22 nov Retorno ao trabalho presencial vai exigir readaptação das pessoas
Retorno ao trabalho presencial vai exigir readaptação das pessoas
Os profissionais começaram a refletir sobre o sentido das suas atividades e do uso do tempo e isso pode ter influência no médio e longo prazo, diz psicanalista.
Com o avanço da vacinação e o controle da pandemia no Brasil, o retorno ao trabalho presencial se tornou a pauta do momento nas empresas e o processo possui várias implicações subjetivas, entre elas a readaptação dos funcionários ao ambiente após quase dois anos trabalhando em casa.
Segundo o psicanalista Daniel Kupermann, até a vestimenta e o comportamento diante dos colegas voltará ao foco. Além disso, a própria maneira como as pessoas veem as suas relações com o trabalho podem ser afetadas no médio e longo prazo, disse o professor da Universidade de São Paulo (USP) durante participação na Live do Valor na última sexta-feira.
“No home office, não é que houve um relaxamento absoluto [em relação à imagem pessoal], mas na tela há um privilégio do rosto. Houve, por exemplo, um aumento de procura por cirurgias plásticas. Mas houve uma centralidade no rosto. Quando retornamos ao presencial, há uma maior presença do nosso corpo e do dos outros. No home office, as pessoas podiam trabalhar de shorts ou chinelos, partes que não aparecem usualmente no vídeo”, disse Kupermann.
Contudo, esse será apenas o primeiro impacto. Para o psicanalista, já há pessoas que começaram a refletir sobre questões mais profundas. “Nós escutamos no cotidiano dos consultórios de psicanálise que a pandemia provocou o que nós chamamos de uma crise dos sentidos, algo que já está sendo discutido inclusive com colegas dos EUA e Europa. As pessoas começaram a refletir sobre o sentido das suas atividades, do uso do tempo. Isso pode provocar, a médio e longo prazo, uma modificação na relação que algumas pessoas têm com o trabalho”, disse o psicanalista.
Segundo ele, isso deve demorar mais para ser visto com clareza. “Existe um tempo de elaboração psíquica das questões. Em geral, não automático. Não é imediato. Muitas vezes, nós somos afetados por determinadas questões e levamos muito tempo para que essas questões sejam elaboradas e levem a mudanças de atitude concretas na vida”, comentou.
O psicanalista também afirmou que será muito difícil encontrar uma fórmula para voltar a gerir o tempo como se fazia antes da pandemia.
“O tempo foi rapidamente capturado pelas exigências de produtividade. Até o tempo entre transporte e trabalho, que em tese ficou ocioso, foi capturado pelo trabalho”, observou.
Para Kupermann, trabalhar em casa acentuou uma característica imposta à sociedade pelo modelo capitalista. “Nós vivemos um momento nas relações de trabalho e de produção no qual estamos submetidos de alguma maneira muito intensa ao que nós chamamos de princípio de desempenho, cada vez mais. Houve uma percepção, a partir da ideologia do vencedor contra o perdedor, de que isso vem exclusivamente do nosso mérito. Ao mesmo tempo, a nossa cultura foi ficando muito mercantilista. O valor da pessoa é muito associado ao sucesso profissional ou financeiro que essa pessoa tem. E, se o valor de alguém depende do sucesso profissional ou financeiro, o tempo está totalmente capturado por essas relações”, afirmou.
De acordo com o psicanalista, a pandemia fortaleceu esse cenário. “Num primeiro momento, pela enorme incerteza, houve um aumento da dedicação ao trabalho. Até porque as pessoas ficaram com medo de perder o emprego”, disse.
Segundo Kupermann, ainda é difícil prever quais as novas rupturas que o retorno ao trabalho presencial podem provocar.
Sorry, the comment form is closed at this time.