01 jul Reação do emprego não é acompanhada por avanço da renda
Reação do emprego não é acompanhada por avanço da renda
Taxa de desemprego fica abaixo de 10% pela primeira vez em mais de seis anos, aponta IBGE.

A taxa de desemprego no trimestre de março a maio ficou abaixo de 10% pela primeira vez em seis anos, com recorde de população ocupada, mas a melhora veio acompanhada de uma queda de mais de 7% na renda média do trabalhador na comparação anual, com rendimentos mais baixos mesmo nas vagas formais, que tradicionalmente pagam mais.
O índice ficou em 9,8% no trimestre encerrado em maio de 2022, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O resultado ficou abaixo da mediana das expectativas de 30 consultorias e instituições financeiras ouvidas pelo Valor Data, que apontava para uma taxa de 10,2% no trimestre.
Os dados vieram melhor que o esperado, mas a expectativa para os próximos trimestre é de desaceleração na melhora. Uma das preocupações dos economistas é com o aumento da força de trabalho, que pode contribuir para um aumento da taxa de desemprego.
Entre março e maio, a população ocupada (empregados, empregadores, funcionários públicos) era de 97,5 milhões de pessoas, recorde para a série histórica, iniciada em 2012. O número de trabalhadores informais atingiu recorde de 39,1 milhões de pessoas. No período de março a maio de 2022, a taxa de informalidade foi de 40,1% da população ocupada, contra 40,2% no trimestre anterior.
O aumento da população ocupada, porém, não tem se traduzido em crescimento da renda. E isso ocorre mesmo no mercado de trabalho formal, que tradicionalmente tem rendimentos maiores.
A renda média dos trabalhadores avançou 0,7% no trimestre encerrado em maio de 2022. O movimento, no entanto, é classificado como estabilidade pelo instituto. Na comparação com igual período de 2021, a renda média permanece em queda, com retração de 7,2%, diferença de R$ 204.
“Parece que realmente as ocupações, mesmo aquelas formais, não têm necessariamente tido expansão do rendimento. Embora com mais ocupação, não tendo como contrapartida automática um processo de crescimento do rendimento”, diz Adriana Beringuy, coordenadora do IBGE.
Os rendimentos reais médios ainda em níveis historicamente baixos têm sido incentivo às contratações e têm contribuído para a melhora na taxa de desemprego, em meio ao ingresso maciço de pessoas no mercado de trabalho e a uma pressão inflacionária ainda alta, diz Tiago Barreira, economista do iDados.
A melhora do indicador, explica, era esperada em razão dos níveis ainda baixos de rendimentos médios reais, o que gera “incentivo” às contratações, que acabam tendo custo relativamente barato.
Em boletim divulgado pelo Goldman Sachs, o economista Alberto Ramos indica que a recuperação do mercado de trabalho no primeiro semestre de 2022 foi mais ampla e profunda do que o inicialmente previsto. Para os próximos trimestres, diz, a expectativa é que essa tendência de fortalecimento se desacelere.
A taxa de desemprego também pode ser impactada se o número ainda considerável de trabalhadores desalentados – de 4,3 milhões de pessoas – comece a procurar emprego e retorne à força de trabalho ativa, avalia Ramos.
Stephan Kautz, economista chefe da EQI Asset, também aponta para o efeito que a alta da força de trabalho pode ter na taxa de desemprego. A melhora da taxa, diz, foi puxada pela população ocupada, e não por saída de pessoas do mercado de trabalho, com estabilidade na taxa de participação. Uma alta dessa taxa, porém, pode compensar a melhora da ocupação nos próximos meses, avalia.
No decorrer do segundo semestre é esperada também uma desaceleração de crescimento dos postos formais de trabalho em razão do fim de estímulos concedidos pelo governo federal e por maior impacto do aperto monetário, embora o mercado de trabalho reflita mais tardiamente esses efeitos.
A perspectiva é de alguma desaceleração no mercado de trabalho assim que os efeitos de uma política monetária mais apertada começarem a aparecer principalmente a partir do segundo semestre do ano, segundo o economista Gabriel Couto, do Santander.
Sorry, the comment form is closed at this time.