04 nov Revisão do Caged corta pela metade geração de emprego formal em 2020
Revisão do Caged corta pela metade geração de emprego formal em 2020
Atraso no envio de dados explica queda do saldo 142,69 mil para 75,88 mil vagas no ano.

A recuperação do emprego formal em 2020, em plena pandemia, foi bem menor do que se acreditava. Em vez das 142.690 vagas abertas no ano, o saldo positivo do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) foi atualizado para 75.883, um número 46,82% menor. A queda se explica pela incorporação de informações enviadas fora do prazo pelas empresas.
Em janeiro deste ano, o governo informou que haviam sido realizadas 15.166.221 admissões e 15.023.531 desligamentos em 2020. O resultado foi comemorado pelo ministro da Economia, Paulo Guedes. Segundo os dados revisados mais recentes, divulgados em outubro deste ano, os números mudaram para 15.437.117 admissões (alta de 1,79% em relação ao registrado antes), e 15.361.234 desligamentos (aumento de 2,25%). A revisão dos números foi revelada pelo portal R7.
“Ressaltamos que, mesmo com a mencionada revisão, o saldo do Caged de 2020 se mantém positivo, em que pese o pior momento da pandemia da covid-19”, informou o Ministério do Trabalho e Previdência por meio de nota. “Este ano, o Brasil já registra saldo de mais de 2,5 milhões de empregos formais.”
A pasta esclarece que os dados podem ser atualizados até 12 meses após a data da movimentação. Diz ainda que a possibilidade de realizar declaração fora do prazo já existia no antigo Caged, “havendo uma ocorrência um pouco maior neste momento devido ao processo de transição para a declaração via eSocial.”
Ao longo da pandemia, especialistas alertaram para o risco de subnotificação dos desligamentos pelas empresas. Técnicos da Secretaria Especial de Previdência e Trabalho do Ministério da Economia (agora Ministério do Trabalho e Previdência) foram questionados sobre o tema diversas vezes e negaram essa possibilidade.
Segundo membros da pasta, após uma dificuldade verificada nos primeiros meses da pandemia, não foram mais observadas oscilações anormais nos registros. Em julho do ano passado, o então secretário de Trabalho (atual secretário-executivo do Ministério do Trabalho e Previdência), Bruno Dalcolmo, disse que não era preciso “desconfiar” de dados positivos. Ele também já afirmou que se, de fato, houvesse uma subnotificação os próprios trabalhadores se manifestariam, pois não teriam acesso ao seguro-desemprego.
Um dos economistas que alertaram para esse risco foi o pesquisador Daniel Duque, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre). Em outubro de 2020, ele publicou trabalho no qual chamava atenção para a desaceleração das demissões entre maio e agosto, e apontava para duas possíveis explicações: os efeitos do Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda (BEm) e a subnotificação das demissões por parte das empresas.
Especialistas ouvidos pelo Valor afirmaram que a revisão revela uma retomada mais fraca do que se sabia, mas não muda a trajetória de recuperação, nem tem implicação sobre o cenário atual. “A revisão dos dados não muda a trajetória, e sim o nível”, disse Duque. Não se nega que houve recuperação do emprego a partir do segundo semestre de 2020, acrescentou.
O economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, diz que as revisões dos dados do Caged são normais. “De qualquer maneira, segue sendo verdade que os dados de 2020 estão descasados da queda de atividade naquele ano”, comentou. “A melhora na ocupação de formais mais recente que a Pnad tem apontado é mais coerente com o que está acontecendo do que o Caged, que já reportava forte expansão no ano passado.”
Professor de Economia da Universidade Presbiteriana Mackenzie e pesquisador do Centro Mackenzie de Liberdade Econômica, Ulisses Ruiz de Gamboa, afirmou que as revisões sempre ocorreram, mas que não se recorda de uma mudança tão grande nos números. Ele ponderou que a alteração da metodologia do Caged, no ano passado, pode explicar esse fato. A revisão mostra uma recuperação menor e mais aderente à realidade, completou.
Economista da XP Investimentos, Rodolfo Margato reforçou que a revisão dos dados do emprego formal não altera o cenário para recuperação de vagas. Há problemas no mercado de trabalho, aponta, como a precarização e o mercado informal ainda com dados deprimidos. Outros fatores, como a insegurança na política fiscal, podem afetar mais o emprego do que uma revisão de dados, comentou.
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