Saúde mental: apenas 38% das empresas possuem políticas e estruturas consistentes

Saúde mental: apenas 38% das empresas possuem políticas e estruturas consistentes

Publicado em 23 de abril de 2026

Pesquisa que ouviu 106 executivos de empresas nacionais e multinacionais mostra que, apesar de o tema estar em alta, são poucas as organizações que tocam em pontos mais sensíveis como carga de trabalho, metas e formas de gestão.

O tema da saúde mental no ambiente corporativo tem sido muito comentado, às vésperas da entrada em vigor da atualização da NR-1, que inclui riscos psicossociais entre os riscos organizacionais. Mas um novo levantamento, que ouviu 106 executivos de empresas nacionais e multinacionais, sendo 52,8% em posições de C-level e diretoria, mostra que a maioria ainda não trata a saúde mental como uma agenda de governança.

Na amostra da pesquisa “Saúde mental nas empresas, segundo os executivos”, 60% das companhias já avançaram no tema, seja por meio de iniciativas culturais ou programas formais. No entanto, apenas 38% possuem políticas e estruturas consistentes, com indicadores, acompanhamento e integração à estratégia do negócio.

Renata Fabrini, sócia-fundadora da consultoria de recrutamento executivo Plongê, responsável pela pesquisa, diz observar que há muita empresa já com o tema da saúde mental no radar: aparece em benefícios, conversas, campanhas, apoio psicológico, flexibilidade e treinamentos. “Isso já mostra avanço. Mas, em muitos casos, ainda estamos falando de iniciativas soltas, pouco estruturadas, muito concentradas no RH ou na sensibilidade de algumas lideranças”, detalha. “Quando entram política, indicadores, monitoramento e conexão com a gestão, a conversa muda de patamar. A saúde mental deixa de ser tratada apenas como acolhimento ou benefício e passa a ser entendida também como tema de cultura, liderança, prevenção e risco organizacional e, num estágio mais maduro, passamos a falar inclusive de saúde social, da forma como a empresa se organiza, se relaciona e existe no mundo.”

Ela comenta que num cenário mais desenvolvido, o cuidado deixa de depender só de gestores mais atentos ou da atuação do RH e passa a fazer parte do jeito como a organização lê a si mesma e opera. “Sai de uma lógica mais reativa em que a empresa age quando o problema já apareceu para uma lógica mais preventiva e cuidadosa, com mais capacidade de identificar sinais, acompanhar padrões e revisar dinâmicas de trabalho que podem estar produzindo adoecimento.”

Cerca de 18% das empresas que participaram da pesquisa operam com ações pontuais, como campanhas, palestras e benefícios, sem conexão com liderança, cultura ou indicadores.

“O que aparece na pesquisa não é exatamente uma rejeição aberta ao tema [da saúde mental], mas uma dificuldade de dar a ele a centralidade que pede”, diz Fabrini. “Em muitos relatos, a saúde mental ainda não entrou, de fato, na agenda da organização como um todo: segue mais restrita ao RH, aparece para cumprir protocolo ou exigência, ou perde espaço quando os indicadores parecem ‘sob controle’.”

Fabrini afirma que quando a agenda é levada a sério, ela inevitavelmente encosta em pontos mais sensíveis como carga de trabalho, metas, formas de gestão, segurança psicológica, assédio, exclusão velada de quem adoece e preparo real das lideranças para lidar com isso.

Fonte: Valor Econômico
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