de junho. Nem todas as atividades retomaram o patamar anterior à pandemia, porém, e há pontos frágeis nessa recuperação.

O número de trabalhadores informais é recorde – 39,3 milhões de pessoas -, desde que começou a série histórica desse dado, no quarto trimestre de 2015. A conta leva em consideração os trabalhadores sem carteira assinada, inclusive auxiliares domésticos e por conta própria sem CNPJ. A taxa de informalidade é de 40% da população ocupada. Dos cerca de 3 milhões que arrumaram emprego no segundo trimestre, 36,8%, ou aproximadamente 1 milhão, tiveram que se contentar em não ter a carteira assinada.

Há ainda um número não desprezível de pessoas que nem isso consegue: são aqueles sem instrução ou com ensino fundamental incompleto, grupo que ainda não voltou ao nível de ocupação anterior à pandemia. Levantamento feito por pesquisadores do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) a partir de microdados da Pnad Contínua constatou que o número de trabalhadores menos escolarizados era de 20,14 milhões no fim do primeiro trimestre, 5,2% a menos do que os 21,25 milhões do primeiro trimestre de 2020.

As demais faixas, com ensino fundamental completo, médio completo ou superior completo, recuperaram as perdas causadas pela pandemia. A defasagem é atribuída ao fato de que o setor de serviços, que tem espaço para os de menor qualificação, ainda não se recuperou completamente.

 Mais um sinal de fragilidade do mercado é a renda média dos trabalhadores, que está 5,1% abaixo da de um ano atrás, indicando que os salários estão deprimidos diante da insegurança em relação à continuidade da recuperação da economia.

Parte das instituições financeiras receia uma piora do mercado de trabalho ao longo do segundo semestre, com as incertezas causadas pelas eleições, os efeitos defasados da alta de juros doméstica e externa. Mas outra parte prevê esse quadro mais negativo só para 2023, apostando que os negócios serão aquecidos pelos estímulos dados pelo pacote eleitoral do governo e medidas para baixar a inflação. O Bradesco, por exemplo, acaba de elevar a previsão para o PIB deste ano de 1,8% para 2,3%, cenário que inclui a queda da desocupação até 8% ao final do ano. O BNP Paribas prevê 2,5%. Mas há um consenso: para 2023 a melhor hipótese é de estabilidade do PIB.

Fonte: Valor Econômico
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