Salários caíram muito e ensaiam recuperação

Salários caíram muito e ensaiam recuperação

Publicado em 1 de dezembro de 2022
Por Editorial Valor Econômico

A melhoria do emprego está desacelerando, como mostram taxas decrescentes de aumento da população ocupada.

Os salários reais dos trabalhadores vêm levando uma surra em relação ao que eram antes da pandemia. Isso não aconteceu só no Brasil, mas também no G-20, que agrupa as nações mais ricas do mundo. Os rendimentos no país caíram com a pandemia, como em quase todo lugar, porém continuaram caindo quando a economia começou a se recuperar, a partir de meados de 2020, o que foi mais raro, segundo relatório sobre salários globais divulgado ontem pela Organização Internacional do Trabalho. O IBGE divulgou também ontem que o rendimento médio habitual cresceu no trimestre encerrado em outubro, como já tinha feito no trimestre encerrado em setembro. E mesmo assim, continua abaixo do registrado no último trimestre de 2019.

A queda da participação dos salários no G-20, empregador de 60% da mão de obra mundial, foi generalizada. Nunca isso tinha acontecido antes na compilação da OIT, que começou em 2008. O encolhimento da renda assalariada no grupo foi de 0,9%, na comparação entre o segundo trimestre de 2022 e o último trimestre de 2019, antes da eclosão da covid-19. Na verdade, a redução foi pior e atingiu -1,4% se for excluída a China, que já paga salários médios mais altos. Outra proeza chinesa foi que o salário real médio do país é hoje 2,6 vezes maior do que era em 2006. Apesar do recuo mais intenso dos rendimentos nos países desenvolvidos, sua distância dos emergentes continua grande: US$ 4 mil ante US$ 1.800.

No período entre o último trimestre de 2019 e o primeiro semestre de 2022, o salário real brasileiro caiu 18,2% e a massa salarial real, 16%. Os motivos mais óbvios foram o enorme desemprego após a pandemia, que atingiu mais os trabalhadores informais que os formais, e a disparada da inflação. Chama a atenção que desta vez a redução dos vencimentos tenha sido puxada mais pelos homens do que pelas mulheres.

Antes da pandemia, no quarto trimestre de 2019, o salário habitual real do trabalhador brasileiro era de R$ 2.790 e agora, nos três meses encerrados em outubro, de R$ 2.754. A queda rápida do desemprego, de 12,6% no terceiro trimestre de 2021 para 8,3% no trimestre móvel findo em outubro, mostra aquecimento no mercado de trabalho, que começou claramente a puxar para cima os salários a partir de meados do ano. Com isso, no trimestre encerrado em setembro, a massa de rendimentos real cresceu 11,1% sobre os mesmos meses de 2021, crescendo R$ 10 bilhões (de R$ 259 bilhões no trimestre anterior para R$ 269,5 bilhões agora.

A recuperação dos salários corrobora outros indicadores econômicos que apontam na direção de um PIB no terceiro trimestre um pouco mais robusto do que indicavam as expectativas na primeira metade do ano. Há desaceleração da economia, mas sua intensidade foi até certo ponto postergada. A grande carga de juros aplicada pelo Banco Central para derrubar a inflação ainda não produziu seus mais intensos efeitos e tem sido contrarrestada pela forte quantidade de estímulos dados pelo governo Jair Bolsonaro, em sua mal-sucedida tentativa de conseguir se reeleger. Possivelmente, um desempenho mais fraco será a marca do último trimestre do ano e a primeira queda das vendas da Black Friday pode ser um sinal claro disso.

No terceiro trimestre do calendário (os do IBGE são móveis), os salário reais mostraram avanço maior fora do eixo Rio-São Paulo. Cresceram mais no Centro-Oeste (6,8%), em Minas (5,6%), no Sul (5,1%) e no Nordeste (4,4%) do que o dos trabalhadores fluminenses (0,9%) ou paulistas (1,8%). A maior taxa de aumento, que deve ter melhorado em outubro, foi a do Distrito Federal (8,4%), onde o grande empregador é o Estado. Segundo o IBGE, o número de trabalhadores do setor público bateu recorde no trimestre findo em outubro, com 12,3 milhões – 1,2 milhão de pessoas a mais que em igual período de 2021.

A melhoria do emprego está desacelerando, como mostram taxas decrescentes de aumento da população ocupada e os números do Caged, que consideram apenas o trabalho formal. Há mais estímulos a caminho, porém, com o novo governo. Na pior das hipóteses, haverá mais um furo do teto para não só manter programas sociais como também para algum avanço modesto dos investimentos. A política monetária e a fiscal seguirão caminhando em direções diferentes, o que é errado, podendo produzir uma desaceleração não tão forte e uma queda da inflação menor do que a adequada.

Fonte: Valor Econômico
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