Reforma do ensino médio ajuda no acesso de jovens ao mercado de trabalho, diz Lucchesi

Reforma do ensino médio ajuda no acesso de jovens ao mercado de trabalho, diz Lucchesi

Publicado em 6 de outubro de 2021

Para Rafael Lucchesi, diretor do Senai, Sesi e CNI, sistema educacional do Brasil começa a se aproximar dos mais bem-sucedidos no mundo.

A reforma do ensino médio, que já começou a ser implementada em 17 Estados desde o ano passado e passará a ser executado de forma obrigatória em todo o país a partir do ano que vem, é uma oportunidade para que o sistema educacional do Brasil comece a convergir em direção às práticas mais bem-sucedidas do mundo. Além disso, gradualmente, deve melhorar a produtividade de maneira geral e a empregabilidade dos mais jovens. Essa é a visão do diretor de Educação e Tecnologia da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e também diretor do Senai e do Sesi, Rafael Lucchesi.

O economista, que falará nesta quarta-feira sobre os impactos e as perspectivas da educação profissional no “Seminário Internacional Educação, Juventudes e Trabalho”, realizado pelo Sesi e pelo Senai em parceria com o Canal Futura e a Fundação Roberto Marinho, defende que o novo método ajudará a reduzir a resistência dos mais jovens na hora de se engajarem no mercado de trabalho.

“Comparativamente, o Brasil está indo ao encontro do sistema educacional dos países desenvolvidos e dos emergentes mais bem-sucedidos”, comentou Lucchesi em entrevista ao Valor. O crescimento econômico da China e da Índia foi precedido por uma revolução educacional com ganhos de produtividade que se traduziram em ganhos de renda”, acrescentou.

O executivo destaca que a chamada quarta revolução industrial obrigará os trabalhadores da nova geração, em um futuro já bastante próximo, a resolver problemas diferentes dos que se resolvem hoje.

Diante do cenário, Lucchesi argumenta que é fundamental redirecionar o sistema educacional e colocá-lo no modelo mundialmente conhecido como STEM (na sigla em inglês), que compreende em alterar um método de disciplinas em número excessivo para áreas de conhecimento – ciências, tecnologia, engenharia e matemática – com itinerários a serem escolhidos pelos alunos a partir do primeiro ano do ensino médio. Assim, eles priorizam qual área pretendem adquirir conhecimentos de maneira mais reforçada para competirem por melhores empregos quando saírem da escola.

“É a forma de se criar o conceito de economia inovadora”, diz. No Brasil, 30% dos jovens nem trabalham nem estudam, o que é um quadro sociológico dramático. Temos os empregos, as vagas, mas não temos a formação, a qualificação”, aponta.

Lucchesi argumenta que os índices de desemprego são menores entre jovens em países com ensino profissional mais forte. Ele cita como exemplo a Alemanha, onde aproximadamente 45% dos estudantes do equivalente ao ensino médio possuem uma educação profissionalizante. Ele também cita o “common core”, sistema dos EUA parecido ao novo modelo brasileiro aprovado em 2017 e que por aqui ganhou o nome de Base Nacional Comum Curricular.

“Pegando a produtividade relativa do trabalho, precisamos de quatro trabalhadores brasileiros para equivaler a produtividade de um americano. E de três brasileiros para equivaler a produtividade de um alemão”, observa Lucchesi.

Sobre as críticas de que a obrigatoriedade da educação profissional pode ser excludente, pois reservaria os trabalhos intelectuais para os mais ricos que vão para as universidades, enquanto os mais pobres entram mais cedo no mercado em funções técnicas, Lucchesi rebate: “Antes da reforma do ensino médio, o selo era o de que todo mundo pode ir a uma universidade, mas na verdade é uma minoria que vai. O restante era solenemente ignorado pelo sistema educacional. Fico impressionado que alguém continue defendendo essa perspectiva. Ela não tem nenhum sentido de justiça social”.

O economista ligado ao Senai e à CNI diz que, no Brasil, existe uma visão “elitista”, “atrasada” e “equivocada” de desmerecer o trabalho manual, embora sejam funções bem pagas na indústria tanto quanto muitas profissões que passam por formação acadêmica. “Temos problemas fundamentais como sociedade que precisamos expurgar.”

Apesar da defesa veemente da reforma educacional no país, Lucchesi admite que há desafios consideráveis na implementação.

“Temos dificuldades. Uma importante é a contínua formação dos professores. O esforço [pessoal] é fundamental e nem sempre isso acontece no tempo certo. É uma situação de copo meio cheio, meio vazio”.

Fonte: Valor Econômico
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